Nos bastidores da notícia: Mafê compartilha sua trajetória no jornalismo
A repórter do DFTV revela os desafios e os aprendizados que marcaram sua jornada, e explica a importância do jornalismo hiperlocal.
Postado em 31/03/2025
Com mais de 25 anos de carreira, Maria Fernanda Soares, conhecida como Mafê, construiu sua trajetória no jornalismo sempre próxima da notícia e, principalmente, das pessoas. Formada pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), ela iniciou no rádio, passou pela TV Bandeirantes e pela CNT, até chegar à Globo, em 2008, onde se consolidou como repórter do DFTV.
Embora tenha se encantado com a comunicação de diversas formas, incluindo o teatro e a assessoria de imprensa, foi na TV que encontrou seu espaço. “Eu comecei, inclusive, trabalhando em assessoria de imprensa. Trabalhei na assessoria dos Correios, do Superior Tribunal de Justiça e depois eu fui para a rádio, eu amava trabalhar em rádio. Trabalhei na Rádio Nacional e depois surgiu uma oportunidade de trabalhar na TV logo quando eu me formei, também me apaixonei e não saio mais”, conta.
Ao longo dos anos, cobriu de tudo um pouco, dos grandes acontecimentos da capital às histórias do cotidiano que fazem a diferença na vida dos brasilienses. “O que mais me fascina nesse jornalismo de cidade é exatamente essa conversa direta com a comunidade, com as pessoas, e saber que, de alguma forma, você vai pedir e, quem sabe, resolver essa situação”, destaca. Além disso, enfrentou desafios marcantes, como a denúncia contra uma ONG que desviava recursos públicos destinados ao cuidado de usuários de drogas. “Era uma coisa muito grave e a gente tinha que investigar direitinho, porque não podia dar uma barrigada”, lembra.
Nessa entrevista, Mafê relembra os caminhos que a trouxeram até aqui, fala sobre os desafios e encantos do jornalismo hiperlocal e compartilha sua visão sobre contar histórias tão próximas da realidade dos moradores do Distrito Federal.
Como surgiu o seu interesse pelo jornalismo? Sempre quis trabalhar com a TV?
Desde pequenininha eu sempre fui muito comunicativa. Adorava falar, às vezes eu brincava de repórter, e tinha muita gente que chamava atenção dizendo que minha voz era muito posturada. Mas eu também tinha muita vontade de ser atriz, mexer nessa área de comunicação em geral, aí fiz faculdade de jornalismo e me encontrei. Não é desde sempre que quis trabalhar em TV; eu comecei, inclusive, trabalhando em assessoria de imprensa. Trabalhei na assessoria dos Correios, do Superior Tribunal de Justiça e depois eu fui para a rádio, eu amava trabalhar em rádio. Trabalhei na Rádio Nacional e depois surgiu uma oportunidade de trabalhar na TV logo quando eu me formei, também me apaixonei e não saio mais.
O que mais te marcou no período da faculdade e como isso influenciou sua trajetória profissional?
É interessante que o que mais me marcou na faculdade, e isso pode ter influenciado, era que eu amava as aulas de telejornalismo. Amava as aulas de telejornalismo e também de rádio. Me marcou muito essa parte da TV, e quando eu fui escolher, eu pensei: “cara, eu vou para essa TV”, eu lembrava demais das aulas que eu tive. Uma coisa que eu acho super interessante, e que na época que eu estava na faculdade não teve muito, é você ouvir a experiência das pessoas. Levar um profissional para falar a experiência dele, isso ajuda muito a escolher.
Quais foram as suas experiências com o jornalismo até chegar ao seu trabalho atual?
Olha, eu tive tanta experiência antes de chegar na Globo. Mas muita coisa que me ajudou nessa trajetória foi ganhar uma experiência incrível dentro do Congresso Nacional, onde a gente aprende política. Eu acho que você tem que aprender em lugares pequenos, ter uma experiência assim antes de chegar onde eu cheguei, tipo na Globo. Eu acho interessante a experiência que eu tive dentro do Congresso Nacional e em TV’s menores, onde você tem que fazer uma produção e que não é só ir lá na rua, pegar uma pauta e achar que sabe tudo. Você participa de todo o processo, e essa experiência foi muito rica para me colocar onde eu estou hoje. Eu também aprendi muito, por exemplo, na Band, onde eu também trabalhava na rua cobrindo a comunidade e ouvindo as pessoas. Isso também já me deu uma bagagem para estar onde eu estou.

Como é o dia a dia da sua rotina como repórter?
O meu dia a dia é “trash”. Agora eu estou acordando entre 3h30 e 3h50 da manhã, vou para a TV, me arrumo e faço minha maquiagem sozinha. Aí eu recebo a pauta do assunto que eu vou falar no “Hora 1”, que é o jornal que passa antes do “Bom Dia DF”. Depois eu vou para a rua, faço a minha entrada no “Hora 1”, ali por volta das 5h30 da manhã, e já pego a outra pauta do “Bom Dia DF”, que eu recebo também no celular. Dou uma lida, que tem que ser tudo muito rápido, e já entro no assunto do “Bom Dia”. Quando é 6 horas eu entro ao vivo no giro de repórteres para dar um spoiler do que eu vou falar durante o jornal. Depois disso, eu sigo para o lugar onde vai ser a minha pauta e a gente faz a entrada ao vivo. Se o assunto do “Bom Dia” render, eu fecho ele para o “DF 1”, e se não, eles provavelmente me mandam uma outra pauta por telefone para eu fechar essa outra para o ”DF 1”, que é o jornal de 11h45. Se estiver rendendo muito e for um assunto que vale a pena, além da matéria, a gente também faz um ao vivo. Essa é minha rotina e ela não para.
Qual foi a reportagem mais desafiadora que você já fez cobrindo Brasília?
É tanta reportagem desafiadora, mas eu vou dar um exemplo de uma mais recente, de uma denúncia que eu recebi de uma pessoa na rua. Essa reportagem era de uma denúncia contra uma ONG que recebia dinheiro do Governo Federal e do Governo aqui do DF, o GDF, para cuidar de usuários de drogas. E a gente descobriu, eu recebi várias provas, que o dono dessa ONG estava desviando dinheiro para conta dele para pagar despesas pessoais. Enfim, era uma coisa muito grave e a gente tinha que investigar direitinho, porque não podia dar uma barrigada. Tinha que confirmar tudo, e de fato foi se confirmando. Chegou até ao Tribunal de Contas do DF, eles caçaram os contratos e o presidente foi destituído. Foi terrível, as pessoas deixaram de doar, porque muita gente doava, muita gente rica doava. É, foi desafiador, e se eu não me engano, a ONG fechou.
Como é trabalhar com o jornalismo de cidades? Tem algum tema que te motiva mais?
Eu, particularmente, amo trabalhar com esse jornalismo comunitário, de cidade, ouvir a história das pessoas. O que é muito bacana da força do jornalismo. Eu falo, principalmente, pela TV Globo, que tem um peso de ainda conseguir resolver o problema de várias pessoas. Então, o que eu mais gosto é quando você pega, por exemplo, um caso de saúde que uma pessoa está precisando fazer um tratamento e não está conseguindo. A gente denuncia o caso e, no dia seguinte, ou no mesmo dia às vezes, eles ligam e falam: “olha, logo depois que passou a reportagem, o hospital chamou a minha mãe para cirurgia”, “poxa, logo depois que passou a reportagem, eles trocaram o lanche da escola”, e por aí vai. São coisas assim que você consegue, na prática, ver o caso resolvido. Por isso que o que mais me fascina nesse jornalismo de cidade é exatamente essa conversa direta com a comunidade, com as pessoas, e saber que, de alguma forma, você vai pedir e, quem sabe, resolver essa situação.

Como é lidar com a pressão do ao vivo? Já passou por alguma situação complicada durante uma entrada?
Eu tenho uma lista de situações de vivo, é muita adrenalina. A gente se acostuma, mas vira e mexe é aquela adrenalina de sempre, afinal de contas, você vai falar ao vivo. Eu costumo nem tentar lembrar de quantas pessoas estão assistindo, ou se tem alguém assistindo, é como se eu estivesse falando só com aquela câmera ali na frente, para sair mais leve. Já aconteceram várias situações, gente que passa na frente, passa xingando, passa beijando, passa dando bom dia. Graças a Deus, eu só tive situações boas, muitas pessoas passam e nem percebem que tá ao vivo, aí falam: “E aí Mafê, tudo bom?” e eu estou lá falando.
Tem uma história que é bacana, se você quiser destacar. Foi o meu primeiro ao vivo de TV da vida, foi na CNT, no ano que eu entrei na televisão. Eu tinha acabado de me formar, não tinha nem seis meses de formada, cobria Congresso pela CNT, e eu tinha uma entrada ao vivo para fazer no jornal, sofri o dia inteiro com aquela entrada. O jornal da CNT era tarde, começava 21h30 da noite, então foi bom porque não teria mais ninguém no Congresso quando eu fosse entrar ao vivo. Eu sofri o dia inteiro, o Congresso foi esvaziando e eu pensava “graças a Deus não vai ter ninguém”, e na hora que eu fui entrar ao vivo não tinha ninguém mesmo.
Não esqueço dessa cena nunca. Comecei a entrar ao vivo, o jornal era de Curitiba e o apresentador começou a chamar meu nome. Hoje eu assino “Maria Fernanda”, mas naquela época eu assinava “Fernanda Soares”, aí o apresentador me chamou: “Vamos à Brasília com Fernanda Soares”. Quando eu comecei a falar, subiu um fotógrafo do além, que eu me perguntei de onde saiu aquele homem às 22h30 da noite no Congresso vazio. E esse fotógrafo era um fofoqueiro que adorava puxar conversa, ele apareceu do nada, subiu a escada do Congresso e veio na minha direção. Eu simplesmente esqueci tudo que eu ia falar, errei tudo, gaguejei e no final, para fechar com chave de ouro, eu já estava tão nervosa que eu assinei “de Brasília, Maria Fernanda”. Eu errei até o meu nome, sério. Quando desligou aquele equipamento, eu só não xinguei aquele homem de bonito, eu falei “seu filho da puta!”, porque ele veio na minha direção e ficou parado na minha frente. E essa foi a minha primeira experiência ao vivo.
Qual foi o momento em que você sentiu que estava realmente no caminho certo na profissão?
Para mim, o que me mostra, cada vez mais, que eu escolhi a coisa certa foi perceber que, de alguma forma, eu posso ajudar a vida de uma pessoa. Ouvir aquela história, contar aquela história, cobrar e conseguir fazer com que essa cobrança de fato seja atendida é incrível, é o que me move a seguir nessa profissão desafiadora. E me faz ver que eu estou no caminho certo, porque eu gosto muito disso, sou muito apaixonada pelo jornalismo e pela reportagem que eu faço.
Se pudesse voltar no tempo e dar um conselho para a Mafê recém-formada, qual seria?
Eu voltaria, se eu tivesse lá, e ia dar um conselho: “segue essa vida, segue esse caminho que vai te deixar muito feliz, vai te fazer uma pessoa muito feliz”. Agora, maturidade é tudo, mas a gente só adquire maturidade e experiência com o tempo. Eu diria “segue teu rumo, segue o que o teu coração quer, porque vai ser lindo”, e tá sendo.