Live-actions reacendem debate sobre nostalgia e originalidade no cinema

Remakes de clássicos animados ganham força nas telonas e plataformas de streaming, dividindo opiniões de fãs, especialistas e críticos.

Eduarda Carvalho

Postado em 08/07/2025

Nos últimos anos, a indústria do entretenimento vive uma onda de adaptações em live-action de obras consagradas da animação. De 2019 a 2025, a Disney lançou mais de dez remakes em live-action de seus clássicos animados, como “O Rei Leão”, “A Pequena Sereia”, “Pinóquio”, “Peter Pan & Wendy” e “Branca de Neve”. Somente “O Rei Leão” (2019) arrecadou mais de US$1,6 bilhão nas bilheterias globais, enquanto “A Pequena Sereia” (2023) ultrapassou os US$560 milhões.

Ao lado da gigante do Mickey, plataformas de streaming como Netflix e Amazon também embarcaram na tendência, com títulos como “Avatar: A Lenda de Aang” (2024) e “One Piece” (2023). A aposta é lucrativa, mas também polêmica, ao mesmo tempo que parte do público se encanta com a nostalgia, outros acusam os estúdios de falta de criatividade e uso excessivo de recursos técnicos como o CGI.

Por trás do sucesso financeiro, no entanto, crescem questionamentos sobre os limites da nostalgia, a falta de originalidade e os reais interesses envolvidos na produção desses remakes.

Mesmo com o sucesso de bilheteria, parte do público questiona: será que os remakes ainda empolgam, ou só ocupam espaço de histórias novas nos cinemas? Foto: Eduarda Carvalho

“É indústria, é lucro”

Para o mestre em cinema Paulo Moraes, coordenador do curso de Cinema e Mídias Digitais do Centro Universitário IESB, os live-actions são uma estratégia comercial previsível. “É uma forma de revender um produto que já deu certo. O mercado está saturado de franquias, mas ainda assim continua faturando. A indústria precisa de lucro, e os remakes garantem bilheteria e ainda rendem com produtos derivados”, explica.

Além da tela, o lucro se expande para vestuário, brinquedos, música e plataformas de streaming, consolidando o que o especialista chama de “segunda janela de faturamento”.

Nostalgia e representatividade dividem opiniões

A aposta certeira da nostalgia não passa despercebida. A maioria dos entrevistados para esta reportagem cita o “apego emocional” como principal motivo para assistir aos remakes. “Gosto dos clássicos e espero que os remakes tragam a mesma energia do original. Acho que cada versão emociona de um jeito diferente”, afirma a estudante Clara Rita Holanda, de 19 anos.

“O último live-action que assisti foi Lilo e Stitch. Achei muito bom! Não eram exatamente iguais, mas os acréscimos que tinham eram bons”, reflete Clara. Foto: Eduarda Carvalho

Já Laura Roberta Costa, também estudante, discorda que a nostalgia seja motivo suficiente para manter esse tipo de produção no centro da indústria. Para ela, falta inovação e sobra conveniência nos remakes live-action. “As pessoas continuam investindo nisso e dando palco para essa indústria unicamente pela nostalgia que os filmes têm, mas a maior parte dessas produções são preguiçosas e sem alma, cópias mal feitas do original, que não tem um terço da magia que as animações têm.”

A tensão entre fidelidade à obra original e liberdade criativa é constante, e nem sempre há consenso. Wiverson Silva, criador da página Bunkernove, explica que a recepção do público depende do equilíbrio entre inovação e respeito à essência. “O live-action precisa ser mais que uma cópia bonita. O sucesso está em adaptar bem, sem trair o que fez a obra original ser querida”, afirma. Ele cita como exemplo o filme Detetive Pikachu, que apresentou um novo enredo sem romper com o universo conhecido.

A diversidade de elenco tem sido outro ponto de embate. Para Wiverson, a representatividade só deve ser alterada se não comprometer a essência da história. “Não dá pra fazer um Super Choque (personagem animado negro) branco. A etnia do personagem é parte central da narrativa”, argumenta. Ele ressalta que mudanças visuais ou no elenco podem ser positivas, desde que respeitem o espírito da obra original.

“A Ariel ser negra não muda nada, porque isso não interfere na história. O problema é quando se perde a chance de agregar valor com as mudanças”, complementa Laura.

Criatividade em xeque

Paulo reconhece que há um problema de escassez de conteúdo novo. “É difícil emplacar franquias inéditas o tempo todo. Então eles inventam formas de continuar vendendo o mesmo produto”, avalia.

Entre o público jovem, há uma cobrança cada vez maior por qualidade. “O pessoal está muito mais exigente. Criticam até o que é fiel demais, como Como Treinar o Seu Dragão”, observa Wiverson. Segundo ele, o desafio das adaptações consiste em equilibrar fidelidade e inovação, e fugir do simples “Ctrl+C, Ctrl+V”. 

Enquanto a indústria segue apostando nos remakes como estratégia segura de retorno financeiro, o público se divide entre o conforto da nostalgia e o desejo por narrativas novas e autênticas. No fim das contas, os live-actions não apenas atualizam visuais, mas também espelham as tensões entre memória afetiva, exigência estética e os limites do lucro no entretenimento contemporâneo.

Live-actions como o de “Como Treinar o Seu Dragão” mostram o desafio de adaptar criaturas icônicas sem perder a essência emocional da animação. Foto: Eduarda Carvalho