Comunicação digital transformou a relação entre políticos e eleitores
Uso de redes exige equilíbrio entre autenticidade, estratégia e coerência ideológica
Postado em 03/04/2025

A comunicação política sempre foi essencial para a construção da imagem de lideranças e o engajamento da população. Com a ascensão das redes sociais, essa dinâmica passou por uma transformação profunda. Hoje, políticos têm a oportunidade de se conectar diretamente com seus eleitores, sem depender dos meios de comunicação tradicionais, como TV, rádio e jornais.
Essa mudança trouxe inúmeros benefícios, como a possibilidade de transparência, proximidade e interação constante. No entanto, também apresentou desafios, como a necessidade de coerência ideológica, o risco da desinformação e a exigência de um discurso alinhado à realidade do político.
A conexão direta com o público: autenticidade e estratégia
Para a especialista em marketing político Jullyane Farias, as redes sociais permitiram que os políticos construíssem uma imagem mais próxima e constante. “Diferente dos meios tradicionais, onde a comunicação é esporádica e muitas vezes filtrada, nas redes o político tem controle direto da narrativa. Isso fortalece a identificação do público com ele — mas também exige cuidado, porque a exposição é contínua e qualquer deslize pode viralizar”, explica.
Ela ressalta a importância de equilibrar autenticidade e estratégia. “O segredo está em alinhar o conteúdo estratégico com a personalidade real do político. A estratégia deve potencializar a autenticidade, não sufocá-la”, afirma. Já Jéssica Portes, diretora de marketing político, alerta que a autenticidade, por si só, não é decisiva para o público. “O que realmente importa é o alinhamento entre o discurso e as ações do político. Não adianta, por exemplo, um candidato defender valores familiares nas redes sociais se, na vida real, ele adota posturas contrárias a esses valores. As pessoas percebem essa incoerência”, analisa.
Ideologia e coerência: pilares da confiabilidade
Jéssica também destaca que, na esfera legislativa, a ideologia se tornou um fator determinante para a credibilidade dos políticos. “Antes, a ideologia não era tão decisiva quanto é hoje. Atualmente, ela é um dos principais elementos que garantem a confiança do eleitor”, explica.
Ela cita o exemplo da deputada Júlia Zanatta (PL), que mantém sua postura crítica mesmo dentro do próprio partido. “Ela não apoia automaticamente todas as decisões do PL. Se discorda de algo, ela se posiciona, mesmo que isso gere conflitos internos. Isso gera credibilidade porque as pessoas percebem que ela não defende interesses partidários, mas sim suas convicções ideológicas”, afirma. Já no Poder Executivo, a lógica é diferente. “No Executivo, o que importa é a entrega. A população não quer saber quanto uma obra custa ou quem está lucrando com determinada política pública. O que ela quer é qualidade de vida: ruas asfaltadas, transporte funcionando, atendimento médico eficiente”, aponta Jéssica. Segundo ela, a confiabilidade de um gestor público está diretamente ligada à sua capacidade de entregar resultados concretos.
A interação como ferramenta de engajamento
Outro aspecto crucial da comunicação política nas redes sociais é a interação direta com os eleitores. Nathalia Coelho, diretora de mídias digitais políticas, explica que essa troca constante funciona como um termômetro social. “Curtidas, enquetes e até críticas ajudam a entender quais pautas estão mobilizando as pessoas e onde há insatisfação”, afirma.
Jéssica Portes reforça essa ideia com uma experiência prática. “Durante a campanha de 2018, coordenei a equipe de atendimento ao público do então candidato Ibaneis Rocha. Eu via o quanto um simples gesto de escuta fazia diferença. Muitas vezes, os eleitores tinham críticas, mas só o fato de serem ouvidos e receberem uma resposta já os fazia reconsiderar seu voto”, conta.
Desafios: fake news e polarização
Apesar das vantagens, a comunicação política digital também enfrenta desafios significativos, como a disseminação de fake news e a radicalização dos debates. A velocidade com que as informações circulam pode levar à propagação de desinformação, prejudicando o processo democrático.
Jullyane Farias alerta para a necessidade de um gerenciamento estratégico de crises. “Transparência não significa exposição total, mas comunicar com clareza e assumir responsabilidades quando necessário. O silêncio pode gerar desconfiança, mas um posicionamento bem pensado — que demonstre consciência e ação — pode preservar a imagem do político”, explica.
O futuro da comunicação política digital
O crescimento da presença política nas redes sociais mostra que essa tendência veio para ficar. O grande desafio será equilibrar autenticidade, estratégia e responsabilidade na comunicação. Produzir conteúdo de valor, ouvir a população e utilizar os formatos corretos são fatores que diferenciam um político que apenas marca presença digital de um que realmente engaja e influencia.
Como destaca Nathalia Coelho, “a comunicação digital faz com que a voz dos políticos seja amplificada e se encaixe no padrão de consumo da sociedade atual”. Diante desse cenário, a política se reinventa diariamente no digital. Aqueles que compreendem a importância desse meio e sabem utilizá-lo de maneira estratégica e ética certamente terão um impacto maior na opinião pública e na construção de suas trajetórias.