Açúcar em excesso tem impactos físicos e psicológicos
Consumo elevado interfere diretamente na química cerebral e pode causar transtornos psiquiátricos
Postado em 24/03/2025

O consumo excessivo de açúcar está diretamente ligado a diversos impactos negativos na saúde física e mental. De acordo com um estudo publicado na National Library of Medicine, uma meta-análise que incluiu 40 estudos e mais de 1,2 milhão de participantes revelou que a ingestão elevada de açúcar aumenta o risco de depressão em 21%. Especialistas alertam que o açúcar pode afetar o humor, a concentração e até aumentar a predisposição a transtornos como depressão e ansiedade.
A nutricionista Tane Hermuche destaca que há muita desinformação sobre o papel do açúcar e dos carboidratos na saúde metabólica. Segundo ela, muitas pessoas acreditam que apenas o açúcar refinado é prejudicial, quando, na realidade, todos os carboidratos se transformam em glicose no organismo. “No consultório, vejo pacientes que, mesmo sem consumir açúcar refinado, chegam com pré-diabetes ou diabetes, pois ingerem grandes quantidades de carboidratos que também elevam a glicemia”, explica.

Imagem: Lara Lima
A especialista clínica médica, pós graduada em nutrologia, Dra. Bianca Trindade, reforça que o consumo elevado de açúcar interfere diretamente na química cerebral, afetando neurotransmissores essenciais para o bem-estar emocional. “O açúcar age como um interferente poderoso no cérebro, desregulando neurotransmissores que influenciam nosso humor e emoções”, afirma.
Os principais neurotransmissores impactados pelo açúcar são:
- Serotonina: fundamental para a sensação de bem-estar, sofre flutuações com o alto consumo de açúcar, podendo causar oscilações de humor;
- Dopamina: relacionada ao prazer e à recompensa, pode ser superestimulada, gerando um ciclo de dependência semelhante ao observado em vícios;
- GABA: responsável por acalmar o sistema nervoso, tem sua eficácia reduzida, aumentando a ansiedade e a inquietação.
Além disso, o consumo exagerado de açúcar provoca picos de glicose no sangue, seguidos por quedas bruscas, o que gera fadiga e dificuldades de concentração. Esse efeito, conhecido como hipoglicemia reativa, está diretamente ligado ao que a nutricionista Tane Hermuche chama de “ciclo insano do carboidrato”. “Quando uma pessoa consome muito açúcar ou carboidrato refinado, há um pico de energia imediato, mas logo a glicemia despenca, resultando em cansaço, irritabilidade e até mais fome pouco tempo depois”, explica.
Açúcar, estresse e transtornos psiquiátricos
Estudos mostram que dietas ricas em açúcar refinado estão cada vez mais associadas ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. Segundo a Dra. Bianca Trindade, o consumo excessivo de açúcar pode desregular o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, sistema que controla a resposta ao estresse. “Especialmente em períodos de estresse elevado, o açúcar pode amplificar os efeitos negativos do estresse crônico no cérebro, além de promover inflamação, um fator associado a transtornos de humor”, alerta.
Ela também observa, na prática clínica, que muitos pacientes que consomem grandes quantidades de açúcar apresentam dificuldades no controle emocional e instabilidade de humor. “O açúcar afeta rapidamente os neurotransmissores do cérebro. Muitos pacientes relatam um breve período de euforia após consumir doces, seguido por irritabilidade e fadiga”, conta.
Para ajudar os pacientes a perceber essa relação, a especialista recomenda manter um diário alimentar junto com um registro de humor. “Isso revela padrões claros entre o consumo de açúcar e as oscilações emocionais, ajudando na conscientização sobre a influência da alimentação na saúde mental”, sugere.
Moderação e alternativas para reduzir o consumo de açúcar
Além dos impactos negativos na saúde mental, o consumo excessivo de açúcar compromete o desempenho físico e esportivo. A nutricionista Keiliane Kedma alerta que o excesso de açúcar pode reduzir a resistência física e prejudicar a performance em atividades esportivas. “O consumo elevado de açúcar tem efeitos cumulativos, contribuindo para doenças crônicas como diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares. Por isso, a moderação é essencial”, destaca.
Para reduzir o consumo de açúcar sem comprometer a qualidade nutricional, Keiliane sugere optar por alimentos naturais, como iogurtes integrais, nozes e sementes, que ajudam a controlar a carga glicêmica das refeições. Além disso, reforça a importância de ler os rótulos de produtos industrializados, já que muitos contêm açúcar oculto.
A nutricionista Tane Hermuche destaca que, embora algumas pessoas demonizem o carboidrato, ele tem uma função metabólica essencial e é um importante combustível para o corpo. “O carboidrato não é o vilão. O problema está na forma e na quantidade que consumimos”, explica.
Ela ressalta que, no passado, o ser humano precisava caçar para obter alimento, enquanto hoje temos acesso fácil à comida, o que pode levar ao consumo excessivo. Por isso, enfatiza a importância de equilibrar a ingestão de carboidratos de acordo com as necessidades individuais.
A nutróloga também defende mudanças graduais e sustentáveis na alimentação, em vez de abordagens restritivas ou alarmistas.
A moderação no consumo de açúcar e uma alimentação equilibrada não apenas beneficiam a saúde física, mas também ajudam a reduzir sintomas de ansiedade e melhoram o humor e a clareza mental. Pequenas mudanças na dieta podem trazer ganhos significativos para o bem-estar geral e a qualidade de vida.