“Não entrei para a política por ser de família política, mas pela luta pessoal”, diz Erika Hilton

Em entrevista, a deputada federal enfatiza o papel da legislação na inclusão de grupos marginalizados no mercado de trabalho e a necessidade de políticas de permanência eficazes

Lara Vieira de Oliveira Lima

Postado em 19/03/2025

Discussão e votação de propostas legislativas na Câmara dos Deputados, dep. Erika Hilton (PSOL-SP). Imagem: Bruno Spada/Câmara dos Deputados.

Desigualdade de gênero e raça no ambiente profissional

A inserção de pessoas negras e trans no mercado de trabalho enfrenta desafios persistentes, embora se observem avanços nesse processo. Segundo pesquisa realizada pela Agência Brasil, 52,7% dos entrevistados afirmaram ser o único trabalhador transexual em suas empresas, enquanto 25,9% revelaram que há entre duas e dez pessoas trans entre os funcionários.

A deputada federal Erika Hilton (PSOL) compartilhou sua própria trajetória, destacando as dificuldades que enfrentou para se inserir no mercado de trabalho, tanto por ser trans quanto por ser mulher negra. Em entrevista, ela relatou como, diante das barreiras impostas pela sociedade, muitas vezes foi forçada a recorrer à prostituição para sobreviver. Para ela, essas experiências traumáticas foram resultado da marginalização e do abandono social. “Por conta das suas condições humanas, somos empurradas para as margens da sociedade. Somos empurradas para a criminalidade, para a prostituição, para o subemprego”, afirmou a parlamentar.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no segundo trimestre de 2024, o Brasil registrava 7,5 milhões de desempregados, com uma taxa média de desemprego de 6,9%. Entretanto, essa taxa se mostra ainda mais alta para alguns grupos. Para os homens não negros, o índice era de 4,6%, enquanto para as mulheres negras, a taxa saltava para 10,1%, o que representa o dobro.

Hilton, que também é líder do PSOL na Câmara dos Deputados, enfatizou a disparidade no acesso ao mercado de trabalho: “A corrida de 100 metros não é a mesma para todos. Para algumas pessoas, especialmente mulheres, negros e pessoas LGBTQIA+, os obstáculos são inúmeros”, afirmou. Para ela, é preciso compreender a desigualdade estrutural enfrentada por essas populações e as barreiras que surgem ao longo da jornada profissional.

Erika Hilton durante entrevista. Imagem: Matheus Alves.

O papel do Legislativo na inclusão social

Questionada sobre o papel da legislação no enfrentamento do preconceito e da discriminação nos ambientes de trabalho, Erika Hilton destacou a importância das políticas públicas para reduzir as dificuldades enfrentadas por esses grupos. “O papel legislativo é cumprir a missão de diminuir os obstáculos, as pedras no caminho dessa juventude. São inúmeras as dificuldades: o preconceito, a discriminação, e a maneira como a sociedade nos enxerga e, por isso, nos descarta. Devemos pensar em políticas de redistribuição de renda e de inserção desses grupos na universidade, garantindo a permanência deles na escola, no ensino médio e fundamental. Muitas vezes, esses jovens abandonam a escola por violência, ou porque precisam cuidar dos irmãos mais novos. É um desafio constante”, explicou a deputada.

Ao refletir sobre sua própria trajetória e como suas vivências impactaram seu trabalho como deputada, Erika ressaltou que sua atuação vai além das dificuldades de acesso ao mercado de trabalho formal. Para ela, trata-se de um movimento em busca da dignidade humana: “Não é apenas a minha tentativa de inserção no mercado de trabalho, mas a desumanização com a qual somos tratados. A exclusão, o ódio e o desprezo com que alguns setores lidam com a nossa existência, nosso corpo e nossa chegada no ambiente de trabalho”, afirmou, destacando a necessidade de uma mudança estrutural na sociedade.

Erika também destacou que sua entrada na política não foi motivada por uma tradição familiar, mas sim por uma convicção pessoal: “Eu não entrei para a política porque a minha família é política, mas porque entendi que precisava ocupar esse espaço para transformar a realidade das pessoas como eu, que enfrentam as mesmas dificuldades que eu enfrentei”.

A luta pela inclusão de pessoas negras e trans no mercado de trabalho continua sendo uma das bandeiras da parlamentar, que defende a necessidade de políticas públicas mais efetivas e uma mudança cultural em relação à diversidade e à igualdade no Brasil.

O que falta nas políticas corporativas?

A entrevistada critica a falta de um compromisso genuíno das empresas com a diversidade e inclusão, apontando que muitas ações afirmativas não têm o objetivo de promover uma mudança real, mas sim de conquistar status, como selos e certificações. Ela acredita que, frequentemente, as empresas contratam pessoas negras e trans apenas para obter esse reconhecimento externo, sem uma transformação profunda nas suas práticas internas.

Além disso, ela menciona a política “trumpista” como um fator que tem intensificado o desprezo por questões de diversidade nas empresas, levando muitas a reduzir ou abandonar essas iniciativas. A entrevistada ressalta que a preocupação das empresas está mais voltada para benefícios externos, como incentivos fiscais, do que para uma política verdadeira de inclusão.

Porém, ela defende que seria possível alinhar os interesses financeiros das empresas com um compromisso genuíno com a diversidade. Ela sugere que, ao incorporar a diversidade em seus quadros de funcionários, as empresas poderiam não apenas refletir a realidade social, mas também alcançar um público consumidor engajado e crescente. A entrevistada conclui destacando a importância de as empresas abordarem a diversidade com mais responsabilidade, indo além de interesses mercadológicos.

Sistemas de cotas raciais

Sobre as políticas públicas afirmativas, como as cotas raciais e ações voltadas para a inclusão de pessoas negras e trans, a entrevistada destaca a importância dessas iniciativas não apenas para garantir o acesso desses grupos ao mercado de trabalho, mas também para assegurar que eles ocupem espaços dignos e estáveis. “A política de cotas é uma política de reparação. O Brasil tem uma dívida histórica com a população negra, com a comunidade trans e LGBT, que foram privadas e cerceadas de oportunidades ao longo do tempo”, afirma. Ela explica que as cotas são uma forma de compensar essa exclusão histórica, mas ressalta que elas precisam ser acompanhadas de políticas de permanência.

A entrevistada defende que, além de garantir a entrada de negros e pessoas trans na universidade ou no mercado de trabalho, é fundamental que existam programas de apoio que assegurem a permanência e o crescimento desses indivíduos. “Não adianta colocar um estudante negro na universidade ou uma pessoa trans no mercado de trabalho sem oferecer o suporte necessário. É preciso garantir que esses alunos se formem e que essas pessoas trans possam ter uma trajetória de carreira estável, com condições de crescer profissionalmente”, explica. Ela enfatiza que as políticas de cotas são essenciais para romper com a lógica de desigualdade, mas precisam ser complementadas por estratégias de sustentação.

A entrevistada também aponta que, muitas vezes, as políticas de cotas falham em garantir um ambiente acolhedor para os grupos incluídos. “Se uma pessoa trans é contratada por uma empresa, por exemplo, ela pode chegar e se deparar com situações em que as pessoas não sabem como tratá-la, qual pronome usar ou até mesmo qual banheiro ela deve utilizar”, comentou. Esses desafios mostram a importância de criar políticas de permanência tanto nas universidades quanto no mercado de trabalho, para que a inclusão vá além da contratação ou ingresso e resulte em um ambiente seguro e respeitoso. Para ela, as políticas de cotas são necessárias, mas só serão eficazes se acompanhadas de ações que garantam a continuidade e o bem-estar dos indivíduos que entram no sistema.