Autor Pedro Rhuas fala sobre a importância de representatividade na literatura

Autor do livro “Enquanto eu não te encontro”, que alcançou o 5º lugar na lista dos mais vendidos da Veja, Pedro conta como surgiu e fala sobre a relevância da história

Vitória Alice Silva

Postado em 21/10/2021

Lançado em julho deste ano, o livro “Enquanto eu não te encontro” (Editora Seguinte), do autor potiguar Pedro Rhuas, já chegou a alcançar um grande público, com mais de 10 mil cópias vendidas. Com pouco mais de três meses do lançamento, o livro de estreia do autor já foi parar três vezes na lista de mais vendidos da Veja, atingindo o 5º lugar no fim do mês de setembro. O livro traz a narrativa dos jovens Lucas e Pierre que se conhecem por acaso. A história é ambientada no Rio Grande do Norte e traz grandes referências do Nordeste do Brasil e da cultura LGBTQIA+. 

Contador de histórias, escritor, cantor e jornalista, Pedro Rhuas tem o Nordeste nas veias: ele cresceu entre o Rio Grande do Norte e o Ceará. Suas letras e narrativas contam sobre amores à primeira vista, protagonismo LGBTQIAP+ e as potências de um Nordeste vivo. Em entrevista, Pedro contou um pouco de como surgiu a história do seu livro de estréia e deu a sua visão sobre a representatividade e relevância de obras LGBTQIAP+ no universo literário. 

Quem é o autor Pedro Rhuas? De onde surgiu a vontade de contar histórias?

Sou um sonhador e contador de histórias. Crescendo em meio à arte, escrever ficção surgiu como uma maneira de me entender e entender, também, o mundo ao meu redor. Diria que contar histórias nasce como o desejo de um menino que precisava se expressar e se encontrar, e que descobriu na escrita o modo mais eficiente de fazê-lo.

Como surgiu a história de “Enquanto Eu Não Te Encontro”? De onde veio a inspiração?

Comecei a escrever “Enquanto eu não te encontro” no meu segundo ano da graduação de Jornalismo na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Natal. Me envolvi com a cena drag da cidade e passei a viver uma experiência universitária que me inspirou bastante. Tudo isso me motivou a escrever o livro, somado a uma certeza nem sempre agradável: se não fosse eu a escrever as histórias que queria, quem mais? A falta de representatividade nordestina e LGBTQIAP+ na literatura jovem, que por tanto me paralisou, foi o que me fez tomar coragem para escrever o que estava ao meu redor, desafiando barreiras. Por outro lado, eu fantasiava muito uma ideia de amor romântico que não encontrara ainda. Escrevi o livro para experimentar um amor que até então não existia na vida real.

Na sua opinião, qual a relevância social do seu livro?

A relevância é sempre uma perspectiva. Nesse sentido, “Enquanto eu não te encontro” é relevante por ocupar um vácuo na literatura jovem do Brasil, preenchendo espaços até então deixados de escanteio, como a representatividade nordestina. O livro é relevante por sua própria existência em um contexto histórico em que narrativas como a minha poucas vezes ocupavam um lugar de destaque, dialogando com diversos públicos sobre questões bastante silenciadas na literatura comercial.

Como você avalia o mercado literário no sentido de presença de livros que carregam esse tipo de representatividade?

Experimentamos um boom notável de obras que carregam representatividade responsável nos últimos anos. O crescimento disso em distintas esferas sociais é uma tendência em resposta a séculos de opressão e silenciamento. Na literatura não é diferente. Vemos cada vez mais vozes se expressando e partindo das ditas narrativas únicas, além de notarmos uma abertura continuamente maior por parte do mercado. Esse avanço é puxado pelo próprio público que, mais consciente e empoderado, demanda obras como “Enquanto eu não te encontro”, colocando pressão em editoras e exigindo mudanças. O aumento das possibilidades de publicação independente também ajudou a promover esse avanço.

Para você, qual a importância de abordar questões LGBTQIAP+ na literatura atual?

Vivemos em uma sociedade heterocisnormativa, isto é, centrada em uma base estruturalmente heterossexual e cisgênera. Nessa formação, as opressões contra pessoas LGBTQIAP+ são parte do sistema. A arte, como um agente de transformação social e de revolução, ocupa um papel de suma importância para que possamos construir uma nova sociedade. Enquanto arte, a literatura contribui para denunciar situações de opressão, oferecendo novas possibilidades de mundo e proporcionando a pessoas LGBTQIAP+ espaços seguros onde suas identidades possam ser desenvolvidas sem que recaiam nas mãos daqueles que nos oprimem.

O livro conta a história de Lucas e Pierre e já é um símbolo de representatividade nacional | Foto: Reprodução/Sunshineart129

O que “Enquanto eu não te encontro” significa para você? Quais os sentimentos de ver que a história está atingindo e encantando um grande público?

“Enquanto eu não te encontro” é um livro que carrega minha essência. Não apenas como escritor, eu diria, mas como ser humano. É uma história que me acompanha desde o final da adolescência e que me ensinou muito sobre minha escrita, sobre o meu potencial, e sobre o poder – e a responsabilidade – que é contar histórias. Só tenho orgulho de ver esse livro voar tão longe!

Quais os próximos projetos?

No momento, estou preparando o lançamento da trilha sonora do livro, chamada “Contador de História”, para novembro deste ano. Também estou escrevendo meu próximo romance!