Apesar das cores vibrantes dos murais, Setor Comercial Sul ainda enfrenta abandono, insegurança e criminalidade
A arte urbana pode transformar espaços degradados, mas no SCS a revitalização levanta questionamentos sobre seu impacto real
Postado em 21/03/2025
O Setor Comercial Sul (SCS), um dos espaços mais movimentados de Brasília durante o dia, se transforma à noite em um cenário de medo e insegurança. Conhecido por muitos como a “cracolândia de Brasília”, o local sofre há anos com o abandono, a criminalidade e a presença constante de moradores em situação de rua. Para tentar mudar essa realidade, o governo apostou em intervenções artísticas como ferramenta de revitalização. Mas, cinco anos depois, a insegurança no local ainda reina.
SCS: perigo em meio às cores do grafite. Foto: Alice Pereira.
Em dezembro de 2019, o governo do Distrito Federal promoveu uma ação de grafite em parceria com o Comitê Permanente do Grafite, o Coletivo No Setor e outros artistas urbanos. A iniciativa tinha como objetivo transformar as fachadas degradadas do SCS em uma galeria de arte a céu aberto, trazendo cor, cultura e um novo significado ao local. Além da estética, o projeto visava criar um senso de pertencimento nos frequentadores e incentivar um uso mais ativo do espaço por comerciantes e moradores.
A proposta se baseava na ideia de que a arte pode modificar a percepção dos espaços urbanos e contribuir para a segurança, ocupando áreas que antes eram vistas como hostis e abandonadas. No entanto, na prática, o impacto foi limitado.
A representante do Coletivo Transverso – grupo que atua há anos com arte urbana e ocupação do espaço público, Patrícia Del Rey (42), reforça que a arte tem um papel importante na ressignificação dos espaços, mas sozinha não resolve os problemas estruturais do SCS. “A presença da arte pode estimular a ocupação e o cuidado com o espaço, mas, sem políticas públicas integradas – como iluminação, manutenção, apoio a moradores e comerciantes, além de programas socioculturais contínuos –, as fragilidades estruturais do território continuam existindo”, explica.
Ela acrescenta que intervenções artísticas podem ser um primeiro passo para mudanças urbanas maiores, desde que estejam inseridas em um contexto amplo de transformação e diálogo com a comunidade local. “Quando a revitalização artística é acompanhada por políticas públicas efetivas – como melhorias na infraestrutura, apoio a moradores e comerciantes locais, segurança comunitária e programas socioculturais contínuos –, ela se torna um catalisador real de mudanças. Por outro lado, quando usada apenas como uma camada estética para mascarar problemas urbanos mais profundos, corre o risco de ser apenas um paliativo temporário, sem impacto duradouro”, afirma.

A insegurança ainda domina o SCS
Apesar das cores e das intervenções culturais, o cenário do Setor Comercial Sul continua preocupante. A falta de policiamento efetivo, a pouca iluminação e a grande concentração de pessoas em situação de vulnerabilidade fazem com que o local continue sendo evitado por muitos brasilienses, especialmente à noite.
Luciana de Souza Aquino Abreu (49), comerciante da região há 18 anos, relata como a insegurança afeta diretamente o funcionamento dos estabelecimentos. “Os clientes reclamam que são abordados o tempo todo. Um morador de rua até esfaqueou outro na frente do meu restaurante. O movimento caiu muito, e estou tentando vender o ponto, mas está difícil”, desabafa. Ela também afirma que a presença policial não é suficiente para conter os problemas. “O policiamento existe, mas não pode fazer muita coisa. Quando prendem alguém por roubo ou tráfico, logo a justiça solta”, lamenta.
Enquanto outras regiões do país passaram por processos bem-sucedidos de requalificação urbana – como o Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, que recebeu um grande investimento em infraestrutura e segurança –, o SCS ainda carece de ações estruturais que vão além da estética.
Recentemente, o governo do DF anunciou uma pesquisa, lançada no final do mês de março, para mapear os principais problemas da região e orientar um novo projeto de revitalização. O Estudo visa desenvolver um modelo urbanístico digital e físico, além de ajudar na implementação de um polo tecnológico criativo na região. Entre as medidas previstas estão melhorias na iluminação, maior presença de segurança pública e requalificação dos espaços de convivência.
A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-DF) fará o lançamento das atividades iniciais da pesquisa Polo Criativo Tecnológico do Setor Comercial Sul, nome dado à iniciativa. No entanto, moradores e comerciantes, como Luciana, temem que essas propostas, assim como as anteriores, não sejam suficientes para mudar a realidade do local.
O que falta para a transformação do SCS?

Especialistas, como Patrícia, apontam que intervenções artísticas podem, sim, contribuir para a requalificação de espaços públicos, mas não são suficientes sozinhas. Para que a transformação aconteça de fato, é necessário um planejamento integrado que envolva segurança, infraestrutura e políticas sociais eficazes para a população em situação de rua.
Como o relato da comerciante Luciana aponta, o SCS ainda carrega o peso de anos de abandono e problemas estruturais que não podem ser resolvidos apenas com tinta e criatividade. A arte pode ser um ponto de partida, porém se torna um paliativo sem medidas conjuntas. A revitalização real depende de um compromisso maior do poder público e de soluções concretas que garantam que o Setor Comercial Sul deixe de ser um símbolo de medo e se torne, de fato, um espaço de convivência e cultura para todos.