Candangos: o registro de uma memória antiga
Os candangos vieram de longe e fizeram parte da história da capital do país . Além de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, eles tiveram um papel igualmente ativo na construção de Brasília e, por meio de seu suor, ergueram a capital do país.
Postado em 24/06/2026

A maioria dos candangos era formada por imigrantes vindos do Norte e do Nordeste, fugindo da seca e da pobreza de suas terras natais. Eles chegaram à região do Planalto Central entre 1957 e 1960 com um objetivo em comum: trazer a capital do país para o Centro-Oeste e transformar as suas vidas e as de suas famílias.
Quando chegavam à futura capital, após uma longa e exaustiva jornada, eram encaminhados para o Instituto de Imigração e Colonização (Inic) — órgão da Novacap responsável pela triagem dos operários. Logo após, recebiam seus primeiros pertences de alojamento: um cobertor, um colchão e um travesseiro, sendo então direcionados para os acampamentos improvisados na chamada “Cidade Livre”, no hoje Núcleo Bandeirante
A rotina de trabalho era pesada e intensa; muitos operários dobravam os turnos, já que o pagamento era feito por horas trabalhadas. As condições de trabalho não eram as melhores, trazendo até um certo perigo, mas isso não os desanimou.
Clube dos Pioneiros
No Clube dos Pioneiros de Brasília, o pioneiro e presidente da instituição, Roosevelt Dias Beltrão, contou um pouco de como foi a sua chegada à cidade em 1959. Mineiro, natural de Tiradentes, ele veio a Brasília para trabalhar no Banco da Lavoura e, anos depois, tornou-se presidente do clube.

Segundo Roosevelt, assim que chegou, já sentiu que, de fato, ali seria a capital do Brasil. Toda a energia dos trabalhadores, nas palavras dele, “pessoas simples, convictas do que estavam fazendo e eficazes no que faziam”, já trazia a sensação de sucesso da nova cidade.
Fundado em 20 de abril de 1974 por Juscelino Kubitschek, o clube tem como intuito manter viva a memória dos primeiros candangos, que foram um dos pilares mais importantes para a construção da capital. Localizado no SCEN (Setor de Clubes Esportivos Norte), Trecho 1, lote 11A, o local passará por modificações. Quando perguntado sobre sua expectativa para o futuro do espaço, o presidente Roosevelt mencionou que o clube irá passar por uma expansão:
“Para o Clube dos Pioneiros, nós vamos construir agora a sede nesse lote de 6 mil metros quadrados. Quiseram nos tomar mas não tiveram coragem, nós falamos que foi Juscelino que nos deu; foi Juscelino que nos deu esse lote. Ele fundou o clube, e quando tiver pronto, muitas pessoas vão saber do clube e vão entrar no clube, porque o clube é deles e não nosso.”
O Clube promove alguns eventos todos os anos para guardar e homenagear a memória dos pioneiros e suas famílias como, como o Encontro Anual dos Pioneiros, organizado desde os anos 1970 para reunir os fundadores de Brasília e suas gerações seguintes. Essa programação geralmente ocorre no Salão Nobre do Iate Clube de Brasília, englobando apresentações musicais, um jantar e a cerimônia de entrega da Medalha de Honra ao Mérito Pioneira a indivíduos que tiveram papel relevante na construção da cidade.
Além disso, o calendário da associação conta com homenagens anuais ao aniversário de JK, realizadas desde 1974 para reverenciar o legado do ex-presidente Juscelino Kubitschek, e com o Dia do Pioneiro de Brasília, data comemorativa instituída oficialmente por decreto e celebrada todo dia 12 de setembro.
A associação também é frequentemente reconhecida em sessões solenes na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), que homenageiam o valor histórico dos operários que ergueram a nova capital.
E como era a vida desses trabalhadores quando chegavam na Capital?

Um dos trabalhadores que atuou na construção da futura capital foi José Profírio de Lima, nascido em Diamante, no sertão da Paraíba. Com apenas 17 anos, ele decidiu vir ao Centro-Oeste, disposto a trabalhar para construir o seu futuro. Trabalhou nas obras da capital como servente e auxiliar de carpinteiro, dedicando seu suor à construção do país. Mais tarde, ingressou na Novacap, em 25 de novembro de 1959, dando continuidade à sua contribuição para o sucesso da nova capital.
Sua história foi compartilhada por sua filha, Ellen Christina Lino Lima — Pesquisadora-Tecnologista em Informações e Avaliações Educacionais e Servidora Pública Federal —, que nos contou como foi a chegada e a experiência do pai quando veio para Brasília.
Com muita coragem e determinação, o jovem de 17 anos cruzou o país atrás de uma vida melhor na capital. Assim que chegou foi morar no acampamento das obras, onde hoje fica localizado o Núcleo Bandeirante e sofreu com a pouca infraestrutura do local: “O trabalho era pesado, a infraestrutura era simples e ele estava longe da família. Tudo ainda estava sendo construído, inclusive a vida daqueles trabalhadores”, diz Ellen Christina.
Na época, Brasília ainda era como um grande campo de obras. A poeira reinava no ambiente e os trabalhadores davam tudo de si para erguer a Capital. Vários momentos marcaram a trajetória de José Profírio e um deles foi um agradecimento especial do Presidente Juscelino Kubitschek:
“Acredito que o que mais marcou sua trajetória foi ter chegado sozinho, ainda muito jovem, e conseguido construir uma vida digna por meio do trabalho. Ele participou da construção de Brasília, ingressou na NOVACAP e mais tarde formou sua família no Distrito Federal. Nossa família guarda até hoje a carta assinada por Juscelino Kubitschek como símbolo desse período tão importante de sua vida.”

“Ao aproximar-se o término do meu mandato, venho manitestar-lhe, de modo especial, o meu reconhecimento pelo seu patriótico apoio à luta que travei para conduzir a pleno êxito a causa do desenvolvimento nacional.
Sinto-me satisfeito em poder proclamar que, na Presidência da República, não faltei a um só dos compromissos que assumi como candidato. Mercê de Deus, em muitos setores realizei além do que prometi, fazendo o Brasil avançar, pelo menos, cinqüenta anos de progresso em cinco anos de govêrno. Pude ainda, através da Operação Pan-Americana, despertar”
A maioria dos candangos trabalhadores permaneceram anônimos, e suas histórias representam uma das partes mais importantes na construção da Capital. Eles foram responsáveis por levantar seus edifícios e construir seus monumentos. “Meu pai fez parte da geração de candangos que ajudou a construir Brasília. Sua história representa a de milhares de trabalhadores anônimos que tornaram possível a construção da capital do Brasil”.
Isso mantém viva a memória de que, além de engenheiros e arquitetos, muitas mãos transformaram a poeira e o concreto na Capital, um dos feitos mais importantes do país, e essa lição de coragem e determinação desses trabalhadores será lembrada.
“As novas gerações podem aprender valores que meu pai sempre demonstrou ao longo da vida: honestidade, responsabilidade, compromisso com a palavra dada e dedicação à família. Ele era um homem trabalhador, sistemático, de coração bondoso e sempre disposto a ajudar quem precisasse. Seu exemplo mostra que caráter e trabalho são legados que permanecem por muitas gerações.”
O Museu Vivo da Memória Candanga

Durante os 1.250 dias de construção, muitas histórias aconteceram, criando registros que se transformaram nas memórias guardadas hoje no Museu Vivo da Memória Candanga, localizado às margens da BR-040, no Setor Juscelino Kubitschek, no Núcleo Bandeirante.
Antes de se tornar um museu, o local abrigava o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), um espaço criado para atender à demanda do Distrito Federal —não apenas de operários acidentados nas obras, mas também de serviços como partos e atendimento ambulatorial para crianças e donas de casa.

Em 26 de abril de 1990, as instalações foram reabertas como museu, que traz a memória viva dos candangos por meio de ferramentas de serviço, fotografias e pertences daqueles que trabalharam para dar vida à capital.
No local, o visitante pode sentir o quão importante foi a presença desses trabalhadores, tanto quanto a dos engenheiros e arquitetos responsáveis pelo projeto. O museu carrega hoje a responsabilidade e a honra de manter viva a memória desses homens e mulheres corajosos que deixaram suas raízes e vieram construir algo além de prédios: eles ergueram a história do país.
