Vila Cultural Cobra Cobral resiste à desocupação
A vila ocupa uma área próxima à Avenida das Nações há 55 anos. E é sinônimo de diversidade cultural e religiosa
Postado em 31/03/2025
No dia 20 de março de 1970 surgia em Brasília a Vila Cultural Cobra Coral, que, com o tempo, viria a se tornar um dos maiores e mais importantes centros culturais, religiosos e ecológicos da capital do país.
Berço de um dos primeiros centros espíritas de Brasília, a vila recebeu o nome por conta de uma mãe de santo que fazia trabalhos no centro e que incorporava um caboclo chamado Cobra Coral. Seu Luís, fundados da vila e à frente do centro na época, batizou não só o local com o nome do espírito indígena como também a vila que se formava.
Até então um depósito de entulhos e lixo, se tornou, através do árduo trabalho dos primeiros moradores, uma vila habitável e verde. Porém, para os governantes, é uma ocupação ilegal. Batalhas judiciais foram travadas para regularizar a área. Seu Luís entrou com um processo contra o governo do DF em 1999. No entanto, perdeu e a decisão foi colocada como trânsito julgado. Desde então, a população da vila luta para ser reconhecida.

A falta de regularização não impediu o crescimento orgânico do lugar; pessoas chegavam, se estabeleciam e formavam famílias no espaço à margem da Via L4 Sul em meio à natureza e à pluralidade de religiões. Moradores antigos acolheram os novos residentes, que também trouxeram cultura e sabedoria e ajudaram a construir a potência que a vila é hoje.
José Basílio Filho, liderança da vila ao lado do filho Carlos Magno, chegou ao local há pouco mais de 20 anos. Ele defende a permanência da vila com afinco e luta na linha de frente, sabendo a importância do lugar não só para Brasília, mas para o Brasil. O sentimento pela Cobra Coral passou de pai para filho. Ambos veem que a posição que conquistaram foi algo natural em decorrência da luta e também pela consideração da população que vive ali.
Religiosa, cultural e ecológica

Com nome de caboclo, a vila é um reduto de diversidade religiosa. Abraçando todas as crenças, existem vários espaços para quem quer exercer sua fé. O antigo centro espírita Cobra Coral hoje é chamado de Pai Joaquim De Aruanda. O centro faz atendimentos semanais todas às quintas-feiras e recebe uma média de 300 pessoas. “Vem pessoas do Brasil inteiro para receber atendimento aqui no centro, gente de todas as classes sociais, de pessoas humildes até senadores”, conta Carlos Magno.
Desde 2002, a vila abriga também a Casa de Xangô, liderada pelo Seu Ilauro e que atua na parte espiritual para pessoas que compartilham das crenças de matrizes africanas ou que apenas precisam de conforto, cuidado ou um norte para a vida.
A fé cristã garante o seu lugar na região com a capela São Raimundo Nonato, que além de alimentar a fé e espiritualidade dos moradores católicos, promove trabalhos comunitários na vila. Além disso, evangélicos também são atuantes nos trabalhos de caridade e respeitam o espaço de cada religião. “É muito plural aqui na Vila essa questão religiosa. Aqui tem de tudo, não tem discriminação. Sempre foi assim, as pessoas aceitam e apoiam. Nunca houve conflito em relação a essas questões”, relata o líder da comunidade.



O primeiro folclore brasiliense nasceu na Vila Cobra Coral, em 2004: o chamado calango voador pertence ao Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, um grupo cultural que utiliza elementos do cerrado e da vida candanga nas apresentações. Reconhecido internacionalmente, o grupo é considerado patrimônio material de Brasília e tem espaço no calendário cultural do DF. Seu Estrelo recebeu o título de cidadão honorário de Brasília.
A Casa da Árvore é outro projeto de extrema importância para os moradores da vila. Um local para o encontro de artistas, ativistas e aberto para toda comunidade. De música à arte circense, o espaço abraça as mais variadas formas de arte.
A vila conta com outros projetos culturais, como o Projeto Valdir Azevedo, que preserva e desenvolve atividades voltadas para o samba.

O Espaço Inventado é outro importante espaço cultural da comunidade. Dirigido por Artur Sinimbu, oferece atividades variadas para pessoas do DF, mas principalmente para as crianças da vila. Com uma área verde e duas casas sustentáveis, a coluna dorsal do Espaço Inventado é a Capoeira Angola, que além de preservar um pedaço da cultura africana, ensina às crianças a arte da luta. Além disso, o espaço é um lugar seguro e pacífico para as crianças moradoras, que podem brincar, ler e se divertir; reuniões dos líderes e coordenadores também ocorrem na casa principal, mostrando que mais que um lugar cultural, é um lugar de luta.
A cultura tão rica da vila trouxe para seu espaço artistas do mundo todo, como conta Carlos. No local apelidado de Rocinha, diversas pessoas do Brasil e do mundo já puderam repousar e reabastecer as energias. “A Rocinha, durante muito tempo, foi local de abrigo de vários artistas do mundo todo, vinham artistas da Bolívia, Venezuela, Espanha”, conta Carlos.
Para Seu José, a arborização e manutenção de toda área da vila, inclusive os arredores, foi por conta da consciência ecológica dos moradores. Espaços de convívio feitos de barro, áreas para depósitos de lixo foram financiadas por moradores, diversas casas e itens que respeitam a sustentabilidade e o reuso de materiais recicláveis podem ser vistos em diversos cantinhos da vila. O que antes era um lixão a céu aberto, se tornou uma extensa área verde, para combinar com o Plano Piloto. “Se o parque ecológico da Asa Sul, que fica aqui atrás, existe, é porque no passado os moradores fizeram a plantação e revitalização de toda a área que estava abandonada”, explica um dos líderes da vila.
Derrubadas e luta
A coexistência entre a vila, seus residentes e tudo que os cercavam sempre existiu e era respeitada. Porém diversas tentativas de derrubada da vila existiram ao longo desses 55 anos, como em 2009. Seu José precisou defender a vila, quando de forma abrupta funcionários do governo foram fazer uma derrubada. Porém, essas tentativas se intensificaram fortemente no ano de 2019, quando o GDF e o Ibram, Instituto Brasília Ambiental, emitiram uma notificação de despejo para toda a vila, alegando que a área era exclusiva do parque ecológico e não deveria ter de forma alguma residentes por lá. Tal notificação foi uma surpresa para todos os habitantes do reduto, principalmente para José Basílio, que no início do parque ecológico foi convidado e levou diversos moradores, para ajudar na oficina de manejo do parque. “Na época, durante o manejo do parque, houve uma votação na prefeitura da Asa Sul, que permitiu que nós morássemos aqui. Então a notificação nos pegou de surpresa”, lembra José Basílio.
Mesmo totalmente surpreendidos, a luta pela vila continua; os trâmites para recorrer à decisão foram iniciados e a resposta recebida foi que os moradores da Cobra Coral estavam em área ambiental e não tinham sequer o direito de recorrer. Em sua defesa, a liderança argumentou que a Vila Cultural Cobra Coral existe muito antes do parque e questionaram o plano de manejo. O caso foi julgado até última instância e não houve qualquer tentativa de conciliação por parte do GDF, mesmo que o comitê de liderança da vila estivesse sendo amigável, de acordo com Carlos Magno: “Sempre fomos muito abertos ao governo, em dialogar. Em poder coexistir, porque a gente considera a Vila patrimônio histórico e cultural de Brasília.”
Em 2020, por decisão do Juiz Luís Roberto Barroso, nenhuma ocupação poderia ser derrubada, por conta da COVID-19. Dessa forma, a Vila Cobra Coral teve um respiro e se concentrou em cuidar dos seus. No entanto, em agosto de 2024, ocorreu uma reunião onde decidiram que os moradores receberiam uma nova liminar para desocuparem suas casas e a vila seria derrubada. Os líderes comunitários só puderam se preparar para a nova batalha por conta de uma fonte de confiança de Seu José.
A corrida contra o tempo começou para o comitê de liderança, já que a ação de derrubada seria realizada entre os dias 4 e 8 de setembro de 2024. Carlos procurou a defensoria pública e entrou com um pedido de judicialização da vila. Um juiz, da vara ambiental, favoreceu os moradores com uma liminar para poder suspender a desocupação. De lá para cá ocorreram diversos processos, entre eles uma audiência pública em que importantes figuras da vila e alguns deputados falaram em favor do local, mostrando sua importância não só para os habitantes, mas como para todo o DF.
A Vila Cultural Cobra Coral é contemplada pela Lei 1041 artigo 63, que prevê o estudo da valorização da área. Com isso e vários outros argumentos favoráveis à vila e o apoio de políticos como Érica Kokay, Fábio Félix e Max Maciel, reuniões foram marcadas e ambos os lados foram ouvidos. Na última audiência, o Ibram, um dos principais interessados, não estava presente.
Em janeiro de 2025, apenas seis dias antes da desocupação oficial acontecer, a justiça suspendeu a ação, justificando que o processo de derrubada não pode ser feito sem um plano de realocação da comunidade. Carlos conta que a visita de uma juíza está agendada e que isso traz esperança. “Sinto que estamos encaminhando para uma resolução final depois de toda essa batalha, uma luta que teve início desde o começo da nossa vila.”
Vila Cultural Cobra Coral VIVE e RESISTE
Localizada na 813 Sul, a Vila Cobra Coral é dividida em três áreas: a conservada, o condomínio e a parte da Dona Miriam. A terceira parte da vila é chamada assim por conta de uma das moradoras mais antigas da região, que além de uma figura de resistência e gentileza, promove trabalhos de caridade na vila. Assim como Dona Miriam, diversas outras pessoas importantes vivem ou já viveram na vila, como Gabriela Sandoval, importante figura na parte cultural da vila, que infelizmente faleceu na época da COVID-19, mas que está eternizada em um dos comitês da ocupação, que recebe seu nome.
A morada com nome de caboclo é lar para uma média de 230 famílias, mais de mil pessoas, sendo 400 crianças, de acordo com registros da vila. “Em sua grande parte os moradores são pessoas simples. Aqui têm pessoas com vulnerabilidade econômica. Pessoas que não têm condições de trabalhar, que estão com doenças graves, idosos. A gente têm pessoas idosas aqui na área, que precisam disso aqui”, explica Carlos.
Alguns grileiros se instalaram nas partes extremas da vila. “Nós queremos um ajuste de conduta do local. As invasões na Vila estão aumentando. E nós somos totalmente a favor que o governo chegue e atue, tirando as pessoas que estão invadindo”, relata Seu José, que já fez diversas denúncias ao Ministério Público, porém o problema persiste.
Para impedir que mais grileiros ou pessoas interessadas na especulação imobiliária da área se proliferem pela vila, o comitê de liderança solicitou no processo de judicialização da área um Marco Temporal, que prevê que apenas residências construídas antes de 2020 sejam regulamentadas.

Desde 2019, quando o novo governo da capital se instalou, as dificuldades da vila aumentaram, não apenas nas tentativas de desocupação, mas em questões básicas como o abastecimento de energia elétrica para novas residências e água encanada, já que dentro das diretrizes do governo está a proibição da distribuição de necessidades básicas.
Até o final do ano de 2024, quem passava pela Avenida das Nações via um pequeno pedaço da vila e não sabia ao certo o que existia ali. Com a união dos moradores, o comitê de liderança instalou placas nas entradas da vila, dando identidade e visibilidade para o lugar. “Foi colocada para poder sinalizar que aqui é uma vila não só cultural ou religiosa, mas uma vila de pessoas do bem, é um reconhecimento que aqui existe vida, que existe religião, aqui existe economia”, defende o líder Carlos.
Galeria
Arte dentro da Vila Cultural Cobra Coral Entrada da Vila Cultural Cobra Coral Interior da Vila Cultural Cobra Coral Interior da Vila Cultural Cobra Coral Fachada da Espaço Inventado Tenda de capoeira Instrumentos utilizados nas rodas de capoeira Espaço de trabalhos do Espaço Inventado Brinquedos do Espaço Inventado Casa dentro do Espaço Inventado Interior da casa do Espaço Inventado Interior da casa do Espaço Inventado Interior da casa do Espaço Inventado