Colecionadores de photocards de K-pop se organizam em comunidades online
Com termos e regras próprias, comunidades estão presentes em diversas redes sociais e sites
Postado em 25/03/2025

Um hobby que passou a se destacar em comunidades online no Brasil, por sua estrutura, é a venda e a troca de cartas colecionáveis (photocards) de cantores de K-Pop (pop coreano). Encontrados no WhatsApp, no Instagram, no Twitter e até mesmo na Shopee, os colecionadores criaram suas próprias regras e terminologias, a fim de manter um padrão e uma ordem no processo de compra e venda.
Isadora Gomide, de 25 anos, é colecionadora, vendedora e integrante dessa comunidade virtual. Ela explica os significados de termos, como “CEG”, que significa “compra em grupo”, quando pessoas se juntam para comprar uma quantidade maior de itens, principalmente no exterior; “GOM”, ou “Group Order Manager” (Gestor de Encomendas do Grupo), isto é, quem intermedia e organiza essas vendas em grupo; e “Proxy”, um termo já mais conhecido, que se refere ao correspondente que está no país de origem da encomenda.

O grande diferencial entre a organização de colecionadores no Brasil e no exterior é o tabelamento de valores de photocards. Não se sabe ao certo como surgiu a ideia, mas é esperado que vendedores sigam o padrão de precificação, a depender da raridade do item. Gomide afirma que a tabela serve para equilibrar os preços discrepantes de photocards de mesma origem entre diferentes cantores, fenômeno chamado de “member pricing”. Segundo ela, há diversos fatores que causam a diferença de preços, mas já viu cards de um membro de um grupo de K-pop que custava R$ 200,00, enquanto o de outro do mesmo grupo custava R$ 30,00.
Segundo a também colecionadora de photocards, Isadora Santos, de 21 anos, é prazeroso encontrar pessoas de um mesmo meio que compartilham de interesses em comum de maneira tão organizada. Apesar de um estigma de ser uma prática infantil, “é uma comunidade que a gente tem organizada para poder colecionar e encontrar pessoas que compartilham dessa cultura”, diz. Os colecionadores estão presentes e efetuam seus negócios em comunidades e grupos de WhatsApp, em perfis no Twitter e no Instagram, e através de sites de venda, como a Shopee.

Segundo Santos, o processo de uma CEG envolve muita confiança, e, por isso, é essencial que os vendedores tenham bons feedbacks. Para a colecionadora, um ponto positivo da organização dos grupos de WhatsApp é a segurança que eles trazem. “Se você entrar no grupo e tentar dar um calote em alguém, você pode ser expulso (por levar feedback negativo)”, conta.
O outro lado do fandom
Apesar de exigir muita organização, a comunidade de venda e troca de photocards se viu sujeita a uma crescente de calotes. Isadora Gomide afirmou achar que, com a popularização do hobby, surgem cada vez mais pessoas interessadas e, entre elas, crianças. “Não é nem questão de, ah, menor de idade. É criança, que entra ali em grupo de V&T (Venda e Troca) e não tem o quê? Organização financeira. Aí isso é um problema”, afirma.
Sabrina Souza, psicopedagoga de 25 anos, é vendedora de photocards em comunidades brasilienses de venda e troca. Ela conta como é de suma importância ser transparente na comunicação do processo de venda. É necessário mandar fotos, vídeos com detalhes do item, esclarecimentos e feedbacks, quando solicitado. “Existem muitos calotes, isso a gente vê aos montes. E o pior é que, às vezes, nem quando a pessoa tem feedback e tem um bom histórico, dá para salvar”, desabafa.

Todas as entrevistadas contam de pelo menos um caso de desorganização ou calote que passaram em meio à comunidade, envolvendo falta de comunicação ou “sumiço” por parte do vendedor. “Eu acho que as pessoas implicam com coisas erradas nessa comunidade. Tipo, pegam picuinhas com as coisas erradas e podiam ser mais precisas nesse tipo de situação, sabe?”, comenta Isadora Santos.
Entretanto, apesar dos momentos difíceis, a comunidade segue com toda sua organização e as colecionadoras e vendedoras adoram seu nicho social. Sabrina conta sobre sua melhor compra até hoje: um photocard raro de um show do grupo NCT. Ela conta como, apesar de pequenos problemas no caminho, o item chegou em bom estado. “É o mais caro que eu tenho, mas é o mais especial. A menina foi tentando me passar bastante confiança, né? E deu tudo certo.”
