Literatura com temática LBTQIA+ conquista gosto popular e espaço em livrarias brasileiras

Mercado de editoras de livros tem dado espaço para obras com a temática LGBTQIA+ e desperta interesse dos consumidores.

Noreen Jaral

Postado em 27/09/2021

Ao longo dos anos e com o desenvolvimento da sociedade, novas pautas sociais foram surgindo e ganhando voz no mundo. Temas como feminismo, igualdade racial e de gênero têm estado em ascensão, assim como a da comunidade LGBTQIA+. Com a luta por seus direitos e o respeito merecido, o grupo utiliza sua voz para conseguir abrir espaço em diversos aspectos, como no mercado literário. Nos últimos anos, a produção e venda de livros e mangás com temática LGBTQIA+ cresceu e conquistou o gosto popular. 

A literatura é usada para diferentes fins, como meio de conhecimento, de escape ou de lazer, além de desempenhar diferentes papéis na vida das pessoas. Nas páginas dos livros todos podem encontrar aceitação e acolhimento, não sendo diferente para a comunidade LGBTQIA+. Com diversos nomes, os livros e mangás LGBTQIA+, yaoiyuriBL(boys love/tradução livre: amor entre garotos), GL (girls love/tradução livre: amor entre garotas), estão cumprindo esse papel de representatividade e ocupando espaços nas prateleiras de livrarias no Brasil. 

A estudante Letícia Terra, de 24 anos, conheceu esse gênero literário por meio de filmes e séries que abordam a temática LGBTQIA+. “O sentimento que tenho lendo BL é diferente do que eu tenho lendo um romance hétero. No BL me dá aquele sentimento de que têm essas pessoas, que assim como eu, fogem à norma, do que é aceito. Eu acho que meio que inconscientemente, só do personagem ter um final feliz, ou dele achar alguém do mesmo sexo, e aquilo ser algo aceito na história, já ajuda a uma pessoa não-hétero entender que está tudo bem ter esses sentimentos”, comenta. 

Atualmente o livro “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, de Casey McQuiston, é um dos livros LGBTQIA+ mais vendidos da livraria Leitura. Foto por: Noreen Jaral

Diferentes editoras estão abrindo espaço para títulos e autores que escrevem livros com essa temática. Obras como “Com Amor, Simon”, “Vermelho, Branco e Sangue Azul” e “Me Chame Pelo Seu Nome”, foram best-sellers traduzidos para o português que ganharam grande popularidade no Brasil. A Galera Record, selo do Grupo Editorial Record, reconhecida pelo número de obras e pelo apoio à comunidade LGBTQIA+, se envolveu em uma polêmica no final de 2020, devido a algumas traduções produzidas, em que mudaram a orientação sexual de alguns personagens de livros. Em retratação, além da revisão das traduções, o selo da editora agora possui as cores do arco-íris nos livros LGBTQIA+.

A Editora Boys Love Brasil entrou no mercado recentemente com a proposta de trazer livros e novels estrangeiras, ocidentais e asiáticas, e dar oportunidade para novos autores brasileiros. “Já tínhamos o site, desde 2016, que falava sobre BL e comunidade LGBTQIA+, e vimos uma oportunidade de mercado e de mais pessoas conhecerem obras BL através da leitura”, falou Robertyman Leury, editor-chefe e presidente do grupo Boys Love Brasil. As obras recém traduzidas da editora são Manner of Death e The Red Thread, ambas novelas tailandesas que foram adaptadas para séries de televisão. Como produção nacional, lançaram o livro “Laços de Sangue”, do autor David Franklyn.

A ascensão da literatura asiática

Atualmente, a cultura asiática tem compartilhado espaço com o Ocidente, trazendo consigo arte, músicas, séries, filmes e, claro, a literatura. Conhecidos como mangá (japonês), manhua (chinês) ou manhwa (sul coreano), a literatura de quadrinhos oriental trouxe um novo jeito de retratar histórias e um novo tipo de leitura. 

A filial da livraria Leitura, em Taguatinga (-DF), criou uma seção de mangás, e dentro dela, uma parte de yaoi, que são histórias em quadrinho com temática “garotos amam garotos”. Sobre os mangá yaoi, Leonardo Bezerra, coordenador do setor de mangás da Leitura, explica: “Apesar da procura ser silenciosa, por conta dos pais e da discriminação, com muito cuidado eu tive a ideia de montar um espaço yaoi e selecionar alguns títulos que eram disponibilizados pela NewPop. Esse espaço é bem pequeno, só uma estante, mas com a movimentação, com a procura, a gente está aumentando”. Atualmente, a loja disponibiliza os yaoi Blood HoneyLittle Night, os volumes 1, 2 e 3 do mangá Given, além de mangás yuri (garota ama garota) dentre outros títulos, com lançamento de nove títulos yaoi inéditos. 

Alguns dos temas de mangás que a livraria Leitura possui são yaoi, yuri e shoujo. Foto por: Noreen Jaral

Segundo Leonardo, no começo, alguns clientes discriminavam a seção de yaoi, mas, hoje, percebe uma postura diferente e acredita que possa ser o início da aceitação da temática. “Aqui na livraria a gente não faz divisão de gênero, não tem livros de mulher e de homem. Não fazemos nenhum tipo de discriminação, e acho que é por isso que o nosso público de mangá tem crescido muito, eles se sentem confortáveis e seguros aqui pra dizer ‘eu gosto e pronto’. E o certo é a gente abraçar”, destaca. 

Robertyman, fundou sua editora a partir de seu site de notícias de BL asiáticos. Segundo ele, introduzir como é a cultura asiática é um dos pontos mais importantes: “A gente vê que as pessoas deduzem muito, com concepções erradas de como são os países asiáticos. Então a gente trazendo esses livros, traz também uma leitura muito rica de conhecimento cultural asiático”. Além disso, ele acredita que essa literatura pode agregar à comunidade brasileira LGBTQIA+, por abordar diferentes modos de lutas do grupo.

Andreza Coelho, de 27 anos, é leitora de BL asiáticos, e lê livros, mangás, webtoons e os novels. Para ela, a sensibilidade de mostrar a realidade da comunidade deveria ter mais espaço, ser mais divulgada, para ajudar a mudar a ideia de uma comunidade fraca e sofrida e mostrar a beleza e força que eles têm. “Pessoalmente, acho as histórias LGBTQIA+ com mais conteúdo, mais sinceras e com um amor mais puro. Depois que comecei a ler, passei a ver as coisas com mais delicadeza, me parece que as produções héteros passam uma realidade fantasiosa que ninguém nunca vai viver”, pontua. 

Desse modo, essas produções possuem importância não só para ocupar espaços de diversidade e fugir dos padrões, mas também para representar esse grupo. “Acho que me interessei não só por causa das histórias em si, mas como forma de entender como eu me sentia em relação a minha própria sexualidade. Eu me sinto representada no sentido de ter histórias de personagens que não são héteros”, conclui Letícia.