Escassez de investimentos públicos e privados desafia artistas e produtores culturais

Com a falta de incentivos e o domínio das grandes produções, pequenos artistas buscam nas redes sociais e no apoio do público formas de se manter relevantes.

Hitallo Sousa

Postado em 25/03/2025

Batalha no DF
Alencar MC em busca de títulos nas batalhas de rima do DF.

No Brasil, a arte independente enfrenta uma batalha constante para sobreviver. Com a falta de incentivos públicos, dificuldades de acesso a investimentos e um mercado dominado por grandes produções, pequenos artistas precisam se reinventar para continuar produzindo. Neste cenário, músicos, atores, escritores e pintores exploram novas estratégias para alcançar o público e manter a arte viva.

Para artistas como Alencar MC, manter-se ativo no cenário cultural sem o suporte de grandes produtoras exige criatividade e resiliência. “A falta de investimento e de oportunidades é, sem dúvida, o maior desafio. A indústria ainda domina o mercado de entretenimento e, se você não tem contatos ou ‘amizades’ influentes, criar oportunidades se torna quase um milagre”, destaca.

Diante desse cenário, muitos artistas independentes encontram nas redes sociais e no contato direto com o público a principal forma de se manterem relevantes. “A única estratégia que eu uso é a entrega de conteúdo orgânico. As pessoas que acompanham meu trabalho nas ruas são as que mantêm meus números e interações nas redes. Então, o método é o famoso boca a boca”, explica Alencar.

A dificuldade dos produtores culturais

Os produtores culturais também enfrentam dificuldades para impulsionar a cena independente. Ronnan Maxsuel, produtor cultural conhecido como RM Rocklee no Instagram, aponta que a maior dificuldade das organizações underground está na ausência de investimentos, tanto públicos quanto privados. “Na maior parte do tempo, temos que fazer milagres com o pouco que temos e, quase sempre, tirar do bolso para fazer as edições acontecerem. Basicamente, as batalhas sobrevivem pela fé e amor à cultura”, explica.

A falta de investimento afeta diretamente a capacidade de expandir e fortalecer o intercâmbio cultural entre artistas. Segundo RM, é muito difícil conseguir apoio por meio de editais públicos, e, muitas vezes, o suporte vem de pequenos comerciantes locais. “Empresas grandes e o governo não demonstram muito interesse em apoiar a cultura hip-hop”, afirma.

O papel das políticas públicas e do setor privado

Apesar da existência de mecanismos como a Lei de Incentivo à Cultura, o acesso a esses recursos ainda é um desafio para pequenos artistas. Cláudio Bull, especialista em projetos para a Lei de Incentivo, destaca: “As leis de incentivo são fundamentais para a sobrevivência dos artistas no Brasil, mas o acesso a esses recursos ainda é muito desigual. Pequenos artistas enfrentam dificuldades para escrever projetos competitivos e acabam sendo preteridos em favor de grupos mais estruturados. É preciso democratizar o processo para garantir que diferentes segmentos da arte tenham acesso a esses recursos”.

Mesmo com essas dificuldades, o valor captado para apoiar projetos culturais em 2023 atingiu a maior marca já registrada em um ano: R$ 2,359 bilhões. Esse recorde reforça a relevância da Lei de Incentivo à Cultura no financiamento da arte no Brasil, mas também evidencia a necessidade de um acesso mais equitativo para que artistas independentes possam se beneficiar desses recursos.

Além do setor público, o apoio do setor privado e do público consumidor também desempenha um papel crucial. Um exemplo de como o investimento faz a diferença é a Batalha da Aldeia , maior organização de competições de rimas da América Latina, que conseguiu crescer significativamente após conquistar reconhecimento nas redes sociais. “Com números colossais, vieram adsense, interesse de grandes empresas em patrocinar a batalha e premiar os artistas com prêmios financeiros e materiais. Assim, puderam se consolidar como a maior do país”, explica RM.

Sem investimentos, as batalhas de rap e outros projetos culturais acabam dependendo exclusivamente do esforço dos organizadores. “Aqui no Entorno Sul, batalhas como a BTO, em Cidade Ocidental, e o Caixote, em Luziânia, já fazem muito pela cena sem nenhum investimento público ou privado. Com o investimento certo, poderiam fazer ainda mais”, conclui RM.

O público como agente de transformação da arte independente

O público que consome arte independente tem um impacto significativo na manutenção desses artistas. A valorização da cultura independente não apenas fortalece a diversidade artística, mas também cria um cenário mais democrático para a produção cultural.

Alencar MC destaca que o apoio direto dos fãs é essencial para a resistência dos artistas.

Alencar MC reforça que o apoio direto dos fãs é um dos pilares para a resistência dos artistas independentes. “Ter quem acompanha, consome e apoia traz o verdadeiro valor de fazer arte, que é ser reconhecido e escutado”, afirma.