Avanço do clima extremo em Brasília expõe fragilidade climática do Cerrado
Capital enfrenta seca severa, baixa umidade e aumento de doenças respiratórias; especialistas alertam para urgência de medidas de mitigação.
Postado em 31/03/2025

Nos últimos anos, Brasília tem enfrentado temperaturas recordes e períodos de estiagem cada vez mais severos, evidenciando os impactos das mudanças climáticas no Cerrado. A estação seca, que já era marcante na região, tem se tornado ainda mais prolongada, favorecendo incêndios e reduzindo a qualidade do ar. Em março de 2024, a capital registrou 153,8 mm de chuva, o que representa apenas 68% da média histórica de 226 mm para o mês, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Além disso, as temperaturas vêm ficando acima da média, agravando os desafios para a população e tornando a adaptação ao novo clima uma necessidade urgente.
Além dos impactos ambientais, o calor extremo e a baixa umidade do ar elevam os riscos para a saúde, contribuindo para o aumento de doenças respiratórias, desidratação e até mortes relacionadas às ondas de calor. A situação preocupa especialistas, que alertam para a necessidade de ações imediatas para mitigar os efeitos da crise climática e adaptar a cidade a essa nova realidade.
A visão do especialista sobre as mudanças climáticas em Brasília
O professor Carlos Nobre, titular da Cátedra Clima e Sustentabilidade da USP, doutor em meteorologia pelo MIT, reforça que as mudanças climáticas não são mais algo distante, mas já afetam diretamente Brasília. A estação seca, que antes durava cerca de seis meses, agora chega a sete em algumas regiões, agravando a situação da vegetação e reduzindo a qualidade do ar e da água. “Isso significa que Brasília está cada vez mais vulnerável a períodos de seca extrema e a incêndios mais destrutivos”, alerta. Segundo ele, o desmatamento, tanto no Cerrado quanto na Amazônia, tem um papel direto nesse agravamento. “Quando se desmata, você reduz a umidade do ar e altera o regime de chuvas, o que piora ainda mais as condições climáticas da região.”
Em entrevista, o especialista enfatizou que, no cenário atual, os eventos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, não são mais uma anomalia, mas sim uma tendência impulsionada pelo aquecimento global. “A estação seca está se alongando, e isso tem impactos diretos na vida da população de Brasília, desde a piora da qualidade do ar até o aumento do risco de incêndios. O Pantanal já perdeu 30% de sua área alagada nos últimos 30 anos, e o Cerrado pode seguir o mesmo caminho se não houver medidas urgentes”, afirmou Nobre. Para ele, o combate ao desmatamento e a restauração do bioma são fundamentais para reverter essa trajetória e garantir um futuro mais sustentável para a cidade.
Além disso, o professor destaca que a adaptação ao novo clima exige tanto políticas públicas robustas quanto mudanças no comportamento individual. Segundo ele, apesar da importância de grandes ações governamentais, pequenas medidas no dia a dia podem ajudar a minimizar os impactos da crise climática. “A restauração da vegetação urbana, por exemplo, pode reduzir as ilhas de calor e melhorar a qualidade do ar. Precisamos reflorestar as cidades e aumentar a cobertura verde, porque isso tem um impacto direto no bem-estar da população”, defende.
Saúde em risco: aumento de doenças respiratórias e cardiovasculares

A seca prolongada e as temperaturas elevadas impactam diretamente a saúde dos brasilienses. Em agosto e setembro de 2024, meses marcados por uma estiagem recorde de 167 dias sem chuva, os hospitais do DF registraram alta nos atendimentos de pacientes com crises de asma, bronquite e outros problemas respiratórios.
Com a umidade relativa do ar chegando a níveis críticos, hospitais registram aumento nos atendimentos por doenças respiratórias e desidratação. Entre março e julho de 2024, a rede pública contabilizou 186.334 atendimentos de síndromes gripais, um aumento de 15% em relação ao mesmo período de 2023, segundo a Secretaria de Saúde do DF. Especialistas alertam que o calor extremo pode sobrecarregar ainda mais o sistema de saúde e afetar a qualidade de vida da população, principalmente devido ao agravamento de doenças sazonais, como sinusite, gripe e asma, além do crescimento de casos de bronquiolite em crianças.
“A baixa umidade resseca as mucosas e deixa as vias aéreas mais vulneráveis a infecções. Além disso, o calor extremo sobrecarrega o sistema cardiovascular, aumentando os riscos de desmaios e até de infartos”, explica o pneumologista Carlos Mendes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o aumento da temperatura global já tem relação direta com o crescimento de doenças respiratórias e cardiovasculares.
Além disso, especialistas alertam que a crise climática está ampliando o risco de proliferação de doenças transmitidas por vetores, como dengue e chikungunya. Segundo o Ministério da Saúde, os casos prováveis de dengue ultrapassaram 6,5 milhões até outubro de 2024, um aumento de 400% em relação ao ano anterior, com 5.536 mortes confirmadas. A chikungunya também avançou, registrando 254.095 casos e 161 óbitos até agosto, de acordo com o Boletim Epidemiológico de Arboviroses (2024). “Com períodos mais longos de calor e chuvas irregulares, há um descontrole no ciclo de reprodução do Aedes aegypti, tornando as epidemias mais severas”, acrescenta Mendes.
Cerrado em colapso: seca histórica ameaça biodiversidade e recursos hídricos
Os incêndios no Cerrado têm se tornado mais frequentes e intensos, agravados pelo prolongamento da estação seca e pela ação humana. Segundo André Souza, coordenador de enfrentamento às mudanças do clima da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Distrito Federal (Sema-DF), a vegetação do bioma já enfrenta uma adaptação forçada a um cenário cada vez mais árido. “A vegetação do Cerrado demorou milhões de anos para se ajustar às condições naturais. Agora, com essa mudança brusca, não há tempo suficiente para que ela se adapte, tornando-se mais vulnerável”, explica. Ele alerta que, se esse processo continuar, o Cerrado pode perder suas características originais e se transformar em uma vegetação semelhante à da Caatinga.

Além da degradação ambiental, os incêndios representam um risco direto para Brasília e região. Souza destaca que o fogo faz parte do ciclo natural do Cerrado, mas apenas em condições específicas. “Algumas sementes precisam de calor para germinar, mas os incêndios naturais ocorrem no período de transição para o verão, nunca no auge da seca. Isso significa que queimadas nesse período só podem ter origem humana”, afirma. Em 2023, metade da Floresta Nacional de Brasília foi consumida pelo fogo, o que, segundo ele, demonstra a gravidade do problema. Em 2024, os bombeiros registraram um aumento de 30% nos focos de incêndio em relação ao ano anterior, e a tendência para 2025 é ainda mais preocupante.
Os impactos não se restringem à vegetação. A poluição gerada pelos incêndios compromete a qualidade do ar e pode agravar problemas de saúde, principalmente em crianças e idosos. Além disso, sob certas condições atmosféricas, a fuligem e os gases emitidos podem até provocar chuvas ácidas. “Os incêndios liberam poluentes como NOx e SO2, que são muito mais potentes para o aquecimento global do que o CO2. E o pior: podem desencadear fenômenos como a chuva ácida, prejudicando ainda mais a população”, alerta Souza. Ele ressalta que a urbanização descontrolada do Distrito Federal contribui para esse cenário, já que áreas naturais vêm sendo substituídas por concreto, impedindo a infiltração da água e aumentando os riscos climáticos.
Ondas de calor cada vez mais frequentes
O fenômeno das ondas de calor tem se tornado mais comum no Brasil. Desde 2023, o país já enfrentou 20 ondas de calor, algumas delas batendo recordes históricos. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o número de dias de calor extremo subiu de sete dias por ano na década de 1960 para mais de 50 dias na última década.
“Essas ondas de calor são consequência direta das mudanças climáticas e da intensificação do efeito estufa”, explica o meteorologista Ricardo Almeida, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). “No Centro-Oeste, onde há menos influência da umidade oceânica, o impacto é ainda mais intenso.”
O que pode ser feito para mitigar os impactos?
Diante das mudanças climáticas em Brasília, especialistas destacam ações urgentes para mitigar seus impactos. André Souza sugere a ampliação das áreas verdes urbanas, que ajudam a reduzir a temperatura e aumentar a umidade do ar. “Essas soluções já estão aí como pilotos, com resultados, e isso pode ser aplicado”, afirmou. Além disso, destaca a importância da participação popular no PDTU (Projeto Diretor de Transporte Urbano), que define o uso do solo e afeta o crescimento da cidade.
Outro ponto importante é a preservação das nascentes do Cerrado e o uso racional da água. O programa Drenar DF, que tem melhorado a drenagem e evitado alagamentos, é citado por André como uma solução eficaz. Ele também defende a adaptação da infraestrutura urbana ao calor, com o uso de materiais menos absorventes de calor e mais áreas sombreadas: “Com asfalto permeável, você tem jardins lineares, como o projeto City Nova, que purifica a água do esgoto antes de devolvê-la ao Rio Capibaribe.” Em Recife, por exemplo, projetos de jardins filtrantes já são realidade, e essa prática pode ser aplicada em Brasília.
Além disso, a redução das emissões de gases de efeito estufa é crucial. André destaca a expansão do BRT no Sol Nascente como uma forma de incentivar o transporte público e reduzir a poluição. “O nosso transporte é o que mais contribui com a emissão de gases de efeito estufa. Então, se você proporciona um transporte público de mais qualidade, você reduz essas emissões.” A energia solar fotovoltaica também é uma alternativa viável, já que reduz as perdas de transmissão e é uma fonte renovável. “Instalamos unidades de carregamento veicular para carros elétricos no Jardim Botânico e no Jardim Zoológico. A ideia da SEMA não é prover o DF com carregadores, mas é uma iniciativa para incentivar o uso de transportes elétricos.”