O despertar do Brasilcore: como a cultura popular virou oportunidade de negócio em Brasília

O fenômeno consolidou-se como um movimento de resgate e reinterpretação da estética popular brasileira.

Kérllon Muniz

Postado em 04/06/2026

Kérllon Muniz, Nayane Santana, Yuri Reis, Victória Cristina Vasconcelos

O que antes era visto como puramente folclórico ou restrito a nichos tradicionais, hoje dita o ritmo das vitrines e do design urbano. O fenômeno conhecido como BrasilCore consolidou-se como um movimento de resgate e reinterpretação da estética popular brasileira. 

Longe de se limitar a uma tendência passageira nasredes sociais, o processo reflete um comportamento de consumo estruturado na busca por autenticidade e pertencimento cultural. Essa valorização da identidade nacional transbordou o mercado de moda de massa para influenciar diretamente o design gráfico e a produção de adornos e utilitários, convertendo conceitos culturais em ativos tangíveis da economia criativa contemporânea. 

A infraestrutura para o escoamento da produção autoral no Distrito Federal baseia-se no modelo de comércio compartilhado. Pioneira na implementação desse formato na capital a partir de 2012, a franquia Endossa, criada originalmente em São Paulo em 2008, opera hoje com duas unidades fixas em Brasília: uma na Asa Norte, na quadra 310, e outra na Asa Sul, na quadra 307, considerada uma quadra modelo na cidade. O cenário econômico do setor, contudo, demonstra volatilidade ante os choques de mercado. A marca, que antes da pandemia de Covid-19 gerenciava pontos comerciais também no Sudoeste e no CasaPark Shopping, precisou centralizar suas atividades após os impactos financeiros do período, consolidando as operações atuais junto a estruturas de coworking.

Longe de deter o monopólio do formato na cidade, a rede divide o ecossistema com iniciativas de DNA estritamente local, com destaque para a Pé de Árvore. Idealizada por Rafaela Coiro, profissional do teatro com mais de duas décadas de bagagem no setor cultural, a iniciativa nasceu para subverter a escassez de oportunidades financeiras para criadores independentes. Mais do que um ponto de venda, o espaço se consolidou como um ecossistema integrado que abriga ateliê de artes, escola de arte e café cultural ocupados de forma coletiva. Essa concorrência direta no DF evidencia que o fracionamento de custos imobiliários e a união de pequenos lotes sob o mesmo teto tornaram-se tendências estruturais para a sobrevivência do varejo independente na capital.

O funcionamento desses espaços fundamenta-se na locação de estruturas físicas reduzidas, boxes, “caixas” ou araras, funcionando como o pontapé inicial para que produtores divulguem seus trabalhos com baixo risco financeiro, sem a barreira imediata de contratos complexos de aluguel ou folhas de pagamento, já que tais despesas operacionais são diluídas. Na Endossa, o acesso é feito por listas de espera geridas via site, permitindo a entrada de expositores apenas com CPF ou RG. Essa flexibilidade regulatória deságua em uma rotatividade alta: marcas como a Capim Estrela (semijoias com folhas do Cerrado encapsuladas) estabilizaram-se a ponto de abrir lojas próprias em grandes shoppings da capital, enquanto outras deixam os espaços em poucos meses por desalinhamento com o público ou falhas de estoque.

Na outra ponta, a Pé de Árvore abriga atualmente 30 artistas fixos, cujas peças destacam-se por serem majoritariamente feitas à mão, carregando saberes populares e regionais. Para além dos residentes, a loja atua na expansão da cadeia produtiva por meio de um evento mensal na varanda do espaço. A feira recebe 15 artesãos extras que não conseguem arcar com os custos fixos da loja ou que aguardam em filas de espera, fomentando uma rede de apoio e troca de projetos.

A artista visual Ana Gaspar conecta cores vibrantes e representatividade para pautar o protagonismo negro na arte local. Foto: Nayane Alencar

Apesar do teto compartilhado, a maturidade comercial e os entraves burocráticos continuam sendo os principais gargalos dos microempreendedores. Enquanto a gerência da Endossa aponta que a ausência de capacitação em precificação e a negligência com o marketing digital geram asfixia financeira no início, a fundadora da Pé de Árvore enfatiza o peso sufocante de taxas e impostos diante de um retorno de investimento que, muitas vezes, ainda é modesto. Ambas as gestoras recorrem ao Sebrae como um norteador essencial para profissionalizar as jornadas e garantir um ingresso seguro no mercado de trabalho.

Se por um lado a Endossa atua como um termômetro geográfico que unifica as estéticas de múltiplos estados, a Pé de Árvore foca no impacto psicossocial do BrasilCore, enxergando a tendência como uma resposta terapêutica à rotina urbana acelerada, materializada em um público consumidor majoritariamente composto por mulheres adultas que buscam calmaria, significado e cor. Roberta Quirino, gerente da Endossa, sintetiza a essência dessa engrenagem ao pontuar a diversidade dos cubos:

“Aqui é um Brasil por completo. Eu tenho marcas de todos os estados, praticamente. Eu tenho do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul aqui dentro. O acesso à cultura é perceber que um brinco não é do Sudeste, por exemplo; que o colar foi feito por mãos de nortistas e não de mãos brasilienses. Eu acredito muito que isso seja muito mais parte do Brasil do que tão somente as cores na vitrine”.

A visão é partilhada por Rafaela Coiro, que projeta o futuro da Pé de Árvore no fortalecimento das conexões coletivas: “Nossa intenção é seguir firmando raiz, seguir criando, fazendo arte e entregando isso para a sociedade, entendendo que sozinhos até conseguimos fazer as coisas, mas de um jeito muito mais difícil”.

Rafaela Coiro materializa a proposta da Pé de Árvore ao transformar o cotidiano em poesia visual e acolhimento cultural. Foto: Nayane Alencar

Histórias de resistência e transição comercial

Atrás das prateleiras compartilhadas, a realidade dos produtores locais revela como o artesanato tradicional e as técnicas de reprodução gráfica atuam como ferramentas de sobrevivência econômica e afirmação de identidade.

Na Feira do Guará, o trabalho de Vitória Régia Guimarães Dias, paraibana radicada em Brasília, ilustra a longevidade do artesanato como arranjo familiar. Criadora da Vitória Artesanato, ela acumula mais de cinco décadas dedicadas ao crochê, sendo 22 anos estabelecida em uma banca da feira. A origem de sua produção remonta à infância no sertão da Paraíba, onde, impulsionada pela necessidade financeira e de forma autodidata, aprendeu a manusear lã e agulha para auxiliar na renda dos pais. A venda de peças de porta em porta financiou sua migração para a capital federal, convertendo a técnica manual em um pilar que permitiu a formação de seus quatro filhos.

A rotina de Vitória Régia reflete o esforço físico exigido pelo setor: a artesã divide-se entre o ateliê doméstico e o atendimento na feira de quarta-feira a domingo, estendendo a produção manual até a madrugada. Em suas araras, peças em tons de verde e amarelo dividem espaço com shorts, ponchos e tapetes, capturando diretamente o fluxo de consumo do Brasilcore. “Na mão tem mais valor, é o meu suor, meu sangue, é o meu amor que tá aqui”, pontua a artesã, contrapondo seu processo à padronização da indústria têxtil mecanizada. Apesar da expansão recente da técnica em desfiles e no mercado externo, Vitória Régia aponta barreiras de visibilidade institucional dentro dos próprios pólos comerciais da cidade: “Quando vem jornalista, só mostra comida, pastel, mas o artesanato não mostra”.

A artesã Vitória Régia aposta na autenticidade de peças feitas à mão. Foto: Nayane Alencar

Em outra vertente, a transição da expressão artística para o design utilitário marca a trajetória de Alexsandro Almeida, servidor público, artista visual e fundador da ABA Arte Design. O projeto surgiu do desafio de democratizar o acesso ao seu acervo de pinturas originais, cujos custos elevados por se tratarem de peças únicas limitavam o público comprador. Como designer gráfico, Alexsandro identificou na técnica de sublimação em canecas, azulejos e papelaria uma alternativa viável para transpor suas obras para suportes acessíveis e de alcance massivo. A assinatura visual da marca, registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), foi desenhada à mão e inspirada na geometria analítica da escola Bauhaus e na assinatura do renascentista Albrecht Dürer.

A consolidação comercial de Alexsandro ocorreu a partir de 2016, quando direcionou sua iconografia, antes concentrada em representações sacras e de Orixás, para uma série de pinturas dedicadas à arquitetura e à identidade de Brasília. Atualmente, o repertório focado na capital e na iconografia nacional responde por 95% do faturamento da marca. Para o designer, o movimento Brasilcore se manifesta não pela replicação restrita dos símbolos oficiais da bandeira, mas pela espontaneidade e contraste de uma cultura multicolorida.

Almeida destaca ainda o papel das plataformas colaborativas na superação de entraves burocráticos que afetam funcionários públicos e criadores iniciantes barrados pelas exigências de abertura de pessoa jurídica. “As lojas colaborativas proporcionam que um empreendedor possa fazer o empreendimento sem precisar ter um CNPJ inicialmente”, explica, conectando o formato à recente formalização jurídica do conceito de nano empreendedor no país, essencial para testar a viabilidade de novos produtos no mercado de economia criativa.

Das cores fortes dos Orixás aos traços retos da Catedral: os cartões mostram como Alexsandro Almeida mistura a cultura brasileira com a arquitetura de Brasília. Foto: Kérllon Muniz

Somando-se ao circuito de resgate histórico da capital através das mídias digitais, a marca de Nilton Silva nasceu a partir de um perfil de ilustração no Instagram voltado a contar curiosidades de Brasília através de intervenções gráficas em fotografias urbanas. Sentindo falta de um ícone que promovesse a cidade e defendesse sua memória para os próprios moradores, Nilton criou e registrou oficialmente o personagem “Candango”, cujo visual foi humanizado a partir dos traços da escultura clássica da Praça dos Três Poderes. O projeto baseia-se em um rigoroso processo de pesquisa em livros e arquivos públicos para evitar a propagação de lendas urbanas, gerando publicações que provocam forte identificação afetiva no público local.

A transição da atuação artística digital para o mercado mercadológico, contudo, impõe desafios logísticos severos. Embora o portfólio da marca inclua estampas de regiões administrativas como Sobradinho, Gama e Samambaia, Nilton aponta que cerca de 90% das fotos engajadas pelo público concentram-se no Plano Piloto, evidenciando uma barreira de visibilidade para registrar áreas periféricas como o Sol Nascente. Diante da dificuldade em converter o engajamento das redes sociais em consumo efetivo de produtos autorais fora do centro econômico da capital, o ilustrador utiliza o retorno financeiro dos pontos mais tradicionais para subsidiar produtos e estampas de localidades menos comerciais. Atualmente, a marca expande seu ecossistema com projetos de economia criativa voltados a plataformas virtuais de apoio a novos criadores e ao desenvolvimento de livros de história ilustrados e de colorir focados na identidade candanga.

Moldando o afeto, a ancestralidade e a tradição visual

A busca pelo resgate das raízes, a transição de carreira e a necessidade de pautar a representatividade racial definem o fechamento dos perfis artísticos da capital. Na vertente do artesanato de terra, a trajetória de Ellen Muniz, pedagoga formada pelo IESB e modelo, ilustra como o manuseio da argila permitiu romper com a rigidez do trabalho corporativo em Recursos Humanos. Fundadora da Cores de Ellen, sua produção teve início de forma despretensiosa durante o isolamento da pandemia, impulsionada pelo desejo de manipular cores e pela memória afetiva de um santo de barro que adornava a casa de sua família, de origem alagoana.

Investindo em peças de cerâmica Ellen Muniz, abraça a vivacidade das cores e de expressões populares brasileiras. Foto: Kérllon Muniz

O que começou como um hobby terapêutico com vasos pintados para amigos evoluiu para um estudo aprofundado sobre a potência cultural do barro e a tradição dos povos indígenas e nordestinos na moldagem da cerâmica e na filtragem da água. Hoje, Ellen atua em parceria com um mestre artesão, responsável por moldar as moringas, filtros e pratos estruturais, concentrando seu trabalho autoral no design gráfico e na pintura manual das peças. Seu repertório visual rejeita o minimalismo industrial para abraçar a vivacidade das cores e de expressões populares brasileiras como “Borogodó” e “Meus Trem” esta última, sua primeira peça comercializada, que sintetiza a amálgama cultural de Brasília, cidade que funde as identidades de mineiros, goianos e nordestinos.

A operação da Cores de Ellen ilustra o desafio do “empreendedor-orquestra” na economia criativa, onde o criador é responsável desde a produção logística e contato com fornecedores até a gestão de redes sociais e o cálculo de fretes para despachar mercadorias que já alcançaram clientes na Holanda. Atualmente operando como pessoa física, Ellen mapeia os trâmites para formalização como Microempreendedor Individual (MEI) e busca o suporte de consultorias e cursos online do Sebrae para estruturar o crescimento da marca a nível nacional.

A artesã aponta que o maior obstáculo para o setor ainda reside na desvalorização do produto feito à mão perante a concorrência de grandes redes de utilidades domésticas, que massificam réplicas em escala industrial com preços reduzidos. Para ela, o movimento Brasilcore ganha relevância quando combate a “síndrome de vira-lata” e descentraliza o olhar cultural para além do Plano Piloto, reconhecendo a potência artística latente em regiões como Ceilândia, Taguatinga e Recanto das Emas. “O que eu faço é agregar um pouco de cor e de vida para resgatar a essência que a gente esquece no dia a dia”, afirma Ellen, definindo seu trabalho através de uma única palavra: afeto.

Em perfeito diálogo com essa busca por identidade, a trajetória de Ana Gaspar, fundadora da marca Thewitch, fecha o panorama dos produtores locais evidenciando como a formação acadêmica e a poética visual se transformam em ferramentas de afirmação étnico-cultural. Formada em Artes Visuais, foi no ambiente universitário que a artista consolidou o contato com as técnicas de pintura tradicional em tinta acrílica que fundamentam seu trabalho contemporâneo. A temática central de sua produção concentra-se na representação de corpos negros especificamente de mulheres negras, motivada pelo desejo de dissolver a histórica escassez de referências e protagonismos negros nos campos visuais e artísticos tradicionais.

A atuação de Ana Gaspar em feiras de arte do Distrito Federal funciona como um constante laboratório prático, casando sua poética de resistência com as demandas do mercado de economia criativa. A recepção do público brasiliense demonstra que o consumo de sua produção ultrapassa o valor de simples artigos decorativos, estabelecendo conexões sensoriais e intelectuais profundas. “Tem certas pessoas que você consegue perceber que não é só um artigo de decoração. Eles têm insights lindos que me deixam sem palavras”, relata a pintora, cujo repertório visual apoia-se em cores altamente vibrantes, cenários minimalistas que remetem a um sossego cotidiano e elementos orgânicos, como plantas e mudas.

É através dessa assinatura estética que a obra de Ana Gaspar tangencia o conceito de Brasilcore. A artista enxerga o movimento como uma tendência cíclica de consumo que impulsiona o mercado na busca por elementos que expressam ou sugerem a verdadeira identidade nacional e regional. Ela ressalta que o público tem feito um esforço nítido para se identificar no trabalho do outro, consolidando uma fórmula de valorização mútua entre criador e consumidor.

Muito além da decoração, os desenhos de Ana Gaspar trazem um olhar cheio de afeto e calmaria para a rotina urbana da capital. Foto: Nayane Alencar

Contudo, o ingresso no circuito comercial expõe as barreiras estruturais que microempreendedores negros ainda enfrentam para obter visibilidade e fomento institucional na capital. “Basta olhar para as feiras de arte e perceber que em sua maioria os artistas são pessoas brancas. Acredito que é estrutural, pois poucas pessoas negras são verdadeiramente incentivadas a seguir produzindo, investindo em sua área artística e persistir nela”, argumenta. Como direcionamento para novos criadores que buscam inserção no mercado da economia criativa local, Ana defende a urgência da execução prática e o enfrentamento das feiras como um teste essencial: “Um conselho é produzir essa ideia que você tem na cabeça, produza de verdade. O primeiro momento que você participar de um evento, você vai perceber todos os insights que pode ter, todas as partes boas e ruins do que está propondo a vender”.

Legado econômico: impacto macroeconômico e a herança da COP 30

A força do Brasilcore reside na sua capacidade de transformar manifestações culturais intangíveis em emprego e renda tangíveis. De acordo com indicadores macroeconômicos do Sebrae, os pequenos negócios representam cerca de 97% das empresas brasileiras e são responsáveis por mais de 50% dos empregos formais do país. Quando esse contingente empresarial passou a adotar a identidade nacional como principal argumento de venda, a economia criativa deixou de ser um setor periférico e assumiu o papel de nicho estratégico de desenvolvimento.

​A valorização do produto nacional atuou diretamente na retenção de capital local e no fortalecimento de cadeias produtivas curtas. Ao consumir uma peça de design ou um artesanato que celebra a cultura brasileira, o capital financeiro permaneceu dentro do território, beneficiando desde o fornecedor da matéria-prima artesanal até o distribuidor final. Esse ciclo econômico virtuoso ganhou contornos definitivos com a consolidação de grandes eventos globais recentes no país.

​A realização da COP 30 no Brasil deixou um legado histórico para os microempreendedores da economia criativa. O evento funcionou como uma super vitrine internacional para a produção nacional. A injeção de turismo global e o monitoramento da mídia estrangeira consolidaram uma demanda sem precedentes por produtos que carregavam a autêntica identidade brasileira. O movimento Brasilcore, portanto, consolidou-se histórica e comercialmente, deixando de ser apenas uma escolha estética interna para se tornar uma ferramenta de posicionamento do país no mercado exterior. O reflexo desse período foi o amadurecimento técnico dos pequenos negócios, que se estruturaram para atender exigências internacionais de sustentabilidade, originalidade e manufatura regional.

A consolidação do Brasilcore no Distrito Federal demonstra que o movimento superou a barreira da mera tendência estética passageira para se firmar como um arranjo de sobrevivência e emancipação econômica. Da persistência secular do crochê na Feira do Guará à transposição geométrica da arquitetura candanga para o design utilitário, a identidade nacional provou ser um combustível maleável e altamente rentável. O amadurecimento do setor, impulsionado pelo resgate técnico após grandes eventos e pelo suporte gerencial em plataformas colaborativas, abriu caminhos para que o microempreendedor local dispute espaço em um mercado historicamente dominado por referências externas e pela produção em massa.

Contudo, o desfecho desse processo ultrapassa as métricas de faturamento e frentes de expansão internacional. O verdadeiro impacto do movimento reside na reeducação do olhar do consumidor e no combate ativo à invisibilidade institucional que ainda afeta os criadores manuais. Como bem sinalizam os produtores da capital, valorizar o produto autoral implica romper com a ‘síndrome de vira-lata’ e compreender que a riqueza cultural da região não se limita aos contornos do Plano Piloto. Ao descentralizar a visibilidade para os polos artísticos de Ceilândia, Taguatinga e Recanto das Emas, a economia criativa do DF cumpre seu papel mais nobre. Afinal, o movimento prova que a identidade nacional vai muito além de uma paleta de cores óbvia na vitrine ou de uniformes esportivos de massa; reside, na verdade, no resgate da nossa complexidade. Consumir a produção local tornou-se um ato político de preservação histórica, onde cada peça carrega, fundamentalmente, o suor, a assinatura e o afeto de quem a moldou.