Falta de adaptação nas escolas públicas afeta desenvolvimento de alunos com TEA
A inclusão de alunos autistas na rede pública de ensino enfrenta dificuldades estruturais e pedagógicas que impactam diretamente o aprendizado.
Postado em 02/04/2025
A inclusão de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas escolas públicas ainda enfrenta sérios desafios, que afetam tanto o desempenho acadêmico quanto o bem-estar psicológico desses alunos. Falta de recursos, de formação adequada para os professores e de adaptação do ambiente escolar são obstáculos que comprometem o desenvolvimento de habilidades importantes, como a socialização e a aprendizagem. Para essas crianças, a escola deveria ser um espaço de crescimento, mas, em muitas situações, acaba se tornando um local de frustração, isolamento e retrocesso no aprendizado.
Conforme a psicóloga Isabella Abrantes, especialista em atendimento infanto-juvenil atípico e atualmente com 37 pacientes com TEA, aponta que um dos principais sinais de que uma criança com TEA não está se desenvolvendo corretamente é o retrocesso nas habilidades adquiridas. Ela destaca que, quando uma criança perde competências como leitura, escrita ou socialização, isso pode indicar que a escola não está oferecendo o ambiente adequado para seu desenvolvimento. “É fundamental que as escolas criem um espaço acolhedor e observem atentamente as necessidades dessa criança, para que ela se sinta segura para aprender e se socializar”, afirma Isabella.
A professora Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), Joanna de Paoli, também observa que a falta de condições materiais e de apoio especializado é um dos principais obstáculos para a inclusão efetiva dessas crianças. Ela critica que, muitas vezes, as escolas públicas não possuem profissionais capacitados ou materiais adaptados, resultando em uma experiência escolar fragmentada e incompleta para os alunos com TEA. “Faltam condições materiais, ainda mais se for uma escola localizada em um bairro periférico ou que não tenha tanto uma ajuda financeira do governo e, principalmente, um apoio especializado. Não podemos falar de inclusão sem ter recursos adequados. A inclusão precisa ser efetiva e não somente um discurso”, comenta Joanna.

A sobrecarga nas escolas e seus efeitos no desenvolvimento infantil
Em 2023, 636.202 alunos com Transtorno do Espectro autista (TEA) estavam matriculados na rede públicas e privadas no Brasil, conforme o Censo Escolar — INEP — Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas. Todavia, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) não dispõe de dados atualizados acerca da quantidade de pessoas diagnosticadas com o TEA na capital, mas sabe-se que, em 2024, somente na rede pública de ensino do DF, cerca de 10.605 alunos matriculados são laudados com autismo.
Em muitas escolas, o número excessivo de alunos por sala e a falta de apoio especializado agravam ainda mais a situação. O professor, sobrecarregado com a alta demanda de alunos, muitas vezes não consegue oferecer a atenção necessária para cada um, principalmente para as crianças com necessidades especiais. “Com salas superlotadas, é impossível dar o suporte adequado para alunos com TEA. A sobrecarga de trabalho compromete a qualidade do ensino e o acompanhamento individualizado necessário”, afirma a professora.
Já Letícia Silva, mãe do Henrique, um aluno autista de seis anos matriculado na rede pública de ensino, compartilha que o que precisa ser melhorado é a capacitação dos professores. “Eu não conheço a educadora do meu filho. A escola nunca entrou em contato comigo perguntando quais eram as necessidades dele”. Letícia afirma também que sente a diferença do ensino público para o particular “Quando ele estava na escola particular, havia um pouco mais de interação, a coordenadora conversava comigo pelo menos duas vezes por mês e agora na escola pública não sinto que temos essa troca”.
Além dos desafios pedagógicos, a falta de adaptação pode impactar significativamente o psicológico da criança com TEA. A dificuldade em se relacionar com os colegas, a sensação de inadequação e a frustração com o aprendizado podem resultar em problemas emocionais, como ansiedade e baixa autoestima. Isabella ressalta que é essencial que as escolas ofereçam um acompanhamento psicológico contínuo para essas crianças, de modo que elas se sintam acolhidas e compreendidas em seu processo de aprendizagem. “Quando a criança sente que está sendo vista e respeitada em suas necessidades, a confiança no processo de aprendizado aumenta. Entretanto, se esse aluno não se sentir pertencente ao ensino, isso pode acabar prejudicando seu desempenho não só intelectual, mas também o social”, conclui.
