Literatura infantojuvenil é porta de entrada para a leitura

Pesquisa mais recente revela que o brasileiro está lendo menos. Por outro lado, hábito consolidado na infância ou adolescência se mantém por toda a vida

Artur Felipe Lesnau

Postado em 06/04/2022

Bruna Souza começou a se interessar pela literatura ainda criança. Quando pequena, a mãe lia para ela, mas a incentivava a seguir por conta própria. Por volta dos 7 anos, devorava gibis e, hoje, em meses bons, consegue bater a marca de quatro livros por mês. Fantasia é um dos seus gêneros literários preferidos. Emanuelli Radel, que também lê desde cedo, tem a mesma preferência. No seu caso, o gosto por livros foi influência de primos.

Anna Favorito: “Quando eu pego uma história que eu goste, leio em qualquer momento. Deixo até de dormir para ler”. Foto: Artur Lesnau

Já Anna Favorito começou depois. Conta que um dia, passando pelas Lojas Americanas, viu um livro de capa bonita: A Maldição do Tigre. Comprou o volume e, desde os 16 anos, não parou mais de ler. Fantasia também é um dos gêneros preferidos.

Segundo Pedro Gusmão, influenciador sobre literatura que acumula mais de 25 mil seguidores no TikTok, a fantasia e a literatura infantojuvenil são excelentes portas de entrada para o jovem adquirir o hábito de ler frequentemente. Livros escritos para essa faixa de público chamam a atenção pelas temáticas, abordagens e linguagem. 

Pedro ainda vai além da fantasia: ele recomenda ficção científica, em especial Isaac Asimov, para começar a pegar o gosto. “A ficção científica, na minha opinião, é a maior porta de entrada para a literatura, porque traz conceitos muito diferentes, interessantes, geralmente a linguagem é fácil, os escritores vão mais ‘direto ao ponto’ na escrita. Então, você tem o prazer de sentir ‘Tô lendo uma parada que tá me acrescentando’, só que, ao mesmo tempo, é divertido e gostosinho de ler”.

O jornalista e escritor Rodrigo Duhau concorda. Diz que não se deve dizer o que a pessoa deve ou não ler. Para o escritor, se esse jovem tem o hábito da leitura, já está de bom tamanho.

“Ler é hábito. Se começa a ler livros infantojuvenis, logo estará lendo outros autores, descobrindo outras histórias e gêneros”.

Segundo a última pesquisa “Retratos da Literatura no Brasil”, de 2020, a leitura do brasileiro decaiu. São 4,3 milhões de leitores a menos, somadas todas as classes sociais, em comparação à edição anterior, de 2015. Ao passo que o uso de internet no tempo livre e, em específico, WhatsApp e redes sociais como Facebook e Instagram, cresceu. Aumento de 47% para 66% de internautas que usam a internet nas horas vagas, alta de 43% para 62% no uso de WhatsApp e de 35% para 44% no uso de redes sociais entre 2015 e 2019, quando foram feitas as pesquisas.

Na contramão, por meio das redes sociais, Pedro e alguns outros influenciadores divulgam a literatura entre os jovens. E dá resultado. “Eu tenho visto cada vez mais gente que comenta ‘Ah, eu comecei a ler por causa de você’, ‘comecei a gostar de tal livro por sua causa’, ‘Pedro, gostei de tal livro que você falou. Tem outro, que é parecido, que você pode me indicar?’; você não tem noção de quão feliz eu fico”.

Pedro Gusmão: “Quando mais novo, eu li Harry Potter, Percy Jackson, até Diário de um Banana. São livros bons para atrair o jovem” Foto: Arquivo pessoal

Ele não descarta o fato de as redes sociais distraírem as pessoas do costume de ler, mas também aponta que a variedade e facilidade de acesso a outros tipos de entretenimento na atualidade também atrapalham esse hábito. Hoje, há a disseminação de conteúdos em streaming de séries, filmes, música e, por esse acesso prático, Pedro avalia que os livros saem em desvantagem. 

Emanuelli também pensa assim, e aponta que as adaptações de livros para filmes, no fim das contas, para ela, desmotivam o possível leitor da leitura de um livro. “Para quê a pessoa vai ler um livro se ela tem a opção de assistir a um filme ou série, que é muito mais rápido, tem muito menos exigência do que pegar o livro, sentar e ler? É muito mais cômodo”, acredita. E acrescenta que não há incentivo significativo para a leitura no Brasil.

Rodrigo concorda que o acesso é primordial para a popularização. Ele defende que apresentar obras de custo mais baixo para o consumidor, ou até mesmo de forma gratuita, pode ser útil. Argumenta ainda que a capacitação de professores para abordar literatura, em especial a clássica brasileira, deve visar o lúdico e que chame a atenção do aluno. 

“Um adolescente pode descobrir que Machado de Assis é, sim, interessante, desde que a escola saiba trabalhar de forma eficiente e até multidisciplinar. Não devemos fazer com que nossas crianças e nossos adolescentes tenham medo dos nossos principais autores e autoras. Uma forma é apresentar esses clássicos em quadrinhos, como já existem”, finaliza.