Após pandemia prejudicar o ensino, famílias buscam apoio no reforço escolar

Com o reforço escolar, crianças podem superar as lacunas deixadas pelo ensino remoto e recuperar conteúdos essenciais, como matemática e português.

Júlia de Mesquita Ribeiro

Postado em 24/03/2025

A pandemia de Covid-19 trouxe impactos profundos para a educação, especialmente para as crianças em fase de alfabetização. Com o ensino remoto, muitos alunos enfrentaram dificuldades para acompanhar o conteúdo, resultando em problemas significativos no aprendizado. Segundo uma pesquisa publicada na revista “Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação”, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Durham University, na Inglaterra, os estudantes aprenderam, em média, apenas 65% do esperado durante esse período. Diante desse déficit, a busca por reforço escolar se tornou uma alternativa para muitas famílias.

Dados da pesquisa “Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e Suas Famílias”, realizada pelo Datafolha, mostram que dois em cada três estudantes precisaram de apoio extra para recuperar o aprendizado perdido, com maior dificuldade em matemática (71%) e língua portuguesa (70%). No entanto, apenas 39% dos alunos tiveram acesso a aulas de reforço, evidenciando as desigualdades no suporte oferecido às crianças no período pós-pandemia.

Thaís da Silva, pedagoga e professora particular de alunos em fase de alfabetização, tem acompanhado de perto os desafios do pós-pandemia. Para ela, um dos maiores obstáculos é a adequação das aulas a um contexto em que o uso excessivo da tecnologia durante a pandemia deixou marcas. “O contato com materiais e atividades concretas se tornou indispensável, pois o uso excessivo da tecnologia pelos alunos é um fator que tem prejudicado o ensino-aprendizagem até os dias atuais”, explica. Thaís também destaca que as maiores lacunas estão na matemática, especialmente em multiplicação e divisão, e na língua portuguesa, com dificuldades em leitura, alfabetização e interpretação de textos. 

Thaís da Silva e seu aluno em horário de aula. Foto: Júlia de Mesquita

A pedagoga utiliza estratégias como o método “aprender brincando” para engajar os alunos. “Quando percebo falta de atenção, procuro tratar o conteúdo de uma forma mais leve com jogos e brincadeiras. Após isso, fazemos uma tarefa para a consolidação da aprendizagem”, relata. Além disso, ela ressalta a importância da participação dos pais no processo. “Meu trabalho é uma tríade: escola, família e eu. Precisamos estar alinhados para ter um trabalho de excelência e suprir as necessidades”, afirma.  

Recuperando o aprendizado

Aureni Gomes, mãe de Davi, um aluno de 8 anos que frequenta as aulas de reforço com Thaís, compartilha sua experiência. Ela decidiu buscar ajuda logo no início da pandemia, quando as aulas presenciais foram suspensas. “O Davi entrou na escola em 2020, mas logo o isolamento interrompeu as aulas. Contratar a professora Thaís foi a solução para que ele não ficasse atrasado”, conta. Hoje, Davi está alfabetizado e lendo, mas ela reconhece que a socialização e a mobilidade foram áreas muito prejudicadas pelo isolamento.  

Apesar dos avanços, a mãe enxerga que o reforço escolar ainda é um desafio financeiro para muitas famílias. “Esse tipo de serviço deveria ser mais acessível, oferecido em contra turno pelas escolas. Além de ajudar no aprendizado, estimula a responsabilidade com as tarefas”.

Aureni Gomes, mãe do aluno da professora Thaís da Silva. Foto: Júlia de Mesquita

Gileade Cardoso, mestra em educação e professora da Rede Pública do DF, afirma que a pandemia aumentou as desigualdades na educação. Ela explica que as escolas públicas estão tentando lidar com esses impactos, mas ainda há muito a ser feito. “O reforço escolar precisa ser mais conectado com o ensino regular. Ele deveria fazer parte da educação pública, principalmente para ajudar os alunos que mais precisam”.

A professora também fala sobre a importância das habilidades socioemocionais, que foram extremamente afetadas durante a pandemia. “Muitos alunos voltaram com dificuldades de atenção, disciplina e socialização, o que afeta diretamente o aprendizado dos conteúdos”, explica.  

Enquanto o reforço escolar é uma alternativa para muitas famílias, educadores destacam a necessidade de políticas públicas que tornem esse suporte mais acessível. Para Thaís, o reforço vai além da recuperação de conteúdos: “Ele atua na autoestima e no desenvolvimento de habilidades, preparando os alunos para os desafios futuros”. Já Aureni reforça que, apesar dos custos, o investimento valeu a pena. “O Davi está motivado e responsável com as tarefas, e isso é o mais importante”, conclui.  

Gileade encerra com um alerta importante: “A educação precisa ser vista como um todo. Não podemos focar só no conteúdo, mas também no lado emocional e social dos alunos. Ao meu ver, esse é o meio para superar os efeitos da pandemia”.