O esporte como caminho para a inclusão

No Gama, o Centro Olímpico e Paralímpico reúne atividades esportivas que impactam a rotina da comunidade, promovendo autonomia e ampliando o acesso ao esporte na região.

Beatriz Beserra

Postado em 22/06/2026

Por Beatriz Cavalcante, Francisco Rodrigues, Laís Marques, Maria Nunes e Rebecca Torres

No Gama, o Centro Olímpico e Paralímpico reúne atividades esportivas que atendem crianças, jovens, adultos e idosos, com impacto direto no desenvolvimento físico, social e emocional dos participantes. A região é marcada pela tradição esportiva, pela força de sua torcida e pelo estádio Bezerrão, além de iniciativas que vão além da formação de atletas de alto rendimento, como o trabalho desenvolvido no Centro Olímpico.

O espaço integra a rede de equipamentos esportivos do Distrito Federal e se destaca por oferecer modalidades que vão do esporte de rendimento a práticas voltadas à saúde e ao bem-estar da comunidade local.

Embora o futebol seja a modalidade mais popular no país e esteja fortemente presente na identidade do Gama, o esporte no Brasil se manifesta em diferentes práticas e contextos sociais. Mais do que competição, ele é reconhecido como ferramenta de promoção da saúde e da qualidade de vida. Segundo dados do Tracking Sintonia com a Sociedade, divulgados pela Globo Gente, 86% dos brasileiros associam o esporte à melhoria da saúde e à superação de desafios físicos e emocionais.

 Centro Olímpico e Paralímpico do Gama, espaço que atende milhares de alunos e promove a inclusão por meio do esporte.  / Gama em Pauta

Pilates, inclusão e autonomia

“Eu posso dizer que existe minha vida antes do pilates aqui no Centro Olímpico e a minha vida após o pilates”. A frase de Débora Almeida, aluna de pilates do Centro Olímpico, resume o impacto que o esporte tem em sua vida. Ela conta que convive com uma série de doenças autoimunes, como a Esclerose Sistêmica, Artrite Reumatoide, Lúpus e Fibromialgia, que afetam sua rotina e dificultam a realização de tarefas simples do dia a dia. Ao ingressar nas atividades do Centro Olímpico e iniciar a prática do pilates, percebeu mudanças significativas em sua qualidade de vida.

Segundo ela, os exercícios contribuíram para o desenvolvimento da mobilidade, da autonomia e da força, permitindo que ela realizasse atividades cotidianas com mais independência. “Eu vejo que hoje eu estou mais inserida no mundo, nas pessoas, por conseguir fazer mais coisas”

Tão importante quanto os resultados obtidos foi a vontade de compartilhar essa experiência com outras pessoas. “Onde eu vou, eu falo que faço pilates e faço no Centro Olímpico”, afirma. A fala evidencia a necessidade de dar visibilidade a esses espaços públicos, que muitas vezes enfrentam o desconhecimento de parte da população. Embora desempenhem um papel social imprescindível, iniciativas gratuitas de acolhimento nem sempre recebem o reconhecimento que merecem.

O depoimento de Débora mostra que o esporte e as atividades esportivas transformam realidades individuais e inspira o acesso a novas oportunidades.

Clique na imagem para a reprodução da entrevista na íntegra

Kawan Pereira: do Gama a Tóquio

Se para Débora o esporte representou a conquista da autonomia e da qualidade de vida, para outros frequentadores do Centro Olímpico ele também se tornou um caminho para alcançar novos horizontes. Entre eles está Kawan Pereira, atleta que iniciou sua trajetória esportiva no Gama e transformou o talento desenvolvido em projetos locais em uma carreira de alcance internacional.

O jovem piauiense Kawan Pereira iniciou sua trajetória no esporte ainda muito cedo, aproximando-se principalmente da capoeira, prática que mais tarde faria grande diferença em sua carreira nos saltos ornamentais. Aos 6 anos de idade, mudou-se para o Distrito Federal e, durante a adolescência, costumava jogar futebol society no Centro Olímpico do Gama. Sempre que marcava um gol, comemorava realizando um salto mortal. Foi justamente essa habilidade que chamou a atenção de um técnico, que o matriculou em uma seletiva de saltos ornamentais.

Na Olimpíada realizada em 2021, Kawan Pereira atingiu a marca de 393,85 pontos, após 6 saltos/Agência Brasília

A partir dos 14 anos, Kawan passou a se dedicar integralmente ao esporte, enxergando nele uma oportunidade de mudar a realidade de vulnerabilidade financeira que vivia ao lado de sua mãe. Em entrevista reproduzida pelo Estadão Conteúdo durante a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2021, o atleta relembrou as dificuldades enfrentadas no início da carreira ao afirmar: “A gente não tinha muito dinheiro. No começo, eu não tinha nem mochila, eu ia de sacola pro treino.” 

Sua evolução foi rápida. Kawan saiu das piscinas do Centro Olímpico do Gama para disputar, em maio de 2021, a Copa do Mundo de Saltos Ornamentais no Japão, onde alcançou o melhor resultado brasileiro da modalidade até então. Terminou na décima colocação e garantiu vaga para representar o Brasil nas Olimpíadas.

O ano de 2021 consolidou-se como o mais marcante da carreira do atleta. Em dezembro daquele mesmo ano, Kawan participou do Campeonato Mundial Júnior de Saltos Ornamentais 2021, realizado em Kiev, na Ucrânia, onde fez história ao conquistar uma medalha de ouro, a primeira da história do Brasil na competição,  além de duas medalhas de bronze. O desempenho garantiu ao jovem o título de Campeão Mundial Júnior de Saltos Ornamentais, consolidando seu nome entre os grandes talentos do esporte brasileiro.

O alcance dessas iniciativas pode ser grandioso e chegar ao cenário internacional, mas também pode ser percebido em transformações mais silenciosas, embora igualmente significativas, vividas diariamente por pessoas que encontram na atividade física uma oportunidade de inclusão, bem-estar e pertencimento.

Como o esporte transformou a vida de Monique Moura dos Santos

A prática regular de atividades físicas contribui diretamente para a promoção da saúde. Segundo pesquisa publicada no periódico Frontiers in Psychiatry, o exercício físico regular pode reduzir em até 60% o risco de desenvolvimento da ansiedade, além de contribuir para a melhora da saúde mental e auxiliar no combate à depressão. Nesse contexto, espaços públicos voltados ao esporte desempenham papel essencial ao oferecer atividades que promovem bem-estar e inclusão social.

De acordo com dados da Agência Brasília, os 12 Centros Olímpicos e Paralímpicos (COPs) do Distrito Federal atendem, juntos, mais de 44 mil alunos ativos. Desse total, a unidade do Gama se destaca ao responder por uma média estimada de 3.500 a 4.000 frequentadores.

Entre eles está Monique Moura dos Santos, participante das atividades da unidade. Ao relatar sua experiência no Centro Olímpico, ela destacou sua participação nas aulas de pilates, atividade que passou a integrar sua rotina e contribuir diretamente para sua qualidade de vida. Como pessoa surda, Monique também apontou desafios relacionados à comunicação, especialmente na ausência de intérprete de Libras durante as atividades, o que evidencia a importância de ampliar medidas de acessibilidade.

Segundo ela, a prática esportiva trouxe mudanças significativas para sua vida, contribuindo tanto para a perda de peso quanto para o enfrentamento de períodos de tristeza e depressão.

Clique na imagem para a reprodução da entrevista na íntegra

A literatura da área reforça esse cenário. Pesquisa publicada na revista Pensar a Prática aponta que a acessibilidade e a interação entre surdos e ouvintes são fatores essenciais para ampliar a participação desse público em atividades físico-esportivas, além de favorecer a socialização e o sentimento de pertencimento.

No Centro Olímpico do Gama, essas questões se refletem no cotidiano de diferentes públicos atendidos pela unidade. O esporte, nesse contexto, se consolida como uma ferramenta de acesso a oportunidades e de fortalecimento da participação social, especialmente entre grupos historicamente afastados dessas práticas.

O Paradesporto e o basquete 3×3

Nesse cenário, o paradesporto se consolida como uma grande frente de inclusão por meio do esporte. Entre essas iniciativas está o basquete em cadeira de rodas 3×3, modalidade que vem ampliando as possibilidades de participação de atletas com deficiência em competições regionais e nacionais.

No Distrito Federal, o Circuito Brasiliense de Basquetebol em Cadeira de Rodas 3×3 é organizado pela Federação de Basquetebol em Cadeira de Rodas do DF (FBCR-DF), com apoio da Secretaria de Esporte e Lazer. As partidas são disputadas em meia quadra, com três atletas por equipe e uma única cesta.

Entre os destaques está a equipe ADGE/Águias do Gama, formada por atletas da cidade e de regiões vizinhas, que representa a comunidade local nas competições e reforça o crescimento do paradesporto na região.

O paradesporto amplia oportunidades e evidencia o papel do esporte na promoção
da inclusão social, entre eles o basquete ganha forte destaque/Gama em Pauta

Questões relacionadas à acessibilidade, permanência e respeito às individualidades demonstram que, além de oferecer oportunidades, os espaços esportivos também precisam garantir condições igualitárias de participação para todos os públicos. Entre os desafios presentes nesse cenário, as desigualdades de gênero seguem sendo uma realidade que impacta diretamente a experiência de muitas mulheres dentro das práticas esportivas, evidenciando a necessidade de tornar esses ambientes cada vez mais seguros, respeitosos e inclusivos. 

Recente levantamento realizado pela Women in Sport, organização internacional voltada à equidade no esporte, apontou que mais de 40% das meninas adolescentes deixam de praticar atividades esportivas ao longo da juventude em razão da falta de incentivo, medo de julgamentos e experiências negativas relacionadas à discriminação e estereótipos de gênero. 

No Brasil, pesquisas divulgadas pelo Instituto Avon em parceria com o Datafolha também demonstram que muitas mulheres relatam constrangimento, falta de acolhimento e preconceitos em espaços esportivos, fatores que frequentemente contribuem para o afastamento ou abandono dessas práticas.

Barreiras de gênero na quadra

A estudante Agatha Cristina, aluna de voleibol do Centro Olímpico do Gama, vivenciou um episódio de hostilização no início de sua trajetória no esporte. Durante um treinamento, ao falhar na execução de um fundamento crucial para o início da partida, a jovem foi alvo de risos e julgamentos por parte dos presentes.

Em entrevista, Agatha relatou o impacto emocional do ocorrido: “Me senti mal pelos olhares e julgamentos que recebi naquele dia. Acho que, independentemente do erro, eu merecia respeito e acolhimento”. Ela destacou o fator de gênero na dinâmica da opressão, manifestando a convicção de que, se o erro partisse de um praticante do sexo masculino, as consequências e a repercussão social teriam sido minimizadas.

Esse cenário mostra como a misoginia estrutural atua como uma barreira invisível mas severa na democratização do esporte. A tolerância zero ao erro direcionada às mulheres iniciantes reforça estereótipos de incapacidade, afastando o público feminino de espaços de lazer e alta performance.

Por trás das quadras, mulheres ainda enfrentam barreiras invisíveis que limitam sua trajetória no esporte/Gama em Pauta

Além do pódio: projeto futuro campeão

Iniciativas públicas voltadas ao incentivo esportivo tornam-se fundamentais para garantir estrutura, acompanhamento e condições para que mais pessoas tenham acesso ao esporte e possam desenvolver seu potencial. No Distrito Federal, uma dessas iniciativas é o Projeto Futuro Campeão, programa que amplia oportunidades e reforça o papel do Centro Olímpico e Paralímpico do Gama como espaço de formação, inclusão e desenvolvimento de novos talentos.

Política pública oficial do Governo do Distrito Federal (GDF), o projeto atua na identificação de talentos e na formação de atletas de rendimento. O programa tem seu funcionamento integrado com a rede de Centros Olímpicos e Paralímpicos de todo o Distrito Federal, com grande enfoque na unidade do Gama, que possui um papel histórico na execução.

Olhar para o esporte através da lente da inclusão é enxergar um futuro onde ninguém fica do lado de fora / Gama em Pauta

A unidade foi uma das pioneiras e consolidou-se como a principal referência pública, especialmente na modalidade de saltos ornamentais. Desde o nascimento do PFC, a piscina do COP Gama foi escolhida como a sede oficial das seletivas e dos treinos de rendimento para os saltos. Além de receber investimentos do GDF, como a aquisição de aparelhos esportivos, garantindo condições para o desenvolvimento desses atletas.

A captação de talentos locais ocorre por meio das seletivas, diretamente na estrutura do Gama. O objetivo central é avaliar crianças da própria região administrativa e de cidades vizinhas, como Santa Maria. Conforme consta em editais e comunicados da SEL-DF, os alunos selecionados nas peneiras recebem uniformes, materiais de treino e auxílio para viagens competitivas sem qualquer custo para as famílias.

Ao reunir diferentes trajetórias, o Centro Olímpico e Paralímpico do Gama evidencia a diversidade de impactos gerados pelo acesso ao esporte. Entre a reabilitação física, a formação de atletas de alto rendimento e os desafios de inclusão ainda presentes, o espaço reflete tanto os avanços quanto os obstáculos do esporte como política pública no Distrito Federal.