Vida em cativeiro molda comportamento dos animais

Zoológico de Brasília cria ambientes para estimular as habilidades naturais dos bichos

Nicole Esthefany Moreira Bispo

Postado em 19/03/2025

 O zoológico faz parte da vida de grande parte da população, famílias inteiras vão admirar a vida animal e aprender sobre ela. Dentro desse espaço tão divertido, diversos habitats são criados para acolher animais de diferentes espécies e protegê-los. Porém, é inevitável que um ambiente não natural molda o comportamento desses animais de diferentes formas. 

O impacto nas habilidades físicas

 O cuidado e o carinho pelos animais que estão nessa situação é indiscutível, porém viver em cativeiro pode afetar os animais a nunca mais conseguirem voltar para a natureza, seja por limitações físicas ou comportamentais. O veterinário especialista em vida silvestre, Radynner Leyff, afirma que mesmo com todos os cuidados, muitos animais reintroduzidos não sobrevivem ao primeiro ano de soltura. “A vida selvagem impõe desafios extremos. Se um indivíduo passou toda a sua vida em cativeiro, ele pode não reconhecer seu próprio habitat e não saber desempenhar seu papel ecológico, comprometendo suas chances de adaptação”.

 Em Brasília, diversas espécies de diferentes regiões do mundo são acolhidas no Zoológico, que faz de tudo para que os animais se sintam no seu meio natural e possam desenvolver suas habilidades. “Predadores, por exemplo, recebem alimentos de forma que precisem “caçá-los” ou manipulá-los para se alimentar”, afirmam os cuidadores. “Algumas espécies de felinos e primatas recebem estruturas que incentivam o deslocamento e a escalada, enquanto outros animais são estimulados a usar a camuflagem ou a forragear (procurar alimentos), como fariam na natureza”.

Onça em seu habitat criado pelo zoológico para melhor desenvolvimento do animal | Foto: Nicole Moreira

O lado emocional

 Além das habilidades físicas, as necessidades emocionais também são questões a serem observadas. O isolamento social pode ser impactante para alguns animais mais sociáveis, como primatas, elefantes, aves e algumas espécies de roedores. Muitas vezes, aves e pequenos mamíferos podem reconhecer seus cuidadores como parte do bando, isso pode ser benéfico para suprir as necessidades sociais que eles têm, mas pode ser prejudicial caso o animal crie uma dependência emocional, lhe causando ansiedade e, na falta do cuidador, depressão.

 Por outro lado, existem espécies que não dependem dessa interação social, como serpentes, alguns répteis e roedores. O Dr. Leyff destaca uma curiosidade interessante: “Serpentes já nascem sabendo caçar, se esconder e realizar a ecdise (troca de pele), contando apenas com seu próprio instinto para sobreviver. Em algumas espécies, o contato com a mãe durante a fase juvenil pode até representar um risco.”

 No zoológico de Brasília, existe um controle do contato humano com os animais, evitando a dependência emocional deles e garantindo um comportamento mais natural, explica o diretor-presidente, Wallison Couto. “Algumas espécies, especialmente mamíferos como primatas e elefantes, podem criar laços com seus tratadores. Isso pode influenciar seu comportamento, tornando-os mais receptivos a treinamentos veterinários e manejos”.

Primatas se mantém em grupo no Zoológico de Brasília | Foto: Nicole Moreira

O clima e a alimentação são essenciais para o desenvolvimento das espécies

 O fator ambiental impacta também diretamente na vida de espécies que vivem em outros ambientes. Só o Brasil possui seis biomas com diferentes espécies de vida, a adaptação desses animais deve ser facilitada o máximo possível, com ambientes climatizados e flora de seu habitat natural, permitindo sua sobrevivência. No zoológico, esses habitats são construídos de forma a cuidar das necessidades de cada espécie com controle de temperatura e áreas sombreadas. Além disso, em época de estiagem o zoológico costuma preparar picolés, dentro da dieta dos animais, para que eles possam se refrescar.

“A dieta dos animais é formulada por zootecnistas, levando em conta as necessidades nutricionais específicas de cada espécie. Os alimentos são escolhidos de acordo com a alimentação natural dos animais, e são oferecidos de formas variadas para estimular comportamentos naturais”, explica o diretor, que também contou sobre as preferências de certos animais. “A girafa Yaza, que faleceu, não gostava de batata doce e o rinoceronte Thor não gosta de banana”.

Comida sendo preparada no zoológico para os animais se alimentarem | Foto: Zoológico de Brasília

Domesticação de animais silvestres e o cuidado com as espécies em extinção

 A domesticação de animais silvestres, que ocorre de diversas maneiras, é um processo lento que já aconteceu com diversas espécies conhecidas. A chamada ‘seleção artificial’ é caracterizada pela escolha de animais que conseguem se adaptar e viver bem nesse ambiente, sendo observadas características que sejam mais atraentes a animais de estimação, como foi o caso dos porquinhos-da-índia. Alguns animais ainda estão nesse processo, como os gatos, que, apesar de viverem em ambientes domésticos, ainda possuem costumes silvestres e podem voltar mais facilmente à vida livre.

 Retirar o animal de seu habitat natural afeta seu comportamento e em alguns casos pode ser benéfico, como em espécies em extinção que precisam de certos cuidados e repovoamento. É o caso do lobo-guará, que participa do programa de reprodução do zoológico. “Os casais são escolhidos cuidadosamente e, quando há reprodução bem-sucedida, os filhotes podem ser criados no zoológico ou preparados para reintrodução na natureza, dependendo das condições do habitat natural e da viabilidade da soltura”, conta o diretor.