Busca por laqueadura no Brasil passa por mudanças e incentivo de acompanhamento multiprofissional

Com redução da idade mínima, novos perfis buscam pelos procedimento, mas os cuidados permanecem os mesmos.

Débora Sobreira Rezende

Postado em 31/03/2025

Brasil enfrenta mudanças em dados de natalidade e formação de família | Foto: Débora Sobreira

Três anos após mudanças na lei brasileira que trata da realização de procedimentos de esterilização voluntária, com a idade mínima de 25 anos alterada para 21, o Brasil presenciou um aumento no número de jovens que buscam a realização de laqueadura e vasectomia no país. Tratando da ligação das trompas, em especial, dados do Ministério da Saúde registram um aumento de 80% na procura pela intervenção em três anos seguidos: 2022, 2023 e 2024. Esse número surge alinhado a uma taxa de natalidade decrescente, com dados do IBGE apontando uma média de 1,57 filho por mulher e 2022 sendo o ano com a menor taxa de natalidade no Brasil desde 1977.

Somente no Distrito Federal, foram realizadas 1.073 laqueaduras pelo SUS em 2024, contra 266 em janeiro deste ano. A redução da idade mínima apenas ampliou um leque já antes vasto de diferentes perfis que optam pela cirurgia. Mudanças sociais, econômicas e políticas, como a superação da necessidade de autorização do parceiro para realização do procedimento, trouxeram um novo horizonte para quem não deseja gestar.

Luíza Morais Lima tem 26 anos, é licenciada em Física e nunca se sentiu à vontade com a ideia de engravidar. Quando cresceu, percebeu que esse receio se manteve. Foi pensando na possibilidade de engravidar acidentalmente que planejou a laqueadura para sua próxima consulta à ginecologista. Para a professora, que faz uso de outros métodos contraceptivos, a cirurgia se apresenta como a melhor opção não apenas para seu corpo como também para sua mente: “Sei que uma gravidez indesejada seria danosa à minha saúde mental”.

Os motivos para alguém optar por não gerar filhos são inúmeros; mas laqueadura e vasectomia também são alternativas para quem deseja se tornar pai ou mãe adotante. Esse é o caso de Isabela Leite, estudante de 25 anos que se planeja para realizar laqueadura. A futura historiadora afirma não se sentir preparada psicologicamente para o ato de gestar e confessa que o temor por possíveis ameaças aos direitos reprodutivos de mulheres no Brasil aparece como um fator chave para sua escolha por um método mais definitivo.

“A decisão de não ter filhos biológicos veio de meus questionamentos, desde nova, sobre a necessidade de gestar. Notei que era uma cobrança muito mais externa do que interna. Família não é laço sanguíneo, e sim quem está junto. Sempre fui muito desprendida do que considero definições arcaicas do que é uma família”, diz.

A estudante Isabela Leite conta com o apoio da família a respeito da decisão | Foto: Acervo pessoal

Por dentro do procedimento

A laqueadura, ou ligadura de trompas, é uma intervenção cirúrgica que consiste em impedir a passagem do óvulo e do espermatozóide pelas trompas uterinas, seja através de corte ou de amarração. Para a realização através do SUS, é necessário buscar uma Unidade Básica de Saúde para solicitação. Atualmente, são requisitos ter capacidade civil plena, ter 21 anos ou mais ou possuir pelo menos dois filhos vivos. As duas últimas, vale reforçar, não são interdependentes.

A ginecologista Indara Queiroz, que atua na rede privada, relata o impacto positivo trazido pela quebra da exigência de autorização do cônjuge para realização da cirurgia, que era frequente em sua experiência. Ela afirma perceber um aumento no número de pacientes jovens na casa dos 20 anos que, já firmes com a decisão de não ter filhos no futuro, buscam orientações acerca dos métodos anticoncepcionais disponíveis. Ao mesmo tempo em que defende a autonomia de escolha, considera igualmente importante o acesso pleno às informações a respeito do procedimento.

“É muito importante que essas pacientes sejam orientadas a respeito de todos os métodos possíveis antes de partir para um método tido como irreversível, inclusive acerca das complicações que podem surgir. A laqueadura pode ter, como efeito colateral, por exemplo, aumento de fluxo menstrual e cólicas”.

Cuidados para além do corpo físico

A psicóloga Camila Rayol atende grávidas e puérperas no Instituto Social do Distrito Federal (ISDF), uma ONG localizada em Samambaia e voltada para apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade. Após o atendimento inicial, é padrão perguntar se a atendida deseja realizar laqueadura.

As pacientes que optam pelo procedimento são, em geral, jovens e já mães de pelo menos dois filhos. É também frequente uma mudança de tom no momento de comunicar a decisão: a fala vem de uma maneira defensiva, sem a mesma naturalidade com que trazem as outras informações, na visão da profissional. Em um momento já delicado como o fim do período gestacional, a laqueadura pode trazer uma nova carga emocional. E isso é realidade para diferentes pessoas em diferentes contextos.

“O acompanhamento psicológico é essencial já no momento de tomada de decisão. É algo permanente, uma cirurgia muito mais invasiva que a vasectomia e que envolve uma série de questões: pode vir por falta de acesso a outros métodos contraceptivos, ou por resistência de parceiros a utilizarem camisinha ou a fazer vasectomia”.

Camila reforça que o papel do psicólogo não é convencer a paciente a realizar ou não o procedimento (postura que seria antiética para qualquer profissional da saúde), mas sim ajudar a pessoa a refletir e chegar à melhor escolha para si; e que o acompanhamento também é de extrema importância para o pós-procedimento.

“É uma decisão definitiva, uma mudança significativa que provavelmente irá alterar a relação da mulher com o próprio corpo. Terá que pensar, também, em como lidar com possíveis comentários maldosos a respeito da decisão”.