Tradição que movimenta o Guará: a força da feira popular
O espaço reúne gastronomia, comércio e convivência social há décadas. Feira se consolidou como símbolo da identidade cultural do Guará e do Distrito Federal.
Postado em 24/06/2026
Por: Sophia Caetano e Samyra bastos
A movimentação começa cedo na Feira do Guará. Antes mesmo do horário de pico, entre às 9h e o início da tarde, comerciantes já organizam mercadorias, clientes circulam pelos corredores e o cheiro das comidas típicas toma conta do ambiente. Conhecida como uma das feiras mais tradicionais do Distrito Federal, se tornou muito mais do que um centro comercial: o espaço é símbolo cultural, ponto de encontro para centenas de famílias da região. Atualmente, o local abriga cerca de 700 estabelecimentos comerciais e garante sustento para cerca de 1.600 famílias.
Ao longo das décadas, a Feira do Guará consolidou uma identidade própria ao reunir produtos, sabores e costumes de diferentes regiões do país. Verduras, frutas, queijos, doces, peixes, diversas comidas típicas de muitas regiões, principalmente do Nordeste, além de roupas, móveis e artigos eletrônicos, transformaram o espaço em um dos mais diversos centros de comércio popular.
Essa diversidade ajudou a diferenciar a Feira do Guará de outros centros comerciais. Durante muitos anos, tornou-se referência, atraindo desde moradores das cidades vizinhas até clientes de áreas centrais de Brasília. Não por acaso, muitos frequentadores consideram simbólica a localização da Estação Feira do metrô logo após a Estação Shopping.

A história da Feira do Guará acompanha o crescimento da própria cidade. Criada ainda no fim da década de 1960, passou por diferentes pontos da região antes de se estabelecer, no início dos anos 1980, próximo à Administração Regional do Guará.
Com a construção de uma estrutura fixa e coberta, o espaço ganhou destaque no Distrito Federal e se tornou referência no comércio popular. Na época da inauguração da estrutura permanente, o centro comercial era considerado uma das maiores feiras cobertas da América Latina.
Ao longo dos anos, o espaço passou por transformações e ampliações. Em 2010, a inauguração da chamada Ala Nova trouxe uma expansão importante para o centro comercial, com novas lojas e segmentos variados.
A localização estratégica também contribui para o movimento intenso de consumidores. Situada na região do CAVE (Centro Administrativo Vivencial e Esportivo), na QE 23 do Guará 2.

Cultura popular e convivência social
Mais do que um espaço voltado às compras, também funciona como um ambiente de convivência social e preservação cultural. Aos finais de semana, famílias inteiras ocupam os corredores em busca de lazer, boa comida e encontros entre amigos.
A praça de alimentação é um dos pontos mais movimentados do local. Restaurantes e lanchonetes tradicionais ajudam a manter viva a culinária regional e atraem diversos clientes. Também se destaca especialmente pelas peixarias, consideradas entre as maiores do Distrito Federal.
Entre os comerciantes que fazem parte dessa história está Heitor Moraes, natural de Caxias do Sul (RS), que trabalha na Feira do Guará há 30 anos. Heitor chegou a Brasília para atuar como gerente de hotel, mas encontrou na feira uma oportunidade de mudar de vida. “Eu conheci, achei bacana. Comprei uma banca, comprei duas, montei a pastelaria e, graças a Deus, me dei bem”, relembra.
Hoje, ele possui duas unidades e celebra o sucesso construído ao longo de muitos anos de trabalho. “A Universidade do Pastel é conhecida até no exterior. Tem 30 anos, 12 títulos da Veja como a melhor de Brasília e cada dia está melhor”, afirma com orgulho. A trajetória de Heitor reflete um espaço que, além de movimentar a economia local, guarda histórias de dedicação, crescimento e realização pessoal.

Além da gastronomia e do comércio, o artesanato também ocupa espaço importante dentro da feira. Pequenos empreendedores utilizam o local como oportunidade para divulgar produtos e garantir renda.
O espaço conta inclusive com iniciativas voltadas à valorização da produção artesanal brasiliense. Roberta Emanuelle, natural do Maranhão, proprietária da “Variedade do Nordeste”, valoriza a cultura nordestina por meio dos produtos que vende em sua banca. “Sou do Maranhão e gosto de trazer a cultura nordestina para as pessoas. Aqui temos produtos típicos como farinha, rapadura, mel puro do sertão, pilão, peneira e panela de barro.” Para ela, o espaço vai além das vendas.
“Mais do que uma banca, este é um espaço para valorizar nossas tradições e levar um pedacinho do Nordeste para todos, queremos compartilhar nossas receitas e costumes.”
A presença de comerciantes como Roberta reforça a forte ligação entre o Distrito Federal e o Nordeste. Desde a construção de Brasília, milhares de trabalhadores nordestinos migraram para a capital em busca de oportunidades e ajudaram a erguer a cidade. Essa influência permanece viva em regiões como o Guará, onde tradições, sabores, sotaques e manifestações culturais nordestinas fazem parte do cotidiano e da identidade local.


Valdinei Vasconcelos, atual presidente da Ascofeg, associação que representa os comerciantes da Feira do Guará desde 1994, destaca a importância da entidade para o funcionamento do local.
“A Ascofeg é a entidade representativa mais antiga da feira e é responsável por manter a Feira do Guará funcionando. Cuidamos da limpeza, segurança, manutenção e de toda a estrutura necessária para atender feirantes e visitantes.” Segundo ele, todos os custos são mantidos pelos próprios comerciantes. “O governo não injeta recursos na feira. Tudo depende da taxa de rateio paga pelos feirantes, que é utilizada para custear funcionários, reformas e demais despesas.”
O presidente também mencionou um impasse envolvendo outra associação. “Hoje existe uma disputa judicial entre duas associações. Enquanto a Ascofeg realiza os serviços e mantém a feira funcionando, parte dos recursos é arrecadada por outra entidade, que não contribui com os gastos. Esperamos que essa situação seja resolvida o mais rápido possível para o bem dos feirantes.” A reportagem tentou contato com representantes da outra associação citada para comentar as declarações e apresentar sua versão sobre o caso, mas não obteve retorno.

Geração de renda e fortalecimento da economia local
A importância econômica da Feira do Guará vai além das bancas e restaurantes. O funcionamento diário movimenta diferentes setores comerciais e garante renda para centenas de trabalhadores, entre feirantes, funcionários, fornecedores e pequenos produtores.
Mesmo com as transformações urbanas e o crescimento de grandes centros comerciais, a feira continua sendo referência justamente pela proximidade criada entre comerciantes e consumidores.

A relação entre tradição, cultura e desenvolvimento econômico ajuda a explicar por que a Feira do Guará permanece como um dos espaços mais movimentados e conhecidos do Distrito Federal. Entre sons, sabores e histórias construídas diariamente, a feira segue reunindo gerações e fortalecendo a cultura popular brasiliense.
