Mulheres no Jiu-Jitsu superam desafios e conquistam espaço nos tatames
Profissionalização ainda esbarra em falta de investimento e visibilidade
Postado em 24/03/2025
O jiu-jitsu, historicamente dominado por homens, tem visto um crescimento significativo da participação feminina nos últimos anos. Mulheres como Kyra Gracie e Ana Rodrigues abriram caminhos para novas gerações de atletas, que hoje desafiam barreiras culturais e estruturais dentro do esporte. Através dos relatos de diferentes competidoras e especialistas, é possível entender os desafios, as conquistas e a luta por igualdade dentro das academias e campeonatos.
A trajetória de muitas mulheres no jiu-jitsu começa com um desejo de superação e fortalecimento físico e emocional. A atleta Ailla Laís de 22 anos, por exemplo, conta que desde a infância teve interesse por artes marciais, mas encontrou dificuldades financeiras e falta de apoio para ingressar em academias. “Quando criança, minha mãe me tirou do karatê por medo de que eu ficasse agressiva. Depois, por questões financeiras e de disponibilidade de horário, não consegui praticar nenhum esporte até me mudar para Brasília e encontrar um projeto social”, relata.

O jiu-jitsu, além do desafio físico, ajudou muitas mulheres a lidarem com questões emocionais. Tanto Ailla quanto outras atletas entrevistadas destacam que o esporte foi essencial no combate à ansiedade e na construção da autoestima. “Eu passava por um problema sério de ansiedade, ao ponto de ter crises frequentes. O jiu-jitsu me ajudou a canalizar essa energia e encontrar mais controle sobre minha mente e corpo”, explica Ailla.
Entrar em um ambiente predominantemente masculino pode ser intimidador. Muitas academias ainda possuem poucas mulheres treinando, e algumas atletas relatam terem sido as únicas em seus primeiros treinos. “Quando entrei no tatame, só havia homens. Eu ficava receosa, preocupada com julgamentos e insegura sobre minha capacidade”, comenta Ailla.
Além disso, a falta de estrutura financeira e profissional para mulheres no jiu-jitsu ainda é uma realidade. Mesmo com a crescente valorização do esporte, muitas atletas não contam com os mesmos investimentos e incentivos disponíveis para os homens. Algumas federações já avançaram em garantir igualdade de premiação e tratamento, mas ainda há resistência por parte do público e de algumas academias.
Outro obstáculo é a própria cultura dentro das academias, onde algumas mulheres enfrentam dificuldades em encontrar treinadores preparados para treinar atletas femininas. Márcio Carvalho, faixa-preta de jiu-jitsu, destaca que a presença de professoras poderia ajudar ainda mais no crescimento do esporte entre as mulheres. “Se tivéssemos mais mulheres graduadas ensinando, seria um incentivo maior para novas atletas entrarem no tatame. Muitas têm receio de treinar com homens, mas quando veem outras mulheres, isso muda completamente”, explica.
No entanto, ele ressalta que a resistência à presença feminina tem diminuído nos últimos anos. “Todas as academias aceitam mulheres hoje em dia. Quanto mais material humano, melhor. E o jiu-jitsu tem um impacto incrível na confiança e no desenvolvimento pessoal delas”, afirma Márcio.

Para algumas atletas, o jiu-jitsu se torna mais do que um esporte – vira uma profissão e um propósito de vida. Com uma rotina intensa de treinos, competições e estudos sobre técnicas e preparação física, a profissionalização no jiu-jitsu exige comprometimento e disciplina. A atleta Fernanda Moura, campeã mundial na faixa azul, de 22 anos, relembra sua jornada até a Califórnia: “Foi muito difícil chegar até lá. Consegui o dinheiro para a viagem vendendo rifas e brigadeiros. Mas quando conquistei o título, percebi que todo esforço valeu a pena. Depois disso, fui campeã europeia e vice pan-americana, e agora busco meu segundo título mundial.”
A preparação para competições envolve um regime rigoroso de treinos e alimentação. “Nosso treino não é diferente do masculino no alto rendimento, mas nossa fisiologia sim. Perdemos peso de maneira diferente e precisamos de um controle mais preciso da alimentação. Muitas vezes, atletas femininas passam por dietas e cortes de peso muito desafiadores para se manterem na categoria”, explica Fernanda.

Márcio reforça que o treino de alto rendimento é o mesmo para ambos os sexos, mas que as academias sérias buscam adaptar os ensinamentos para que as mulheres possam competir em alto nível. “Se uma atleta quer competir, nós oferecemos todo o suporte, explicamos as regras da federação, treinamos especificamente para sua categoria e buscamos prepará-la para qualquer situação”, afirma.
Apesar dos desafios, o jiu-jitsu feminino cresce a cada dia. Projetos sociais e academias especializadas têm oferecido mais oportunidades para mulheres, além de criar um ambiente mais acolhedor para novas atletas. O apoio entre as competidoras também tem se tornado um pilar fundamental dentro do esporte.
Ailla Laís destaca a importância desse suporte: “No começo, eu achava que ia para o campeonato sozinha. Mas meus colegas de treino me ajudaram com tudo, desde me emprestar um kimono até me incentivar a seguir firme no tatame. Esse apoio fez toda a diferença.”
Márcio também aponta que a presença feminina nos campeonatos tem crescido, mas que o esporte ainda precisa de mais visibilidade. “A mídia tem dado mais atenção para o jiu-jitsu feminino, mas ainda é necessário mais investimento e incentivo. Quanto mais mulheres começarem no esporte, mais campeonatos femininos serão realizados, e maior será o reconhecimento”, ressalta.
Embora ainda existam desafios a serem superados, o jiu-jitsu feminino segue em expansão. Cada nova atleta que pisa no tatame contribui para a mudança do cenário, mostrando que a força, a técnica e a dedicação das mulheres são tão valiosas quanto as dos homens. “Meu sonho é competir na Europa e, no futuro, poder retribuir tudo que o esporte me deu, ajudando outras meninas a encontrarem no jiu-jitsu um caminho de crescimento e superação”, conclui Ailla.