Vida após o trabalho: o que leva aposentados a parar ou seguir trabalhando?

Enquanto alguns veem a aposentadoria como descanso, outros retornam ao mercado por necessidade ou realização. Entenda os motivos por trás da decisão.

Júlia de Mesquita Ribeiro

Postado em 17/03/2025

A aposentadoria é um marco na vida de muitos trabalhadores, mas nem todos encaram esse momento da mesma forma. Enquanto alguns veem a oportunidade de descansar e curtir uma nova fase, outros continuam ativos, seja por necessidade financeira, realização pessoal ou até mesmo por hábito. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o Brasil já soma mais de 25 milhões de aposentados em 2025, e uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) aponta que 33,9% dos brasileiros aposentados com mais de 60 anos continuam trabalhando. 

Terezinha de Jesus Machado Cieglinski, aposentada aos 45 anos pelo Banco do Brasil, é um exemplo de quem escolheu continuar ativa. Após se aposentar, ela ingressou na Câmara dos Deputados, onde trabalhou por mais 12 anos. Hoje, aos 75 anos, ela já está aposentada do último emprego, mas não se arrepende da decisão. 

Terezinha de Jesus e colegas na Câmara dos Deputados. Foto: Júlia de Mesquita

“Eu me aposentei muito cedo e achava que ainda tinha muito a produzir. Para mim, fazia bem trabalhar, porque eu conhecia novas pessoas e tinha outro ambiente de trabalho”, relata. Terezinha destaca que a convivência com as pessoas e a sensação de contribuir foram fundamentais para sua decisão de voltar ao mercado. “Eu estava sem um objetivo, só ficar em casa para mim não dava”, afirma.

A psicóloga Aline Sampaio, especialista em atendimento a pessoas de todas as faixas etárias, explica que a aposentadoria pode ser um período de descobertas, mas também de incertezas. “Para alguns, o trabalho é parte fundamental da identidade, e deixá-lo pode gerar um vazio difícil de preencher”.

Jean Carlos de Souza Ribeiro, 56, aposentado pelo Corpo de Bombeiros do Distrito Federal há três anos, decidiu não retornar ao mercado de trabalho. “Foi uma decisão planejada. Completei o tempo regimental para aposentadoria, e essa foi a maior motivação: a missão cumprida”, diz. Jean Carlos planejou sua aposentadoria com antecedência e hoje dedica seu tempo à luthieria, um hobby que o mantém ativo e realizado. “A música e a luthieria me proporcionam tranquilidade e me fazem sentir vivo e atuante”, explica.  

Jean Carlos em seu ateliê de luthieria. Foto: Júlia de Mesquita

A psicóloga Aline Sampaio ressalta que essas escolhas refletem não apenas preferências pessoais, mas também contextos sociais e econômicos. “Enquanto alguns têm a possibilidade de escolher entre descansar ou continuar trabalhando, outros são obrigados a retornar ao mercado por necessidade financeira”, explica. Segundo ela, a perda da renda e o isolamento social são questões comuns para muitos aposentados. “A mudança da vida social é um grande desafio, especialmente porque pode haver um aumento do isolamento, o que pode levar a quadros de ansiedade e depressão”, alerta.  

Entre a necessidade e a escolha

A realidade é que, para muitos, a aposentadoria não significa descanso. Dados de 2021 da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) mostram que o poder de compra da classe C, onde boa parte dos aposentados se enquadra, caiu quase 10% em cinco anos. Isso explica por que muitos idosos precisam buscar novas fontes de renda. “No geral, percebo que ficam chateados, pois desejavam ter outra qualidade de vida para vivenciar o dia a dia”, comenta Aline.  

Para Terezinha, a chave está em encontrar um equilíbrio. “Eu acho que dá para fazer as duas coisas. Não sendo um trabalho muito intenso, dá para descansar e trabalhar”, diz. Já Jean Carlos reforça a importância do planejamento. “Prepare a sua aposentadoria, tenha planos e projetos bem definidos. Esse tempo não é mais de trabalhar, é de cuidar de você”, aconselha.  

Enquanto Terezinha e Jean Carlos representam duas faces da mesma realidade, a psicóloga Aline Sampaio reforça que não há uma fórmula única para viver a aposentadoria. “Cada pessoa tem que buscar o que se sente bem. É importante planejar o que gosta e entender que essa fase pode ser tanto de descanso quanto de novas conquistas”, finaliza.