Furtos de mudas geram problemas ambientais e financeiros

Saiba como a subtração de mudas em áreas públicas atrasa projetos de reflorestamento e gera impactos ecológicos.

Giovanna Sfalsin Santos

Postado em 24/03/2025

A arborização urbana desempenha um papel crucial na qualidade de vida das cidades, promovendo a regulação térmica, a melhoria da qualidade do ar e a conservação do solo. No entanto, essa iniciativa vem enfrentando desafios inesperados: furtos frequentes de mudas, que comprometem não apenas os projetos de reflorestamento, mas também a biodiversidade e o equilíbrio ambiental. Esses atos vão além do prejuízo financeiro e representam uma ameaça direta ao desenvolvimento ecológico sustentável, atrasando projetos de arborização planejados.

De acordo com o ambientalista Heron de Sena Filho, do movimento SOS Ribeirão Sobradinho, o plantio de árvores é um passo essencial para compensar a retirada da vegetação original durante a expansão das cidades. “O reflorestamento busca recuperar aquilo que foi degradado. Quando uma árvore é plantada, ela se torna parte do acervo da flora protegido pela legislação ambiental. Sua remoção representa perda de biodiversidade e prejudica a qualidade ambiental, reduzindo a umidade do ar e comprometendo a permeabilidade do solo”, afirma.

Ele ainda explica que a longo prazo, com o regime das chuvas, haverá mais infiltração de água no solo, implicando em maior volume de água para os aquíferos. “Essas árvores, quando adultas, têm a capacidade de evaporar para a atmosfera entre 700 a 1000 litros de água por dia. Outra contribuição relevante é que elas têm a capacidade de absorver boa parte do dióxido de carbono (CO2) produzido nas diversas atividades antrópicas”, comenta.

Problema recorrente

No Distrito Federal, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) alerta que o furto de mudas também acarreta prejuízos financeiros, pois exige investimentos contínuos na reposição das plantas e no trabalho de recuperação dos espaços afetados. Além disso, desvaloriza as regiões contempladas pelo plantio e prejudica os projetos de arborização.

Apenas nos últimos meses, 16 mudas de palmeira-azul foram furtadas no Setor de Armazenagem e Abastecimento Norte (SAAN), outras 11 palmeiras-guariroba desapareceram na Avenida Hélio Prates e, no Sol Nascente, 400 mudas foram arrancadas. Para Raimundo Silva, da diretoria das Cidades da Novacap, o problema vai além do vandalismo: trata-se de um crime ambiental que prejudica todo o programa de arborização, impedindo a geração de árvores adultas que melhorem a qualidade de vida da população nos lugares certos e sem riscos de atingir redes de energia.

Os furtos geram prejuízos ambientais e prejudicam os projetos de arborização espalhados pelo DF –
(Foto: Giovanna Sfalsin)

Pequenos gestos

A estudante de comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Loanne Guimarães, 19, conta que já presenciou pessoas retirando flores e mudas do campus. “Muitas vezes, fazem isso sem entender o impacto. Mas há projetos de paisagismo na UnB, e essas plantas não estão ali apenas para embelezar, elas trazem benefícios ambientais. Quando vemos pessoas removendo sem necessidade, é muito triste”, lamenta a moradora do Guará.

Se, por um lado, há furtos e degradação, por outro, há também quem se empenhe na preservação das áreas verdes. Todos os dias, por volta das 5h30, dona Celina Albuquerque, 66, moradora do Distrito Federal, sai para sua caminhada matinal carregando duas garrafas de água. Durante o percurso, ela faz questão de molhar as mudas recém-plantadas ao longo do trajeto. “Se ninguém cuidar, como elas vão crescer? A cidade precisa de mais árvores, e se cada um fizer um pouco, teremos um ambiente melhor”, conta.

Heron acrescenta que o engajamento comunitário é fundamental, além de ações pontuais. “Não adianta apenas plantar árvores no Dia da Árvore ou no Dia do Meio Ambiente e achar que o dever está cumprido. É necessário um trabalho contínuo de educação ambiental para criar uma consciência coletiva sobre a importância da preservação”, afirma.

A Novacap alerta que todos os casos de vandalismo e furto de mudas identificados são encaminhados às autoridades competentes. As penalidades variam de multas até prisão, dependendo da gravidade da infração. Além disso, a companhia disponibiliza visitas ao viveiro de mudas, o local está aberto das 8h às 11h e das 13h às 15h30, de segunda a sexta-feira, com venda de mudas excedentes para aqueles que desejam plantar de forma legal e consciente.

A estudante de comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Loanne Guimarães, conta que já presenciou pessoas retirando flores e mudas no campus – (Foto: Giovanna Sfalsin)