Estimular contato com livros é desafio crescente para pais e educadores

A literatura infantil enfrenta a concorrência das telas. Especialistas mostram que é possível atrair crianças para o mundo na leitura, mesmo em tempos de hiperconectividade.

Clara Tavares Silveira Mesquita

Postado em 31/03/2025

O desenvolvimento do hábito da leitura na infância é um dos pilares para a formação cognitiva e emocional das crianças. No entanto, em um cenário onde as telas digitais dominam o cotidiano, estimular o contato com os livros se tornou um desafio crescente para pais e educadores. Como equilibrar o consumo de tecnologia e a iniciação literária? Especialistas em pedagogia e autores infantis apontam caminhos para tornar a leitura uma experiência prazerosa e relevante.

De acordo com informações divulgadas, em 2022, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 84,9% das crianças de 10 a 13 anos usam as redes diariamente. O excesso de estímulos digitais e a cultura da hiperconectividade têm reduzido o tempo e a atenção dedicados aos livros, especialmente entre as crianças.

Os dispositivos eletrônicos oferecem entretenimento rápido e interativo, diminuindo a disposição para leituras prolongadas. O historiador e autor de diversos livros como: “A história cultural: entre práticas e representações”, “Práticas de leitura” e “Le sociologue et l`historien (livro entrevista com o sociólogo Pierre Bourdieu)”, Roger Chartier, afirma que a leitura “digitalizada” é responsável pela fragmentação textual, prejudicando a concentração e a retenção de informações, contrastando com os benefícios da leitura profunda promovida pelos livros físicos. Para as crianças, que estão em fase de formação cognitiva, essa mudança de hábito pode afetar a criatividade, empatia e o desenvolvimento da linguagem.

O impacto do excesso de telas na leitura infantil

O Centro Regional de Estudos para Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic) divulgou no dia 11 de fevereiro a porcentagem de crianças brasileiras de 0 a 2 anos com acesso à internet passou de 9% em 2015, para 44% em 2024.

A exposição precoce e excessiva a dispositivos eletrônicos tem sido associada a dificuldades de concentração e processamento de informações. A neurocientista cognitiva americana Maryanne Wolf, autora do livro O cérebro no mundo digital, afirma que o hábito de leitura profunda, essencial para a compreensão textual e o pensamento crítico, é prejudicado pelo consumo rápido e fragmentado de conteúdos digitais.

“A tela entrega tudo mastigado, e aí a mente preguiça, diz o autor de livros infantis Danilo Rebouças” – Foto: Wavebreakmedia/iStock)

O autor de livros infantis, formado em Teatro, Comunicação Social e Psicologia, Danilo Rebouças dos Reis reforça essa preocupação: “A tela é como um fast-food: sacia rápido, mas não nutre a imaginação. Quando eu era criança, meu pai dizia que os livros eram ‘janelas para mundos invisíveis’ – e isso que a tela rouba: o direito da criança de criar suas próprias imagens. O Bernardo, meu filho de 8 anos, me mostrou isso quando lemos juntos: no livro, ele imaginava o dragão de um jeito; no desenho animado, o dragão vinha pronto. A psicologia explica: a tela entrega tudo mastigado, e aí a mente preguiça”.

O autor também afirma que o uso excessivo de telas cansa a vista e cansa a mente. O constante bombardeio de informações proporcionadas pelas redes sociais e pela internet gera uma sensação de esgotamento e afeta o pensamento crítico das pessoas e a forma de se expressar, principalmente as crianças.

“A tela cansa, o livro acolhe. Ilustração você pode tocar, página que dá para rabiscar. Lembro da minha mãe dizendo: ‘Tela distrai, livro conquista'”.

Estratégias para estimular a leitura na infância

Para a autora, pedagoga e psicomotricista relacional, Beca Prado, uma estratégia a ser utilizada para gerar esse estímulo em crianças é o “brincar”. “Sou muito adepta do brincar. Associar brincadeiras às histórias é uma ótima estratégia. Promover passeios familiares a bibliotecas públicas e livrarias (sem nem precisar consumir), mais para ‘gastar’ tempo entregue ao prazer em explorar texto e ilustrações”, afirma a autora. Danilo também fala sobre a arte do brincar com os livros: ter cheiro, abas, páginas que mudam no escuro; o livro tornar algo interessante para as crianças.

A educação formal desempenha um papel crucial no desenvolvimento do hábito da leitura. A pedagoga Mayrlla Vilaça destaca a importância de metodologias inovadoras: “Para competir com a tecnologia, é essencial tornar a leitura dinâmica. Usar contação de histórias, clubes do livro e desafios literários pode despertar o interesse. Além disso, relacionar livros a temas que as crianças gostam ajuda a criar conexão”.

Além da leitura dinâmica, a pedagoga também reitera a criação de um espaço convidativo, com livros acessíveis e decoração envolvente, estimulando o hábito de leitura; fazendo com que a criança manuseie e explore o livro de forma confortável. Contando também com momentos diários para ler coletivamente ajuda a criar uma cultura literária na sala de aula.

Para Prado, a leitura compartilhada entre pais, educadores e crianças é essencial, principalmente em tempos de excesso de telas, pois elas ganham mais facilmente a atenção pela quantidade de estímulos presentes. Para ela, as ações dos pais e responsáveis também são de extrema importância para a criação do hábito da leitura nas crianças, já que elas possuem o instinto de copiar as ações dos pais. “Quanto mais prazerosa a leitura se torna para os adultos, mais interesse as crianças terão. Lembrando que somos exemplo”, diz Beca Prado.

Beca é escritora e ilustradora de três livros infanto-juvenis: “O dia em que nasci”, “Como eu cresci” e, seu mais recente lançamento, “Risco”.

Literatura infantil como ponte para o imaginário

A literatura infantil tem um papel essencial na iniciação literária, pois conecta a criança ao universo das palavras de maneira natural e prazerosa. O autor Danilo enfatiza: “Escrevo como se estivesse contando história em uma fogueira, com suspense, voz alta e pausas dramáticas. Roubo técnicas de teatro: leitor vira personagem, vira cúmplice”.

Rebouças é autor de quatro livros infanto-juvenis: “Beatniks 23”, “No Cheiro do Tempo”, “Mentes Poéticas” e, seu mais recente lançamento, “Telinha e Livrinho” onde conta de maneira leve e lúdica uma disputa atual entre as telas e os livros.

A literatura infantil tem um papel essencial na iniciação literária, pois conecta a criança ao universo das palavras.

Autores têm buscado narrativas mais próximas da realidade das crianças contemporâneas, abordando temas como diversidade, sustentabilidade e emoções. Rebouças acredita em transformar livros em brincadeiras para “competir” com as telas. “Livro tem que concorrer com jogos? Então que seja tão divertido quanto!”.

Para transformar essa ponte com o imaginário ainda mais forte, os autores recomendam que pais e educadores incentivem a dramatização das histórias, promovam rodas de leitura e incentivem as crianças a criar suas próprias narrativas, desenhando personagens ou escrevendo pequenos contos inspirados em livros que leem.

A autora Beca Prado lançou, recentemente, seu terceiro livro: “Risco”, aonde possui desenhos feitos por sua filha Lara Prado. A obra traz traços do dia a dia, que podem ser considerado como “riscos” ou não.