O preço do excesso: quando o trabalho vira um vício

A romantização do trabalho excessivo esconde riscos que vão da ansiedade ao burnout

Lorena Cristina de Lima Rios

Postado em 24/03/2025

A cultura do hustle, que exalta a dedicação extrema ao trabalho como caminho para o sucesso, tem levado muitos profissionais a ultrapassarem os limites saudáveis da produtividade. Embora pareça valorizar o empenho, essa mentalidade esconde riscos significativos para a saúde física e mental.

A partir de 26 de maio, as empresas brasileiras serão obrigadas a avaliar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A medida faz parte da nova versão da Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17), divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, que reconhece a importância da saúde mental no contexto organizacional. A norma exige que empregadores identifiquem e enfrentem fatores de risco como assédio moral, metas abusivas e jornadas excessivas, promovendo ações que garantam ambientes mais seguros e saudáveis.

Essa atualização reflete a preocupação crescente com o adoecimento mental relacionado ao trabalho, especialmente diante do avanço dos casos de burnout, ansiedade e depressão entre trabalhadores brasileiros. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o segundo país com maior índice de pessoas ansiosas no mundo.

Impactos na saúde

O comportamento workaholic está associado a diversos problemas de saúde. Estudos indicam que indivíduos com tendência ao workaholismo apresentam maior propensão a desenvolver ansiedade (33,8% contra 11,9%) e depressão (8,9% contra 2,6%). Além disso, o estresse crônico decorrente do excesso de trabalho pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares e distúrbios do sono.

A neuropsicóloga Alessandra Araújo Vieira explica que a dificuldade em reconhecer os próprios limites é um dos principais desafios enfrentados por quem sofre com o excesso de trabalho. “O workaholic muitas vezes não percebe que está colocando sua saúde em risco. O corpo começa a dar sinais de alerta, como fadiga extrema, insônia e isolamento social”, destaca.

Bruno Kruchak, servidor público, relata um comportamento comum entre os workaholics: “Eu já trabalhei doente porque estava entediado.” Embora afirme que separa trabalho e vida pessoal, admite que a necessidade de se sentir produtivo o faz se dedicar além do necessário. “Acho que me sinto melhor quando estou ocupado com algo, não necessariamente trabalho, mas qualquer outra coisa”, afirma.

Jéssica Luz, profissional da comunicação, enfrentou o burnout.“Tive uma crise ano passado e acabei trabalhando doente mesmo.” Apesar da recomendação médica de afastamento por três meses, ela optou por tirar apenas 14 dias. “Achei que um afastamento maior poderia prejudicar minha imagem no trabalho ou até resultar numa demissão”.

Profissional da comunicação, Jessica ignorou sinais de esgotamento – (crédito – Lorena Rios)

Prevalência e consequências

No Brasil, a síndrome de burnout afeta aproximadamente 30% dos trabalhadores, colocando o país entre os líderes mundiais em casos diagnosticados. Essas condições estão associadas a altos níveis de exaustão emocional, despersonalização e baixa eficácia profissional.

Alessandra aponta que, além dos impactos físicos e mentais, o workaholismo compromete a qualidade de vida e os relacionamentos. “Muitos workaholics não percebem que estão se distanciando da família e dos amigos. Eles cancelam compromissos frequentemente e, quando estão presentes, continuam checando e-mails e mensagens de trabalho”, explica.

Bruno admite que o trabalho pode afetar a vida pessoal. “Já recebi reclamações sobre estar sempre ocupado. Tento equilibrar as coisas, mas reconheço que, no futuro, posso olhar para trás e perceber que poderia ter dedicado mais tempo à vida pessoal.”

A cultura do Hustle e a romantização do trabalho excessivo

A cultura do hustle, amplamente promovida em redes sociais, reforça a ideia de que sucesso só é alcançado através de uma dedicação extrema. Influenciadores e empreendedores apresentam uma imagem de produtividade ininterrupta, levando seus seguidores a acreditarem que precisam seguir o mesmo ritmo para se destacarem profissionalmente.

Essa busca por reconhecimento também é um fator determinante para a manutenção do workaholismo. “Eu me cobro muito e quero entregar sempre o melhor trabalho. Não estou buscando aprovação de terceiros, mas acabo recebendo elogios e sendo cada vez mais requisitada por conta disso”, explica a profissional de comunicação. Esse reforço positivo incentiva os profissionais a se manterem em um ciclo de trabalho incessante, dificultando a identificação de limites saudáveis.

A pressão para estar sempre disponível também é um aspecto marcante da cultura do hustle. Profissionais autônomos, freelancers e empreendedores enfrentam desafios adicionais, pois não possuem horários fixos e frequentemente sentem que precisam estar disponíveis 24 horas por dia. “Não tenho horário fixo para encerrar o expediente. É como se eu estivesse sempre de plantão, e isso acaba sendo um problema para minha saúde e relações pessoais”, revela Jéssica.

Como Romper com o Ciclo do Workaholism?

Superar o workaholismo não é uma tarefa simples, mas algumas ações podem ajudar a restabelecer um equilíbrio saudável. A neuropsicóloga reforça a importância da conscientização e do autoconhecimento. “É essencial aprender a dizer ‘não’, estabelecer limites e encontrar formas de lazer que tragam satisfação pessoal sem estar relacionadas ao trabalho”, orienta.

Alessandra Vieira reforça: “O corpo dá sinais quando o limite é ultrapassado” – (crédito – Lorena Rios)

Ela também destaca que pequenas mudanças podem fazer diferença. “Reduzir a carga de trabalho gradualmente, inserir atividades prazerosas e respeitar os sinais do corpo são fundamentais. Em alguns casos, o acompanhamento terapêutico pode ser necessário”, explica.

Bruno reforça a necessidade de equilíbrio: “Eu tento dividir bem as coisas. Quando eu termino o trabalho, eu não pego mais nada. Mas, claro, em casos de urgência, eu acabo ultrapassando esses limites.”