Vinicius Júnior é voz ativa contra o racismo no futebol

O atacante brasileiro do Real Madrid tem se destacado como um dos maiores denunciantes de casos de racismo no futebol, tornando-se uma referência para jovens jogadores negros, incentivando-os a não tolerar discriminação dentro de campo.

Carol Silva dos Santos

Postado em 02/04/2025

Vinicius Júnior exaltando os torcedores no estádio do Mané Garrincha / Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Vinícius Júnior de 24 anos, jogador do Real Madrid e da seleção brasileira, tem se destacado como uma importante voz na luta contra o racismo, tanto dentro quanto fora dos campos de futebol. De acordo com a TNT Sports, ele já foi alvo de mais de vinte ataques racistas, especialmente na Espanha, mas apenas duas dessas denúncias resultaram em condenações penais. No país europeu, o racismo é classificado como “crime de ódio”, e o Código Penal espanhol prevê penas de até quatro anos de prisão, além de multas, para aqueles que incitam ou promovem publicamente o ódio baseado na raça de um indivíduo ou grupo.

Recentemente, o Ministério Público espanhol arquivou o processo de Vinícius Júnior contra torcedores do Barcelona, acusados de racismo durante o clássico de outubro de 2023 no estádio Olímpico de Montjuic. Esse arquivamento evidencia a falha das punições eficazes contra o racismo no futebol. Contudo, Vinícius Júnior tem aproveitado sua visibilidade para amplificar a voz daqueles que não têm oportunidade de denunciar tais abusos, desafiando a impunidade que ainda persiste nesse contexto.

No Brasil, a influência do jogador também tem gerado mudanças importantes no combate ao racismo. Com seu apoio, foi sancionada a Lei Vini Júnior, no Paraná, que obriga a divulgação de alertas sobre injúria racial em eventos públicos com mais de 5.000 pessoas, abrangendo atividades esportivas, religiosas, artísticas e culturais. Além disso, o Brasil já conta com uma das legislações mais rigorosas do mundo contra o racismo, sancionada desde 1989, que prevê penas de dois a cinco anos de reclusão, além de multa, sem possibilidade de pagamento de fiança, considerando o crime imprescritível. Essas medidas evidenciam o impacto das manifestações de jogadores negros para a conscientização sobre o racismo e impulsionam ações de instituições federais e estaduais, tanto no Brasil quanto em outros países.

Cledisson Geraldo dos Santos Junior, Secretário Nacional de Gestão do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, reforça a contribuição do jogador para o combate ao racismo no futebol, destacando o trabalho conjunto entre o ministério e as federações. “Existe um diálogo constante e ativo com clubes, federações estaduais e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com o objetivo de implementar medidas mais rigorosas contra atos racistas. Vinícius Júnior é um dos maiores representantes do futebol mundial”, afirmou.

A influência do combate ao racismo de Vini Jr na nova geração de jogadores

Vinícius Júnior tem sido uma referência, especialmente para jovens jogadores, ao abrir caminho para as futuras gerações. Renan Silva Ferreira, jogador negro do Atlético Goianiense, de 21 anos, expressa o impacto que o exemplo de Vini Júnior tem sobre ele e outros atletas: “O Vinícius Júnior é um jogador conhecido mundialmente e acredito que a luta dele não é em vão. Me sinto feliz por vê-lo lutando contra o racismo, o que me inspira a acreditar que a cor da pele não deve definir o valor de ninguém, seja no futebol ou na sociedade.”

Matheus Cunha em coletiva de imprensa da seleção brasileira / Foto: Rafael Ribeiro/CBF

O atacante Matheus Cunha, companheiro de seleção de Vinícius Júnior e jogador do Wolverhampton, também fala sobre a luta contra o racismo dentro de campo: “É um tema difícil, que depende de nós. Vamos fazer o possível para, como eu disse, demonstrar compaixão, mas o mais importante é que entendamos o que estamos disputando, e que possamos levar alegria aos fãs, deixando as questões fora de campo para trás.”

Dados da CNN Brasil apontam que os casos de racismo no futebol têm se tornado mais frequentes, especialmente no Brasil. Entre 250 episódios discriminatórios, 222 ocorreram no futebol, sendo 136 deles em 2024. Isso reflete as falhas e a falta de ações concretas por parte das federações, que ainda não têm implementado medidas suficientes para reduzir esses incidentes. Renan, que nunca passou por uma situação de racismo, relembra um caso de 2022 em que um colega de equipe foi vítima de ataques racistas. “O clube deu total apoio a ele, ajudando-o a registrar o ocorrido e a lidar com a situação emocionalmente”, afirma Renan.

Desafios ainda enfrentados no combate ao racismo no futebol da atualidade 

O Brasil ainda enfrenta desafios significativos no combate ao racismo, mas a CBF, em parceria com a Conmebol Libertadores, assinou uma carta que estabelece punições severas para os clubes cujos torcedores cometem atos racistas. Contudo, apesar das respostas formais, muitas vezes as expectativas não são atendidas, como demonstrado em casos recentes de racismo que não resultaram em punições efetivas. Isso revela que, frequentemente, as medidas reativas são adotadas apenas após manifestações de jogadores negros, como Vinícius Júnior, ou quando se tornam vítimas de ataques racistas, em vez de ações preventivas que garantam um ambiente seguro para todos.

Além disso, algumas posturas de representantes das federações não têm sido condizentes com o combate ao racismo no futebol. Um exemplo claro disso foi a declaração do presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, que fez um comentário racista em uma entrevista, dizendo: “Seria como Tarzan sem a Chita, impossível”, ao ser questionado sobre como ficariam as duas principais competições da sua federação sem os times brasileiros.

Jogador Vinicius Júnior em jogo pela seleção brasileira / Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Em resposta a essa declaração, Matheus Cunha manifestou sua insatisfação com as falas do presidente da Conmebol e com os atos racistas ocorridos em suas competições e afirmou: “Apesar da infelicidade nas palavras do presidente da Conmebol, acredito que é necessário que as ações sejam muito mais claras para que as pessoas que sofrem com esses atos se sintam abraçadas e compreendidas por aqueles que podem ajudar.”

Após a repercussão negativa de suas palavras, Alejandro Domínguez se retratou nas redes sociais, afirmando que sua intenção nunca foi discriminar ninguém. Em seu pedido de desculpas, ele diz: “A expressão que utilizei é uma frase popular e jamais tive a intenção de menosprezar nem desqualificar ninguém. Em relação às minhas recentes declarações, quero expressar minhas desculpas. A Conmebol Libertadores é impensável sem a participação de clubes dos dez países membros. Sempre promovi o respeito e a inclusão no futebol e na sociedade, valores fundamentais para a Conmebol. Reafirmo meu compromisso de seguir trabalhando por um futebol mais justo, unido e livre de discriminação.”

Em contrapartida, Cledisson Geraldo, do Ministério da Igualdade Racial, destacou as ações do governo no combate ao racismo no futebol: “O Ministério tem promovido ações educativas e preventivas, como campanhas de conscientização em estádios e mídias sociais, além de apoiar programas de capacitação em direitos humanos e diversidade racial, realizados em parceria com clubes e entidades do futebol, com o objetivo de fomentar uma cultura de respeito e inclusão.”

Portanto, apesar dos avanços importantes já alcançados, ainda há um longo caminho a percorrer para erradicar o racismo no futebol. A presença de Vinícius Júnior, tanto dentro quanto fora de campo, é essencial para dar voz àqueles que ainda não têm espaço para lutar por seus direitos. Renan Silva Ferreira reforça a necessidade de mais ações: “Temos avançado, mas ainda há muito a ser feito. A pessoa que comete racismo precisa ser punida de forma mais severa, para que isso não aconteça mais.”