Apesar dos holofotes, cenário do skate no Brasil é de pouco investimento

Orgulho dos brasileiros nas Olimpíadas de Tóquio, o skate ainda enfrenta desafios como pouco apoio e falta de estrutura.

Isadora Mota

Postado em 01/10/2021

Da proibição e preconceito às telinhas da televisão como esporte olímpico, o cenário do skate brasileiro tem aberto espaços de reconhecimento e deixado seu legado ao redor do mundo. De acordo com pesquisa do DataFolha, 8,7 milhões de pessoas praticavam o esporte no Brasil em 2019. Apesar da alta adesão, a história da modalidade versa, também, sobre a falta de investimentos e pouco apoio por parte da população e do próprio governo. 

Foram muitos anos de desafios e estigmas para que a “Fadinha do Skate”, como é chamada a medalhista olímpica Rayssa Leal, pudesse segurar a medalha de prata em suas mãos em 2021. O skatista profissional e professor de skate, Welton Martins, 29, pratica há 15 anos e passou por alguns deles. “[Para a sociedade]  o skate era um esporte ligado ao uso de drogas e a vagabundagem. Antigamente era até proibido andar de skate em alguns lugares”, conta Welton. 

O profissional vê de forma otimista o fomento e a visibilidade positiva que as Olimpíadas trouxe para a prática do skate, mas conta que ainda são muitas as dificuldades para treinar com segurança e ensinar os aprendizados para novos praticantes e futuros skatistas. 

A prática do skate vem crescendo também entre as crianças/ Imagem de arquivo pessoal

Para o professor, o maior obstáculo para que os adeptos da modalidade possam se desenvolver com excelência, seja apenas por diversão ou para competições de alto nível, é a falta de pistas públicas adequadas para as necessidades do esporte. “A manutenção das pistas que já existem não é feita regularmente. Temos uma estrutura precária, pistas cheias de buracos, com obstáculos quebrados, desgastados e antigos. A gente não tem em Brasília, por exemplo, nada que se compare ao nível olímpico e de competições”, explica.

A alta procura pelo esporte foi o pontapé para que Welton desse início a própria escola de skate em Águas Claras. “Com a pandemia, muitas crianças estavam indo para as pistas de skate praticar o esporte, mas por ser uma modalidade perigosa, muitos pais vieram me procurar”, conta. 

Mesmo com a realidade dos equipamentos públicos precários, o professor garante que o esforço dos aprendizes é o futuro para representações talentosas em importantes competições do skate: “Temos alunos extremamente talentosos, só com um ano e meio de escolinha, alunos que já competem e projetam para representar o Distrito Federal futuramente nas ligas”.

Mais que um esporte, um estilo de vida

Foi durante a pandemia que a estudante de Relações Internacionais, Ana Clara Pimentel, 20, decidiu comprar seu primeiro skate. A intenção era ocupar o tempo de ócio com o esporte, mas ao começar a frequentar as pistas, a jovem percebeu que a prática vai além,  envolve um estilo de vida e muita cultura. Foi no skate que Ana Clara encontrou uma válvula de escape, fez novos amigos e conheceu seu atual namorado, Douglas Rodrigues, também skatista. 

Para Douglas, 21, a paixão pelo skate foi um caso de amor à primeira vista. Aos 11 anos, idade que começou a praticar, não imaginava a proporção que o skatismo tomaria em sua vida. “A partir do skate eu pude conhecer culturas e pessoas que não tenho o hábito de conviver todos os dias. Abraçamos todo tipo de grupo, músicas, artes, tudo que envolve a rua”, compartilha. 

O skatista profissional Welton Martins conta que o skate traz um forte lado social, influencia toda uma cultura e contracultura: “Sempre falamos que o skate é o esporte individual mais coletivo que existe, todo mundo sempre vai ser bem recebido e acolhido. Além do lado esporte, o skate move pensamentos”, finaliza.