Museu da Memória de Luziânia resgata dois séculos de história da cidade

O Museu da Ong, como é carinhosamente conhecido, guarda fotos e objetos antigos de Luziânia, colecionados pelo professor José Álfio, criador do espaço.

Aline Gouveia

Postado em 13/04/2022

Clélia Marta e José Álfio. O museu da Ong conta com mais de 120 fotografias históricas. Crédito: Aline Gouveia

Luziânia é uma cidade do entorno do Distrito Federal, 60 km distante de Brasília. O município foi fundado há 275 anos, no período colonial. Para preservar a história da cidade, o professor José Álfio criou o Museu da Memória de Luziânia, também conhecido como Museu da Ong. O professor, que também é artista plástico, idealizou a Ong Proteger Luziânia, existente há mais de 10 anos, e foi a partir dela que surgiu o museu, que hoje é registrado e reconhecido no Instituto Brasileiro de Museus. O espaço pertence à família do professor e não possui incentivo da prefeitura. As atividades são financiadas por doações de amigos ou de pessoas que o frequentam.

No final de março deste ano, foi divulgado o Novo Mapa do Turismo do estado de Goiás. 19 municípios passaram a fazer parte da lista, incluindo Luziânia, que integra a Região Turística do Ouro e Cristais. De acordo com o Ministério do Turismo, os critérios para compor o mapa são: “comprovação da existência do órgão ou entidade responsável pelo setor; destinar dotação para o turismo na lei orçamentária anual; possuir Conselho Municipal de Turismo ativo e comprovar a existência de uma Instância de Governança Regional”.

No entanto, Álfio avalia que as atividades turísticas da cidade estão mais voltadas ao lazer, com empreendimentos de parques aquáticos e pesque e pague, por exemplo. “O turismo histórico tem pouca iniciativa, ele precisa ganhar força”, diz. Um levantamento de 1978, realizado pelo Ministério Público de Goiás, apontou a existência de 106 construções de importância histórica no município, mas esse número caiu com o passar dos anos, chegando a 28 casarões, que passaram pelo processo de tombamento provisório. “Houve muita demolição e descaracterização, a cidade perdeu muito patrimônio arquitetônico”, lamenta o professor.

José Álfio coleciona fotos e objetos antigos da cidade há mais de 20 anos e doou esse acervo para o museu. “Depois da construção de Brasília, na década de 70, houve muita busca dessas peças da cidade para decoração do Lago Sul ou para antiquários, então essas peças iam desaparecendo”, conta. O museu da Ong recebe muitas crianças e adolescentes, pois próximo a ele existe um colégio estadual e Clélia Marta, uma das voluntárias, é responsável por receber os alunos. “Eles são apaixonados por esse lugar, chegam e perguntam ‘tia, o que é isso?’, vou trazer meus pais aqui”, relata.

Planos futuros para o Museu

O professor José Álfio entrou com um pedido à Prefeitura para que o museu ganhe um espaço maior e mais bem localizado na cidade. Com o novo espaço, ele e os voluntários pretendem ampliar as oficinas de instrumentos e dança e aulas de reforço para as crianças de baixa renda. Outro plano, de acordo com Álfio, é trazer o meteorito encontrado em Luziânia – que na época era chamada de Santa Luzia – no ano de 1919. A rocha pesa quase 2 toneladas e está exposta no Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Seria uma grande atração para o Museu da Ong, além das nossas peças de arte sacra que são valiosíssimas”, pontua o professor

O acervo do museu é resultado de anos de buscas do professor Álfio. Crédito: Aline Gouveia

Uma cidade bicentenária

Fundada em 1746, Luziânia antes era chamada de Santa Luzia. O bandeirante paulista Antônio Bueno de Azevedo partiu de Paracatu rumo ao noroeste e depois ao oeste, fixando residência no território que hoje é conhecido como Luziânia em 13 de dezembro de 1746. Os bandeirantes eram exploradores do período colonial, responsáveis pela busca de riquezas minerais, além de capturar escravizados que fugiam, destruir quilombos, aprisionar indígenas e mapear territórios.

O povoamento do então território de Santa Luzia foi motivado pela mineração de ouro. A descoberta do metal precioso chamou a atenção das pessoas, e em menos de 1 ano o arraial contava com mais de 10.000 habitantes. A primeira grande edificação da cidade foi a Igreja Matriz, erguida entre 1765 a 1767. No entanto, apenas pessoas brancas podiam frequentá-la. Tempos depois, após temor de insurreição dos negros segregados, a Igreja do Rosário foi construída, a partir de mais de 400 negros, entre escravizados e livres.

A história de Luziânia é retratada em um mural na Praça das Três Bicas, principal praça da cidade. A obra foi feita pelo artista Dirso José de Oliveira, mais conhecido como D.J Oliveira. Álfio foi aluno do D.J, com quem conviveu muitos anos. “São dois painéis, do lado esquerdo é figurativo, que conta a sequência linear da história. Do lado direito é geométrico e significa a nova paisagem, remete às obras de Oscar Niemeyer, do Le Corbusier”, explica. “O interessante é que no painel tem um espaço em que as pessoas transitam, e parece o vácuo do tempo. Do tempo antigo para o moderno. E o moderno destrói o antigo para fazer uma coisa nova, que é a nova cidade”, complementa.

Mural do artista D.J Oliveira. Crédito: José Álfio