Estudo indica que Covid-19 circulava no Brasil semanas antes do primeiro diagnóstico

Dados de pesquisa da Fiocruz mostram que a transmissão comunitária começou mais de 20 dias antes do primeiro caso oficial

Vitórian Tito

Postado em 05/09/2021

O primeiro caso de Covid-19 no Brasil foi confirmado em fevereiro de 2020, na cidade de São Paulo, em um homem de 61 anos que retornou de viagem da Itália. À época, países da Europa registravam centenas de casos de contaminação pelo vírus por dia. Apesar da data da primeira notificação, a doença circulava no país semanas antes do registro oficial. É o que indica pesquisa liderada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOF/Fiocruz). 

De acordo com o estudo publicado na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, a transmissão comunitária – cenário de circulação de uma doença sem que exista a possibilidade de rastreamento da origem – começou em até quatro semanas antes dos primeiros registros de Sars-cov-2 na Europa e nas Américas. Assim, os pesquisadores concluíram que a doença já estava entre os brasileiros na primeira semana de fevereiro, mais de 20 dias antes do primeiro diagnóstico.

Infectologista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, Ana Helena Germoglio, explica que o processo para mapear as primeiras transmissões foi complicado. “Primeiro porque se tratava de uma doença totalmente desconhecida por todos. Depois porque os critérios de diagnóstico foram mudando ao longo do tempo”.

Entre dúvidas quanto aos reais sintomas da doença e atraso na implementação de medidas sanitárias eficientes, a especialista conta que, no início, os casos de Covid-19 eram confundidos com os da gripe comum. “Hoje em dia, a gente já sabe que pode ser Covid em pessoas que têm sintomas muito leves e fazemos a testagem. Antes, eles passavam como se fosse uma gripe e isso, talvez, tenha dificultado a identificação desses casos”, sugere. 

É virose, mas qual? 

Conhecer novos lugares, culturas e sabores é o que move a gastróloga Juliana Tito, de 35 anos. Ver de perto as diferenças entre os povos e aprender com as experiências dá sentido à vida da viajante, que seguiu roteiro de 30 dias de viagem entre o final de dezembro de 2019 e janeiro de 2020 por pontos turísticos da Ásia.

Enquanto se deslocava por trajetos inspiradores da Índia, Qatar e Maldivas, Juliana conta que já existia um medo com relação ao novo vírus, mas não de uma maneira que fosse possível pensar a contaminação em locais fora da China, país de início da pandemia que se alastrou pelo mundo. 

Na hora de voltar para casa, a viajante fez conexão em um voo lotado que partiu de território chinês. “Muita gente tossindo e numa situação crítica de gripe, a maioria não usava máscara. Acredito que neste momento contraí o vírus”, relembra. 

Seis dias após a conexão e já em casa, no Distrito Federal, Juliana desenvolveu sintomas que se assemelhavam a uma gripe forte. “Eu suspeitei desde o início (que o caso seria de Covid-19) devido a grande quantidade de pessoas vindas da China no mesmo voo”, diz. Mas apesar de ter se consultado cinco vezes em hospitais, o único diagnóstico que recebeu foi de uma virose.

“Em um dos atendimentos um médico me disse que seria impossível, que o vírus estava só na China, que tinha muita gente chegando do exterior com os mesmos sintomas que eu estava e que provavelmente era alguma nova virose”, relata. Para o tratamento, foram indicados apenas remédios para virose, mas nada específico para o coronavírus. 

Homem na beira do rio em Varanasi, a capital espiritual da Índia / Arquivo pessoal 

O que esperar de 2022

A infectologista Ana Helena Germoglio esclarece que o coronavírus ainda será um fator presente no decorrer do próximo ano, mas com uma mudança significativa: será como uma doença endêmica. “Ou seja, ele vai conviver entre nós, mas a expectativa é de que se torne muito menos grave e que a gente perca menos vidas”. 

Para que isso aconteça, será necessário continuar vacinando a população e manter as orientações e medidas sanitárias, especialmente o uso correto de máscaras. Desse modo, será possível diminuir a transmissão viral para ter um começo de ano mais tranquilo.