Telemedicina cresce no Brasil, mas ainda enfrenta desafios

Consultas online facilitam acesso a médicos em regiões remotas, mas a falta de exames físicos segue como obstáculo.

Ana Beatriz Souza Cotrim

Postado em 31/03/2025

Após a regulamentação da telemedicina em 2022 pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), os atendimentos online transformaram o cenário da saúde, trazendo uma série de mudanças nas práticas médicas. Em apenas um ano depois da regulamentação, a quantidade de teleconsultas no Brasil aumentou em 172%, tendo mais de 30 milhões de atendimentos online em 2023. 

Apesar de facilitar o acesso e permitir um acompanhamento mais frequente, a telemedicina apresenta desafios que impactam tanto médicos quanto pacientes. A possibilidade de realizar consultas sem deslocamento agiliza o atendimento e reduz custos, mas a ausência de exames físicos pode comprometer diagnósticos mais precisos. A adaptação a novas ferramentas pode ser desafiadora, tanto para médicos quanto para pacientes, além da falta de proximidade no atendimento.

Vantagens

Consultas online possibilitam acompanhar a evolução do paciente sem sair de casa / Reprodução: Freepik

As razões para escolher um atendimento online ao invés de um presencial variam de paciente para paciente, mas um motivo muito comum é a conveniência. “Eu escolhi uma consulta online por ter dificuldade de encaixar uma presencial na minha rotina”, explica a estudante universitária Maitê Sousa, de 18 anos, que ano de 2024 foi paciente de terapia online. 

Essa conveniência gerada pela telemedicina também ajuda o médico em tratamentos mais longos, já que por meio dela se torna possível acompanhar a evolução do quadro clínico de forma contínua. A psicóloga Raíssa Piau, especializada em terapia de adultos e casais que, apesar de também realizar atendimentos presenciais, hoje em dia também precisa de consultas online para atender parte dos seus pacientes: “A maior parte dos meus pacientes não conseguiriam ser atendidos regularmente se não fosse a terapia online”.

Ferramentas tecnológicas são essenciais nos atendimentos online, auxiliando no controle de doenças crônicas, transtornos psiquiátricos e reabilitação. Sobre o assunto, a médica Ellen Paulino, que atende medicina de família e comunidade e psiquiatria, reporta: “Uso prontuário eletrônico seguro para registrar toda a evolução do paciente, incluindo sintomas, medicações e respostas ao tratamento. Também indico apps de monitoramento do humor, como o Daylio ou Bearable, para que o paciente registre como está se sentindo no dia a dia”. Ter um bom acompanhamento online evita com que o paciente tenha que se locomover para consultas diárias. 

Essa conectividade também ajuda pessoas de localidades mais distantes a receber atendimentos de áreas especializadas. “Eu tenho um paciente do Amazonas, onde os Correios só chegam de barco a cada 15 dias. Eu tenho pacientes de cada canto do Brasil e em áreas onde a medicina especializada não chega.”, relata Maria Helena Freire Nigro, médica dermatologista que realiza atendimentos online para tratamento de acne.

Desvantagens

Uma das maiores preocupações é a privacidade dos pacientes. Embora os sistemas de atendimento online e os médicos garantem essa segurança, o ambiente do paciente nem sempre é adequado. Em atendimentos psicológicos, esse problema é ainda mais evidente, pois a privacidade é essencial para que o paciente se abra. “Eu não me sentia confortável de ser completamente honesta por receio de que minha família escutasse”, diz Maitê Sousa, que foi paciente de terapia online no ano passado.

Alguns exames exigem atendimento presencial, como avaliações dermatológicas e cardiológicas mais detalhadas. Nessas situações, a consulta online pode orientar, mas não substituir a presencial. “Quando fiz uma consulta online sobre pintas que tinha no meu corpo foi quando eu mais senti que aquele atendimento não seria suficiente e eu teria que ir para o presencial”, relatou o paciente Rafael Souza, de 24 anos.

A dermatologista Maria Helena Nigro concorda com essa limitação da telemedicina, destacando que certas condições exigem uma avaliação presencial mais detalhada. “Na minha prática, tem algumas coisas que são impossíveis de analisar corretamente de forma online, como pintas e queda de cabelo.” Segundo a médica, fatores como textura da pele, variações sutis na coloração e detalhes microscópicos das lesões são fatores importantes para um diagnóstico e que variam muito de problema a problema.