Inflação e custos elevados desafiam donos de lanchonetes e afetam bolso do consumidor
Enquanto consumidores e comerciantes buscam se adaptar aos novos preços, a esperança é que políticas públicas possam aliviar a pressão sobre o setor.
Postado em 20/03/2025
Nos últimos meses, os consumidores têm sentido no bolso o impacto da alta nos preços das comidas vendidas em lanchonetes. O aumento, mesmo que pequeno, se torna significativo com o tempo, principalmente para estudantes e trabalhadores que dependem dessas opções no dia a dia. Segundo o IBGE, a inflação dos alimentos foi de 1,06% em janeiro, puxada pelo aumento no preço de itens como o tomate (17,12%) e o café moído (7,07%). Para os comerciantes, significa um custo maior na produção de salgados, sucos e cafés, que acaba sendo repassado para o consumidor. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) acumula alta de 4,50% em 12 meses, abaixo dos 4,71% observados no período anterior. Em janeiro de 2024, o índice foi de 0,31% com a alimentação fora do domicílio, desacelerando de 1,23% em dezembro para 0,93% no mesmo mês.
No atual cenário econômico, donos de pequenos negócios, como lanchonetes, enfrentam dificuldades para equilibrar a qualidade dos produtos e a manutenção de preços acessíveis aos clientes. Marcelo Jeremias, Kamilla Batista e João Batista, proprietários de diferentes lanchonetes, compartilham os impactos desses aumentos e como têm lidado com a situação.
Marcelo, que iniciou seu negócio em 2023, relata que os custos dos ingredientes e insumos têm impactado significativamente o preço final dos lanches. “Todo dia temos que comprar produtos, sempre que chegamos lá, o preço está diferente, aumentando a cada dia. Manter um valor para o cliente está mais difícil a cada dia”, explica. Além dos ingredientes, ele destaca que outros custos, como energia, gás e transporte, também influenciam a decisão de aumentar os valores. “Querendo ou não, tem que ter a parte para a empresa funcionar”, afirma.
Kamilla, que está no ramo desde 2020, menciona que itens como carne, frango, farinha de trigo, leite e café tiveram altas expressivas. Ela também aponta que a gasolina e os custos com água e energia contribuem para a necessidade de reajustes.
João administra a lanchonete Delícias da Neide há 29 anos, e acredita que os preços dos ingredientes são influenciados não apenas por fatores econômicos, mas também pelo clima. Ele observa que, apesar de os clientes reclamarem dos aumentos, muitos acabam se adaptando aos novos valores.
O economista Hélio Socolik, bacharel, mestre e professor de Economia, Finanças Públicas e Matemática Financeira, com vasta experiência em análises econômicas, destacou que a inflação da matéria-prima, impulsionada pela alta dos insumos como trigo, carne e óleo de cozinha, é um dos principais fatores que elevam os custos de produção. Além disso, o aumento dos combustíveis impacta o transporte, enquanto a valorização do dólar pode encarecer ingredientes importados. Ele também comentou sobre o peso das políticas públicas no setor. “O setor de alimentação fora do lar está sujeito a uma carga tributária elevada, incluindo ICMS, PIS/Cofins e tributos municipais. Se houvesse descontos fiscais ou simplificação tributária, os preços poderiam ser reduzidos”, explicou.
Sobre os impactos sociais, o economista alertou que o aumento dos preços pode reduzir o acesso à alimentação fora de casa para as classes de menor renda, além de pressionar pequenos comerciantes, que podem enfrentar queda nas vendas e, em casos extremos, fechamento de negócios.
Por fim, Hélio avaliou que as políticas atuais do governo têm impacto limitado sobre os preços dos alimentos, que são influenciados por fatores globais e logísticos. “Políticas mais direcionadas, como redução de impostos e incentivos à produção local, poderiam ser mais eficazes”, concluiu.

Consumidores sentem o peso dos reajustes
Do outro lado do balcão, os consumidores também sentem os efeitos dos reajustes. Maria Aparecida Lisboa, diarista de 60 anos, frequenta lanchonetes toda semana e percebeu os aumentos no início de 2025. Ela conta que, para continuar consumindo, teve que adaptar suas escolhas, dando preferência a lanches mais acessíveis.
Apesar do impacto no bolso, Maria acredita que os aumentos são justificáveis. “Acredito que seja justo, pois o preço de tudo subiu, né? Tanto no mercado, atacadão, transporte, combustível. Entendo que eles tenham que se adaptar aos novos preços, pois têm novas despesas. Mas mesmo assim, a gente sente falta”, comenta.
Estratégias para manter a fidelidade dos clientes
Para equilibrar a qualidade dos produtos com a pressão dos custos, os comerciantes adotam estratégias como promoções e brindes. João, por exemplo, oferece descontos em dias específicos da semana. Marcelo busca “garimpar” os melhores preços sem abrir mão da qualidade, enquanto Kamilla planeja continuar buscando soluções para manter o negócio sustentável.
No entanto, o aumento dos preços não vem sem consequências. Marcelo observou uma queda no número de clientes e nos valores dos pedidos. Kamilla também notou uma redução no movimento, enquanto João relata que, embora tenha sentido uma queda na demanda, conseguiu manter a maior parte dos clientes.