Mídias sociais são ponte entre eleitor e político

A presença nas plataformas digitais pode ajudar a cultivar o eleitorado, em especial o mais jovem

Artur Felipe Lesnau

Postado em 29/04/2022

O prazo para tirar o título de eleitor acaba no próximo dia 4 de maio e a adesão dos jovens está em um patamar historicamente baixo. Até março, 1,05 milhão de pessoas com 16 ou 17 anos haviam tirado o título, número bem abaixo do 1,51 milhão de novos títulos em 2018. 

Diante desses resultados, diversos artistas e celebridades lançaram campanhas independentes de incentivo ao jovem para tirar o título de eleitor. Essas campanhas são promovidas pelas redes sociais, meios de comunicação em que o jovem dispõe engajamento intenso, maior em comparação a outros meios como a TV, conforme diz estudo realizado pelo Youtube com o site Meio e Mensagem.

Além dessas campanhas de personalidades de fora do mundo da política, alguns políticos apostam nas mídias sociais e se fazem presentes nelas. Para o deputado distrital Leandro Grass (PV), as mídias sociais podem atrair o interesse do jovem para a política: “Elas podem criar uma maior aproximação, em especial redes sociais como o TikTok, onde há um público mais jovem. Mas depende muito da linguagem, do conteúdo e da forma que a liderança política tem para transmitir as ideias”.

Max Maciel, ativista e suplente de deputado distrital (PSOL), pontua que as plataformas digitais são extensões das relações sociais que as pessoas têm. Nelas, estão diversas pessoas e grupos, com nichos e bolhas específicas e que, seguindo determinada estratégia, é possível atingir e estar presente junto a um maior número de pessoas. Ele diz não acreditar que, para se fazer política, seja obrigatório usar as mídias sociais, mas acha que o alcance e o debate deverão inevitavelmente girar em torno delas.

Segundo o doutor em Ciência Política Carlos Oliveira, no cenário em que as mídias sociais estão presentes, elas são a principal plataforma de diálogo entre o político e o eleitor. Grass concorda. Argumenta que parcela significativa das pessoas acompanha a política, assim como outros assuntos, pelas redes sociais. Para ele, o político estar presente nessas plataformas é importante para, além de atrair público, conferir transparência à atividade que desenvolve.

Hoje, a maior parte dos políticos gerencia a presença digital com a assistência de assessores especiais. Maciel e Grass também são assim. Para suprir a demanda por conteúdo de imagens, textos e vídeos, contam que têm ajuda de equipes destinadas a esses fins. Entretanto, têm controle maior sobre algumas redes sociais, como Twitter, onde publicam coisas mais rotineiras e opiniões pessoais, ou como o Instagram, onde publicam também sobre a vida privada.

Foto: memyselfaneye/Pixabay

Desinformação

“As redes sociais foram fundamentais para o processo eleitoral em que a gente (os políticos aliados) teve que combater fake news antes mesmo de falar o que estávamos pensando. Ter que, primeiro, negar uma informação para poder passar outra. Isso é uma disputa surreal”, diz Max Maciel. Notícias falsas e desinformação são exemplos de distúrbios de informação, explica Carlos Oliveira. Ele fala que a desinformação é um conteúdo falso fabricado com o intuito de enganar visando o fortalecimento de um lado político que disputa em algum âmbito, em época de eleição, por exemplo. 

Esclarece que todo conteúdo que tenha a intenção de enganar as pessoas pode causar algum dano. E partindo do pressuposto de que, na democracia, a informação verdadeira é essencial para que o eleitor tome as decisões livremente, a desinformação é um problema importante.

Dito isso, Oliveira argumenta que as mídias sociais não são o problema, são o meio pelo qual agentes disseminam a desinformação. E essas mentiras acabam tendo efeito porque as pessoas tendem a acreditar mais em coisas que se alinham mais com a visão de mundo delas. 

Ele dá como exemplo as eleições de 2018, em que as crenças já existiam. “Os estudos que a gente tem acompanhado, sobretudo acerca de 2018, ano da eleição do presidente Bolsonaro, mostram que as variáveis que mais afetaram a decisão das pessoas para poder votar foram o antipetismo (ódio ao Partido dos Trabalhadores) e o antipartidarismo (ódio a qualquer tipo de partido)”. 

Nesse contexto, a mídia social serviu como veículo para levar a informação falsa à vítima. Houve quem não incorporou o que foi exposto, mas houve quem aderiu. A presença digital que envolvia Bolsonaro chegou ao eleitor favorável às ideias do então candidato e ele viu nela um reforço à crença que já tinha.

A professora de jornalismo do IESB Luciane Agnez estuda educação midiática e informacional. Para ela, esse elemento é fundamental no combate à desinformação, apesar de ser um investimento de longo prazo, e aponta que é um caminho essencial à democracia.

Ela explica que, ao entender o que é uma notícia, quais elementos compõem uma e como ela é feita, por exemplo, o indivíduo terá menos chances de cair em boatos, mesmo que tenda para o lado a favor da desinformação. Mais além, Agnez aponta que uma pessoa educada, no tocante ao consumo de informação, pode ter mais consciência da responsabilidade ao compartilhar um conteúdo. “Educação midiática é um processo de formação, mas também de responsabilização (do consumidor)”, defende.

Educação midiática trata, basicamente, da proposta da formação e preparação do cidadão para consumir informação e mídia no geral, como jornalismo, publicidade e entretenimento, por exemplo. É uma das propostas reconhecidas pela Unesco e propõe que os países adotem políticas de educação da população nesse sentido.