Vício em celular sobrecarrega o cérebro e afeta saúde

No Rio de Janeiro já existe uma clínica especializada em lidar com casos extremos de dependência digital

Rafaela Bomfim Rodrigues

Postado em 01/04/2025

No Brasil, a presença de smartphones é cada vez maior, com uma média de 1,2 aparelhos por habitante, totalizando 258 milhões de dispositivos ativos. Os brasileiros gastam, em média, 9h30 por dia conectados à internet, colocando o país entre os líderes globais no tempo de uso diário de dispositivos móveis.

Estudos têm mostrado que o uso excessivo de smartphones está fortemente correlacionado ao aumento de sintomas como depressão, ansiedade e a diminuição das habilidades cognitivas, como a atenção. A constante exposição a estímulos digitais, muitas vezes imediatos e ininterruptos, sobrecarrega o cérebro e pode gerar impactos negativos na saúde emocional.

Brenda Cabral, 24 anos, tem transtorno de ansiedade generalizada e percebeu que o uso excessivo do celular, especialmente Instagram e TikTok, aumentava sua ansiedade e a impedia de realizar suas tarefas. “Percebi que passava horas no celular e, no fim do dia, me sentia mais ansiosa e sem ter feito nada do que precisava”.

Uma pesquisa recente destacou que um simples gesto, como bloquear o acesso à internet móvel por duas semanas, pode trazer melhorias significativas na saúde mental, aumentando a atenção e promovendo um sentimento geral de bem-estar.

Foi o que Brenda fez. “Decidi apagar os aplicativos por alguns dias e foi transformador. Me senti mais leve, presente e com mais tempo para mim. Hoje, voltei ao Instagram por causa do trabalho, mas com limites diários. Quando não uso redes sociais, me sinto mais viva e menos ansiosa.”

Pesquisas científicas também identificaram alterações estruturais no cérebro de pessoas com dependência digital. A amígdala cerebral, responsável pela resposta emocional, e a conectividade com o córtex pré-frontal, que está relacionado ao controle e à tomada de decisões, podem ser afetadas. Isso sugere que o uso descontrolado da tecnologia pode gerar um impacto físico no cérebro, refletindo diretamente na vida cotidiana e nas emoções dos indivíduos.

Para Brenda, o exercício físico auxilia bastante neste processo de controle das emoções. “Ajuda a equilibrar a dopamina gerada pelo consumo rápido de redes sociais. Estou construindo uma rotina mais consistente de exercícios, pois é uma forma de obter prazer de maneira menos imediata. O celular nos acostuma com a facilidade, mas o exercício me desafia e me motiva a enfrentar tarefas mais difíceis.”

 Tratamento para dependentes

A Clínica Detox Deleite, localizada no Rio de Janeiro, surge como uma solução para quem deseja recuperar o equilíbrio entre a vida digital e o bem-estar. Especializada em tratamentos para dependência digital e estresse provocado pelo uso excessivo de tecnologia, a Deleite oferece um ambiente terapêutico que combina técnicas de desintoxicação digital com acompanhamento psicológico e atividades que promovem o autoconhecimento.

Anna Lucia Spear King, doutora em saúde mental que trabalha na clínica, alerta sobre o uso excessivo da tecnologia. “Pode impactar profundamente a saúde mental, aumentando sintomas de ansiedade e dificultando a concentração. Aqui, trabalhamos para que os pacientes retomem o controle sobre o tempo digital e redescubram o prazer em atividades fora das telas.”

Funcionando como um centro de reabilitação, a clínica oferece programas personalizados que incluem desde o bloqueio de acessos digitais até terapias cognitivas e comportamentais, que ajudam os pacientes a aprender a gerenciar o uso de seus dispositivos e a melhorar a qualidade de vida. O foco é reduzir os sintomas relacionados à dependência digital e promover a reconexão com atividades offline, garantindo a saúde mental e emocional dos pacientes.

“Nosso objetivo é proporcionar um equilíbrio saudável entre o mundo online e offline, ajudando cada pessoa a criar hábitos mais conscientes e sustentáveis para sua rotina, sem a necessidade de uma desconexão extrema”, ressalta Anna Lucia Spear King.

Interação apenas no celular. Créditos: Freepik.