Falta de árvores prejudica comércio de rua em Taguatinga

Projeto paisagístico na Avenida Hélio Prates prevê o plantio de 1.850 mudas de árvores e plantas ornamentais, diz Novacap. Iniciativa pode ajudar a amenizar o calor

Luisa Guedes

Postado em 01/04/2025

A desigualdade na arborização entre as cidades do Distrito Federal afeta diretamente a qualidade de vida e a economia local. Enquanto o Plano Piloto possui vastas áreas verdes, outras regiões administrativas, como Taguatinga, sofrem com a falta de árvores, tornando o ambiente mais quente e impactando principalmente o comércio de rua.

Na falta de árvores, ambulantes tentam se proteger do calor. – Foto: Luísa Guedes

Como o clima seco e quente da capital predomina, a arborização seria essencial para amenizar as temperaturas, mas, na prática, muitas áreas enfrentam escassez de verde, agravando o calor e prejudicando a população. Além disso, a falta de árvores aumenta a erosão do solo e a poluição do ar. Em áreas comerciais, o impacto é ainda maior: sem nenhuma sombra, os consumidores evitam longas permanências na rua, prejudicando o comércio local.  

O especialista em planejamento urbano Raphael Sebba destaca que a ausência de verde afasta consumidores e reduz o tempo de permanência nas lojas. Em contrapartida, ruas arborizadas incentivam a circulação de pedestres, valorizam imóveis comerciais e melhoram a experiência dos compradores. Além disso, comércios em áreas sem árvores precisam investir mais em climatização, aumentando seus custos operacionais.

Leonardo Araújo, dono da loja World Champions na Feira dos Goianos, confirma esse impacto e explica como precisou investir para garantir um ambiente mais confortável. “Ter um ambiente climatizado faz toda a diferença nesse calorão. O calor atrapalha demais e deixa tudo mais cansativo. Investir nisso tem um custo, mas no fim das contas, olhando no geral, não é tão caro e vale super a pena”. Outro fator que contribui para o esvaziamento do comércio de rua é a preferência por shoppings, que oferecem ambientes climatizados e protegidos das chuvas e altas temperaturas.  

Taguatinga tem uma arborização mediana em comparação a outras regiões do DF, mas suas áreas comerciais, como a Avenida Comercial e a Hélio Prates, sofrem com a predominância de concreto. A ausência de árvores cria ilhas de calor, dificultando a circulação de pedestres e afetando tanto trabalhadores quanto clientes.  

Mariana Carla, funcionária da Bellapele na Avenida Comercial, relata como a falta de árvores afeta sua rotina. “Todo mundo queria descansar na sombra no intervalo do almoço, sentir um ventinho nos dias quentes. Mas, em vez de plantar novas árvores, muitas vezes tiram as poucas que estão aqui. Trabalhar nesse calor é complicado tanto para a gente que está trabalhando, quanto para os clientes da loja.”

A distribuição desigual das áreas verdes no DF reflete também na desigualdade social. Regiões mais pobres tendem a ter menos árvores, agravando os problemas urbanos. Pesquisas mostram que territórios com uma população majoritariamente negra possuem menor cobertura vegetal, afetando diretamente a qualidade de vida. “No DF, o Mapa das Desigualdades do INESC e pesquisas do IPE-DF confirmam que a arborização está diretamente relacionada a fatores socioeconômicos. Essa desigualdade não se deve apenas à densidade populacional, mas também a investimentos públicos e políticas urbanas”, explica Raphael Sebba.

Enquanto bairros de classe alta, como o Lago Sul, contam com amplas áreas verdes, regiões periféricas cresceram sem planejamento, resultando em menos espaço para o plantio de árvores. Esse desequilíbrio reforça a necessidade de políticas públicas que incentivem a arborização de forma equitativa.  

Apesar dos desafios, algumas iniciativas buscam melhorar esse cenário. A Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) pretende plantar 100 mil mudas até 2025 para melhorar a distribuição das áreas verdes no DF. Além disso, um projeto paisagístico na Avenida Hélio Prates prevê o plantio de 1.850 mudas de árvores e plantas ornamentais, com um investimento de R$ 354 mil.  O administrador de Taguatinga, Renato Andrade dos Santos, ressalta a importância dessas ações para reduzir os impactos das mudanças climáticas e tornar a cidade mais agradável.