ELAS NO CAMPO DF
Propriedades lideradas por mulheres, como Dona Raimunda e Silvia Pinheiro, apostam em recursos renováveis e no manejo orgânico para agregar valor à agricultura familiar e driblar os desafios do campo. Das salas de aula às cooperativas agrícolas, a jovem agricultora Amanda Barcelos vê na capacitação o caminho para a autonomia feminina na produção.
Postado em 06/06/2026
Agricultura familiar aposta na sustentabilidade para garantir o futuro do campoo no DF

Por: Arthur Leal, Emanuela Gonçalves, Gabriela Santos, Mirelen Oliveira
O desenvolvimento da agricultura familiar no Distrito Federal está além da assistência técnica e do acompanhamento de safras. Entre plantações e vendas, está a participação majoritariamente feminina, que ocupa quase um terço do campo na capital do país. Segundo dados da Emater-DF, das 18 mil propriedades rurais atendidas pela empresa, 5.384 estão cadastradas em nome de mulheres, seja como proprietárias ou como coproprietárias

Essa estatística ganha rosto e história por meio de mulheres como Silvia Pinheiro e sua mãe, dona Raimunda, produtoras e proprietárias do Sítio Pinheiros. Localizado na região de Brazlândia-DF, o sítio, sob o comando feminino, segue um modelo de turismo pedagógico e de experiência que integra os visitantes às atividades rurais. Entre as práticas oferecidas no local estão a “torra do café” e a “pamonhada”, nas quais o participante conhece desde a história, a colheita e o preparo até o produto final.
Além disso, o dia a dia do sítio traduz o verdadeiro significado de driblar os desafios estruturais em busca da sustentabilidade. As ações sustentáveis adotadas pelo espaço incluem o tratamento da própria água consumida pelos moradores e visitantes, o uso de energia solar, a compostagem para gerir resíduos e a produção de alimentos livres de agrotóxicos.
A trajetória de Silvia ilustra a ocupação de áreas estratégicas por mulheres rurais. Mais do que o ato de gerenciar, a busca por inovação e por redes de capacitação, como cursos do Sebrae, oficinas do site Emater-DF e cursos oferecidos pelo Senar, foram pilares para manter o funcionamento da propriedade por mais de 30 anos.


Buscando reduzir esse impacto, a tecnologia tem entrado no negócio de forma prática e pé no chão: as redes sociais são suporte e as inteligências artificiais tornaram-se ferramentas de comunicação, vendas e até mesmo tomada de decisões estratégicas.





Viver e produzir no campo exige uma profunda mudança no estilo de vida e o entendimento de que a natureza dita um ritmo próprio, contrário ao “corre-corre” urbano. O apelo final de Silvia é um chamado à empatia econômica e social, lembrando que, por trás de cada alimento orgânico ou experiência rural, existe um grande esforço que precisa ser valorizado e compreendido por quem consome. Fortalecer esse sistema é permitir que a agricultura familiar e o protagonismo feminino prosperem no Distrito Federal, garantindo que a conexão com a terra e a segurança alimentar não se percam nas próximas gerações, assim como dona Raimunda fez com Silvia, e esta faz com suas filhas.


A partir da produção de hortaliças iniciada pelo pai, Amanda Barcelos, de 25 anos, graduou-se em Agronomia e hoje cursa Agroecologia. Atualmente na sucessão da propriedade, ela trabalha com uma logística muito comum em núcleo rural Taquara, em Planaltina Distrito Federal: parte do que produz é dedicada à Cooperativa Cootaquara, ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), ao programa Cesta Verde e à venda direta para vizinhos.
Cerca de 5 mil produtores rurais no DF fazem parte do “Cesta Verde”. Criado em novembro de 2019, o programa foi uma alternativa vital para Amanda e outros participantes do PNAE durante a pandemia. Esse auxílio ajudou a alavancar as vendas após uma grave dificuldade financeira na propriedade em 2017, período que a motivou a começar o cultivo de abacates.

Hoje, o sucesso de vendas é o avocado, um abacate pequeno e adocicado que, quando maduro, apresenta casca fina e escura. Amanda conta orgulhosa como sua fome de conhecimento transformou o negócio: uma parte do terreno que recebia pouca luz e produzia minimamente passou a dar belíssimos frutos após a implementação de uma caixa de abelhas para polinização.
“Os incentivos governamentais através das políticas públicas, com o preço que o governo paga aos produtores, viabilizam a permanência no campo”, pontua. No entanto, os desafios são grandes. Além da alta dos insumos, segundo o Boletim Logístico (jan/2026) da Conab, o Brasil importou o recorde de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, expondo os produtores às oscilações internacionais, a escassez de mão de obra é outra realidade que pesa no campo como também foi pontuado na conversa com Silvia Pinheiro.

Esse êxodo rural, cujas raízes históricas vêm da Revolução Industrial na Europa, reduz o número de trabalhadores agrários. O resultado é o acúmulo de funções e o desgaste físico para quem fica. Essa sobrecarga impacta diretamente a saúde física e mental dos produtores, desestimulando a continuidade da atividade e reduzindo a qualidade de vida agradável no interior.




Diante de um cenário que exige resiliência técnica e econômica, a trajetória de Amanda Barcelos reforça que o futuro do campo depende da oxigenação trazida pelas novas gerações. Ao unir o conhecimento acadêmico à sensibilidade socioambiental, a jovem produtora prova que o papel da mulher na agricultura moderna rompeu definitivamente as barreiras domésticas. Cultivando muito além do sustento, lideranças como Amanda plantam inovação e colhem a promessa de um meio rural mais sustentável, autônomo e valorizado.

Rede de mulheres e reivindicações
Agricultoras familiares relatam dificuldades de comercialização, precariedade da infraestrutura rural e entraves na regularização fundiária, apesar dos incentivos governamentais ao setor.

Apesar dos incentivos à agricultura familiar em vigor no DF, como o Plano Safra, que disponibiliza linhas de crédito oficiais com juros mais baixos e prazos mais longos, tanto para a agricultura familiar quanto para a empresarial ou a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), que visa levar conhecimento técnico para produtores rurais de forma mais direta, atuando como uma ponte entre a pesquisa científica e a agricultura familiar, o setor ainda apresenta diversas reivindicações.
Como explicou a produtora rural e presidente da Rede de Mulheres Rurais, Edileuza Laurentino, há uma grande disparidade na competição com os grandes produtores. Segundo ela, “a comercialização para o pequeno produtor é um desafio, principalmente na questão dos preços, pois, apesar de ser um produto de qualidade, torna-se complicado competir com o valor menor que um grande produtor consegue propor.” Edileuza explica que a rede de mulheres surgiu da necessidade de apoio mútuo entre as agricultoras. “A união dos nossos esforços é a certeza dos nossos sucessos”, pontua a produtora.
A presidente destaca ainda que outro problema recorrente relatado pelas agricultoras é a precariedade da infraestrutura no meio rural. Segundo ela, muitas comunidades enfrentam dificuldades de acesso a serviços de saúde de qualidade, conexões estáveis de internet e estradas adequadas para o escoamento da produção. “Nós, do campo, levamos para a cidade a água, o ar e o alimento. E, infelizmente, não temos o devido reconhecimento”, afirmou. A precariedade desses serviços pode ser observada em dados do IBGE, que mostram que apenas 81% dos domicílios rurais possuíam acesso à internet em 2023.
Outro ponto destacado por Edileuza foi a questão da regularização fundiária. O problema da titulação da terra diz respeito à dificuldade de produtores obterem o título definitivo de suas propriedades. Em alguns casos, famílias que ocupam e cultivam determinadas áreas há gerações não possuem um documento que comprove legalmente a posse da terra, convivendo, assim, com insegurança jurídica. As consequências vão além da falta de documentação. A ausência do título dificulta o acesso ao crédito rural, uma vez que grande parte das instituições financeiras exige a comprovação da propriedade para a concessão de financiamentos. Além disso, o processo de regularização costuma ser burocrático e demorado, podendo levar anos até a emissão definitiva do documento.
A produtora conclui: “Na agricultura familiar fala-se de muitos recursos para investimento nas propriedades, mas, sem a titularidade, você é impedido de aumentar sua produção”. Para Edileuza, é preocupante que, mesmo na capital do país, os processos de auxílio aos pequenos produtores para a regularização de suas terras sejam lentos e dificultem o desenvolvimento da agricultura familiar e o acesso a políticas públicas voltadas para o setor.
O papel da pesquisa na valorização do trabalho feminino no campo
Através de plataformas como o Observatório Mulheres Rurais, cientistas transformam números do censo em ferramentas de inclusão e visibilidade.

A participação das mulheres no campo foi deixada de lado por muitos anos, longe das estatísticas oficiais. Essa ausência de dados, além de dificultar a valorização do trabalho feminino na produção rural, gerou um impasse na elaboração de políticas públicas. Para Cristina Arzabe, pesquisadora no setor de inclusão sócio-produtiva e digital da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a mudança desse cenário passa necessariamente pela organização e produção de informações qualificadas.
Para a pesquisadora, o Censo Agropecuário 2017 do IBGE foi o pontapé inicial para desenvolver a criação do Observatório Mulheres Rurais do Brasil, plataforma da Embrapa que reúne dados, publicações e informações sobre políticas públicas voltadas às trabalhadoras rurais. Com o objetivo de acompanhar a evolução da presença feminina nas atividades produtivas, o Observatório está direcionado aos pesquisadores e às instituições responsáveis pela elaboração de políticas públicas.
O acervo aborda questões da agroindústria, como um comparativo entre terras gerenciadas por homens e mulheres. A apresentação interativa de dados, análises e diagnósticos permite ao Observatório fornecer subsídios para o desenvolvimento de estratégias e programas para criação ou fortalecimento de políticas que contemplem mulheres atuantes em atividades agropecuárias, florestais e aquícolas. “Porque você só pode pensar em mudar alguma coisa quando você tem quantificada”, destaca Cristina sobre a relevância dessas informações como ferramenta de transformação social.
Além disso, a Embrapa tem ampliado iniciativas que integram a inclusão social no meio rural. Uma das ações em destaque é o Programa Mulheres Produtoras do Bem Viver, iniciativa que busca conectar pesquisadoras e pesquisadores que atuam com a temática de gênero em diferentes regiões do Brasil. A ideia é criar uma rede de colaboração para ampliar o impacto dos projetos desenvolvidos pela instituição.
Sob a perspectiva de Arzabe, a construção de um setor mais sustentável e inclusivo parte da iniciativa da empresa em integrar pequenos produtores, comunidades tradicionais e mulheres rurais em diferentes processos colaborativos de desenvolvimento. “É um trabalho que dá importância aos diferentes setores, porque no final, tudo isso é a sociedade brasileira”, conclui.
