Racismo ambiental no DF: os impactos da desigualdade urbana nas periferias
Enquanto o Plano Piloto concentra áreas verdes e infraestrutura, populações negras e de baixa renda do DF convivem com ilhas de calor, falta de saneamento e negligência estatal. Entenda como o planejamento urbano da capital aprofundou a segregação socioambiental.
Postado em 13/07/2026
Por Ana Luísa Miranda, Júlia de Mesquita, Karol Oliveira e Paola Cieglinski
Brasília foi construída para representar modernidade e planejamento urbano. Enquanto o Plano Piloto se consolidou com grandes áreas verdes, infraestrutura organizada e alta concentração de investimentos públicos, as regiões periféricas cresceram de forma desigual e com pouca assistência do Estado. Ao longo das décadas, populações majoritariamente negras e de baixa renda foram empurradas para áreas mais afastadas, marcadas pela falta de saneamento, menor arborização, problemas de infraestrutura e maior exposição aos impactos ambientais. Diante desse cenário, o conceito de racismo ambiental explica por que os problemas ambientais no Distrito Federal afetam de maneira diferente o centro e a periferia.
Esse termo surgiu nos Estados Unidos, na década de 1980, a partir das denúncias de comunidades negras expostas de forma desproporcional à poluição, ao descarte de resíduos tóxicos e à falta de saneamento básico. No Brasil, o conceito passou a ser utilizado para explicar como populações negras, indígenas e periféricas sofrem mais intensamente os efeitos da degradação ambiental e da ausência de políticas públicas. Mais do que um problema ecológico, trata-se de uma questão social, racial e territorial.
Em Brasília, a lógica histórica de ocupação contribuiu diretamente para isso. Enquanto o Plano Piloto foi criado para concentrar investimentos, arborização e planejamento urbano, trabalhadores responsáveis pela construção da cidade foram afastados para áreas distantes, que mais tarde dariam origem às chamadas cidades-satélites.

Conhecer a história de Brasília ajuda a entender a segregação. Crédito: Júlia de Mesquita
Para o mestre em planejamento urbano Raphael Sebba, essa desigualdade não é consequência do acaso, mas parte da própria formação da capital. “O racismo ambiental faz parte do DNA do Distrito Federal. A gente teve, desde a origem, uma cidade que se empenhou em garantir uma segregação profunda racial e social”, afirma.
Essa segregação territorial permanece visível até hoje. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) e de levantamentos do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) mostram que as regiões periféricas concentram a maior parcela da população preta e parda do DF, grupo que representa cerca de 57,8% dos habitantes do Distrito Federal. Desse total, 46,17% da população se autodeclara parda e 11,65% preta. Essas mesmas áreas também registram os menores índices de renda, infraestrutura urbana e acesso a equipamentos públicos.
Um dos exemplos mais evidentes está relacionado às ilhas de calor urbanas. Regiões como Sol Nascente, Ceilândia e Samambaia sofrem com temperaturas mais elevadas devido à falta de arborização, ao excesso de concreto e asfalto e à impermeabilização do solo. Diferentemente do Plano Piloto, que concentra parques, áreas verdes e vias arborizadas, muitas regiões periféricas cresceram sem planejamento ecológico adequado.
A ausência de cobertura vegetal contribui para o aumento severo das temperaturas locais e piora diretamente a qualidade do ar. Em períodos de estiagem, comuns entre agosto e outubro no Distrito Federal, a situação se agrava ainda mais. A baixa umidade relativa do ar potencializa o desconforto térmico e aumenta os riscos à saúde da população. Enquanto áreas verdes podem registrar temperaturas em torno de 25°C, superfícies asfaltadas e telhados expostos ao sol frequentemente ultrapassam os 45°C e podem chegar a 50°C.

O Parque Olhos d’Água, na Asa Norte, é um dos principais espaços de preservação ambiental e lazer de Brasília.
Créditos: Paola Cieglinski
O acúmulo de lixo e entulho evidencia desafios persistentes de infraestrutura urbana.
Créditos: Karol Oliveira
As condições de moradia refletem desigualdades históricas no acesso à infraestrutura urbana.
Créditos: Júlia de Mesquita
Áreas mais arborizadas concentram melhores índices de conforto térmico e bem-estar urbano.
Créditos: Ana Luísa Miranda
Em meio à urbanização, áreas verdes preservadas seguem essenciais para o equilíbrio ecológico.
Créditos: Karol Oliveira
A falta de infraestrutura básica impacta diretamente a circulação e a qualidade de vida.
Créditos: Júlia de Mesquita
No Distrito Federal, pesquisas de sensoriamento remoto já identificaram picos de temperatura de superfície próximos de 45°C em centros urbanos densos e áreas comerciais consolidadas, como Taguatinga. Assim, embora os institutos meteorológicos divulguem temperaturas máximas de cerca de 33°C, moradores de regiões periféricas submetidos ao asfalto quente e a moradias com cobertura de fibrocimento enfrentam, na prática, uma sensação térmica superior a 40°C.
Além da escassez de árvores, os próprios materiais utilizados nas construções intensificam o problema. Telhados de zinco e fibrocimento, comuns em regiões de baixa renda, absorvem a radiação solar e irradiam calor para dentro das residências. O asfalto também funciona como um acumulador térmico, tornando o ambiente mais quente ao longo do dia e dificultando o resfriamento durante a noite.
A Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) afirma que realiza o mapeamento das áreas verdes públicas e utiliza essas informações no planejamento das ações executadas no Distrito Federal. Segundo o órgão, “compreendemos que a arborização é um trabalho contínuo e minucioso (“de formiguinha”), que exige plantar, acompanhar e replantar, com o objetivo de que, com o passar dos anos, todas as áreas do DF alcancem o nível de arborização consolidada e notória que se vê no Plano Piloto”, ressalta.
Para Raphael, o racismo ambiental não acontece de forma isolada contra indivíduos, mas afeta principalmente territórios ocupados por populações negras e periféricas. Segundo ele, isso explica por que pessoas brancas também podem sofrer as consequências desses problemas ambientais quando vivem nessas regiões.
“O racismo ambiental não é uma manifestação racial direcionada a indivíduos, ele é uma manifestação racial direcionada a coletividades sociais”, afirma.
A precariedade da infraestrutura hidrossanitária também revela como o racismo ambiental opera no DF. Dados do IPEDF, cruzados com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que falhas no esgotamento sanitário e na drenagem urbana são mais frequentes em áreas marcadas pela vulnerabilidade social e racial. O descarte inadequado de resíduos, a ausência de redes eficientes de coleta e o acúmulo de lixo ainda fazem parte da realidade de diversas comunidades periféricas.
O Sol Nascente aparece como um dos principais símbolos dessa desigualdade. Formada a partir de ocupações irregulares e marcada historicamente pela ausência do Estado, a região enfrenta problemas estruturais relacionados à drenagem pluvial, saneamento e manejo de resíduos sólidos. A antiga Vila Estrutural também representa esse processo. A região cresceu ao redor do maior lixão da América Latina, desativado apenas em 2018. Durante décadas, famílias viveram expostas à contaminação ambiental, à fumaça tóxica e ao descarte irregular de resíduos.

A forma como o espaço é planejado influencia diretamente a experiência urbana.
Créditos: Paola Cieglinski
Entre o asfalto e o descarte irregular, o território expõe desigualdades visíveis.
Créditos: Ana Luísa Miranda
O legado do antigo lixão ainda reflete desafios ambientais persistentes na região.
Créditos: Júlia de Mesquita
Espaços de convivência influenciam diretamente a relação da população com a cidade.
Créditos: Júlia de Mesquita
Entre áreas ocupadas e espaços abertos, a cidade revela diferentes formas de organização.
Créditos: Karol Oliveira
A experiência urbana começa nos caminhos que conectam moradia, trabalho e rotina.
Créditos: Júlia de Mesquita
Os efeitos da desigualdade ambiental também aparecem nos dados de saúde pública. Durante surtos de dengue e outras arboviroses, regiões periféricas do Distrito Federal costumam registrar os maiores números de casos. Ceilândia e Samambaia, por exemplo, frequentemente aparecem entre as áreas com maior incidência da doença.
O sanitarista do SUS Riquelme Brito, explica que a exposição a lixo acumulado, esgoto a céu aberto e a falta de áreas verdes favorece o surgimento de doenças como leptospirose, dengue, diarréia, verminoses, doenças de pele e problemas respiratórios. “Isso aparece em territórios com ausência de saneamento, descarte irregular de lixo, maior exposição a enchentes, deslizamentos e menor acesso a serviços públicos de qualidade”, afirma.
Além disso, ele destaca que para as pessoas em vulnerabilidade, lidar com as questões de saúde é ainda mais difícil. “Situações de vulnerabilidade social podem dificultar o acesso ao cuidado e agravar doenças crônicas já existentes. Na prática, percebemos que determinados agravos se concentram justamente nas áreas mais vulneráveis do território, evidenciando a relação entre ambiente e saúde”, acentua.
Estudos cartográficos que analisam a distribuição desses casos mostram que as regiões mais afetadas coincidem com territórios de maior concentração de população preta e parda e de famílias de baixa renda. A falta de regularidade no abastecimento de água leva muitas famílias a armazenarem água em casa, muitas vezes de forma improvisada. Somado à ausência de saneamento adequado e ao acúmulo de lixo, esse cenário favorece a proliferação do mosquito da dengue.
Nesse cenário, o racismo ambiental não aparece só como consequência da pobreza, mas como resultado de um processo histórico de exclusão territorial. A urbanização de Brasília foi marcada pela separação entre espaços valorizados e áreas destinadas à população trabalhadora, majoritariamente negra. Essa divisão determinou quem teria acesso à infraestrutura, qualidade ambiental e serviços públicos e quem permaneceria exposto aos riscos ambientais.
Raphael avalia que essa desigualdade é sustentada por escolhas políticas que priorizam investimentos nas áreas centrais da capital. “Há uma escolha política, e aqui no Distrito Federal isso é muito acentuado porque você tem o Plano Piloto como um elemento simbólico, um patrimônio importante do país. Isso é muitas vezes usado como justificativa para haver uma super atenção e um superinvestimento nas regiões centrais em detrimento das demais regiões”, afirma.
As pesquisas e levantamentos sobre o tema convergem em um mesmo ponto: os problemas ambientais enfrentados pelas periferias do Distrito Federal não são situações isoladas ou acidentais. Eles fazem parte de uma lógica histórica de urbanização excludente, na qual a população negra foi empurrada para territórios menos assistidos pelo poder público e mais vulneráveis aos impactos ambientais.
Do patrimônio à precarização: o contraste urbano entre Asa Norte e Ceilândia
Enquanto a Asa Norte foi planejada dentro da lógica modernista do Plano Piloto idealizado por Lúcio Costa, a Ceilândia surgiu a partir de um processo de remoção populacional. Criada em 1971 pela Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), a região recebeu cerca de 82 mil pessoas retiradas de ocupações irregulares próximas ao centro de Brasília. Desde sua origem, a Ceilândia esteve associada ao afastamento das populações mais pobres das áreas valorizadas da capital.
Raphael afirma que essa lógica foi resultado de escolhas urbanísticas feitas ainda durante a expansão da capital. “Quando Samambaia foi consolidada, quando Ceilândia foi estabelecida, regiões como o Sudoeste ou o Noroeste ainda não existiam. Você poderia ter um empreendimento de política habitacional nas imediações do Plano Piloto, mas isso ativamente não foi feito”, explica.
Essa diferença de origem ajuda a explicar as disparidades observadas até hoje entre os dois territórios. Na Asa Norte, o conceito de “cidade-parque” ainda permanece presente por meio de quadras arborizadas, parques ecológicos, áreas de lazer e uma infraestrutura urbana planejada para oferecer conforto e qualidade de vida.
Já na Ceilândia, a realidade é diferente. A região ainda enfrenta desafios relacionados à falta de investimentos públicos, à infraestrutura urbana precária, à baixa cobertura arbórea e às temperaturas mais elevadas, fatores que impactam diretamente a qualidade de vida da população.

Além das disparidades urbanísticas, os dois territórios também apresentam contrastes raciais significativos. A Asa Norte possui um perfil populacional majoritariamente branco, destoando da composição racial do Distrito Federal, onde mais de 57% da população é negra.
Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD) de 2024 mostram que 60,8% dos moradores do Plano Piloto se autodeclaram brancos. Já a população negra representa 37,6% dos habitantes, sendo 30,2% pardos e 7,4% pretos. Os demais 1,6% se autodeclaram amarelos ou indígenas. A região também apresenta o menor percentual de população negra entre todas as regiões administrativas do Distrito Federal.
Moradora da quadra 212 Norte, Luciana Rezende vive na Asa Norte há oito anos e reside no Plano Piloto há 26. Ela descreve a infraestrutura da região como positiva: “Existem muitas áreas arborizadas e vejo a limpeza e recolhimento de lixo serem feitos de forma constante.” Mesmo diante de problemas pontuais, como os alagamentos causados pelo entupimento de bueiros, Luciana afirma que os impactos no cotidiano são menores: “Não me afetam muito, apenas em períodos de chuva extrema.”

Ela também relata que percebe diferenças significativas entre o Plano Piloto e outras regiões administrativas do DF. “Em outras regiões do DF falta muita arborização, tornando os ambientes mais quentes, e a limpeza urbana não é feita de forma tão constante, é comum a separação do lixo também não ser feita”, afirma.
Moradores de prédios localizados na altura da 214/213 Norte ainda contam com espaços que reforçam a presença da natureza integrada ao ambiente urbano. A poucos metros das residências, basta atravessar a rua para ter acesso ao Parque Olhos D’Água, área conhecida pelo amplo espaço verde, lago, hortas comunitárias, ciclovia e espaços destinados à caminhada, lazer e convivência. O local se tornou um dos principais exemplos da valorização ambiental presente no Plano Piloto e da facilidade de acesso a equipamentos voltados à qualidade de vida.
A presença de áreas verdes também aparece nos dados sobre arborização. Embora não exista um censo oficial com o número exato de árvores apenas na Asa Norte. A Novacap estima que o Plano Piloto possui cerca de 1,5 milhão de árvores distribuídas entre suas quadras, parques e áreas de preservação ambiental.
Ao falar sobre a atuação do poder público, Luciana reconhece os privilégios da região central. “Por morar em uma área central eu acabo usufruindo desse privilégio de ter atenção do poder público nessas questões, mas eu sei que não acontece da mesma forma em outras partes do DF.”
Para Raphael, essa desigualdade na oferta de infraestrutura ambiental acaba sendo naturalizada dentro do próprio planejamento urbano do DF. “O que se conclui dessa forma de desenvolver a cidade é que é aceitável que algumas regiões não tenham acesso a serviços urbanos importantes, de infraestrutura verde, combate a alagamento, arborização urbana, lazer, bem-estar em geral e que outras regiões não possam viver sem isso.”
Na Ceilândia, por outro lado, o crescimento ocorreu sob pressão urbana constante. Atualmente, a cidade é a mais populosa do Distrito Federal. De acordo com a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD) de 2024, a região possui mais de 287 mil habitantes, convivendo com alta densidade demográfica, expansão acelerada e menor proteção ambiental histórica.

Diferentemente da Asa Norte, a urbanização da região aconteceu de forma mais intensa e menos acompanhada por investimentos equivalentes em serviços urbanos, cobertura vegetal e preservação de áreas verdes.
Ao caminhar pelas ruas da Ceilândia, percebe-se uma cidade marcada pelo movimento constante. O comércio popular ocupa boa parte das avenidas, enquanto ônibus, carros e pedestres circulam em ritmo acelerado ao longo do dia. A paisagem urbana é dominada pelo asfalto e pelo tom avermelhado do solo do Cerrado, com a arborização menos presente do que em áreas centrais do Distrito Federal.
Em diferentes pontos da região, também é possível observar terrenos abandonados e espaços que evidenciam desafios relacionados à manutenção urbana. O termo se refere ao conjunto de serviços e obras realizados pelo poder público para conservar a infraestrutura da cidade, a limpeza urbana e os equipamentos públicos, garantindo segurança, mobilidade, higiene e qualidade de vida para a população.
Na Expansão do Setor O, por exemplo, o descarte irregular de resíduos e a presença de lixo espalhado em áreas abertas se destacam como um dos problemas visíveis na paisagem local.
As desigualdades também aparecem na composição racial da população. De acordo com dados oficiais, cerca de 41,7% dos moradores da Ceilândia se autodeclaram brancos, enquanto a população preta e parda representa aproximadamente 58,3% dos habitantes, formando a maioria da cidade.
As diferenças entre os territórios ainda se refletem na mobilidade urbana dos estudantes. Na Ceilândia, o principal meio de transporte utilizado pelos estudantes para ir da casa até a escola é o deslocamento a pé, representando 45,6% dos casos. O ônibus aparece em seguida, com 21,3%, enquanto apenas 18,1% utilizam automóvel. Já no Plano Piloto, o automóvel é o principal meio de transporte, utilizado por 60,1% dos estudantes. O ônibus representa 14,5% e os deslocamentos a pé correspondem a 14,2%. Os dados evidenciam diferenças no acesso à mobilidade e nas condições de deslocamento entre centro e periferia do DF.
Morador da Ceilândia há 30 anos, Felipe Moreira afirma que a região ainda enfrenta problemas ligados à manutenção urbana e aos serviços públicos. “Em relação à infraestrutura, o governo poderia cuidar mais dos locais de lazer para a população.” Felipe afirma que o local tem bastante árvores e que o saneamento é bom, mas, em época de chuva, é preciso dar uma atenção maior aos bueiros. Em relação à limpeza, ele relata que as ruas precisam de mais cuidados, já que possuem mato alto e buracos que demoram a ser arrumados.
Apesar da presença de árvores em alguns pontos da região, a cobertura arbórea da Ceilândia ainda é considerada baixa em comparação a outras áreas do DF. Dados da Novacap estimam que a cidade possui cerca de 250 mil árvores, número que representa aproximadamente 4% de todas as árvores plantadas no Distrito Federal, mesmo sendo a região administrativa mais populosa da capital.
Os impactos desses problemas aparecem diretamente no cotidiano dos moradores. Segundo Felipe, além do mato alto esconder animais peçonhentos, acaba juntando lixo em lugares inadequados. Ele também relata que os buracos podem machucar as pessoas desatentas e em época de chuva danificam os carros. O morador também afirma perceber desigualdades no cuidado urbano entre as regiões administrativas: “Há locais no Distrito Federal em que as administrações cuidam mais da cidade.”

Ao comentar os investimentos públicos na região, Felipe demonstra insatisfação: “O poder público poderia cuidar mais da cidade e proporcionar mais locais de lazer para a população.” Ele também relata dificuldades ao tentar cobrar melhorias. Ao realizar uma denúncia sobre um bueiro que estava entupido, não obteve retorno quando solicitou à administração a manutenção do local. Para ele, a qualidade de vida na região depende de mudanças estruturais. “Mais locais de lazer, melhora na manutenção das áreas verdes, saneamento e recapeamento dos asfaltos modificados”, afirma.
Apesar disso, Daniel Donizet (MDB — Movimento Democrático Brasileiro), presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico Sustentável, Ciência, Tecnologia, Meio Ambiente e Turismo da Câmara Legislativa do Distrito Federal, afirma que o órgão recebe e encaminha denúncias feitas por moradores de áreas mais vulneráveis do DF.
“A comissão recebe demandas de moradores, inclusive denúncias vindas de regiões periféricas, e busca providências junto aos órgãos competentes do Governo do Distrito Federal. Essas manifestações chegam presencialmente, por e-mail e também pela ouvidoria da CLDF”, esclarece.
O relato do morador da Ceilândia, no entanto, evidencia a percepção de que muitas dessas demandas ainda demoram a resultar em soluções práticas para a população.
Segundo Daniel, tramitam na Câmara Legislativa do Distrito Federal propostas que dialogam diretamente com temas como justiça climática, inclusão social e racismo ambiental. Entre elas está o PL nº 1.138/2024, que institui a Política Distrital de Atenção às Emergências Climáticas, Prevenção aos Desastres Ambientais e Combate ao Racismo Ambiental; o PL nº 1.139/2024, que propõe a criação do Dia de Enfrentamento ao Racismo Ambiental e Defesa da Justiça Climática no calendário oficial do Distrito Federal; além do PL nº 2.508/2022, voltado à Política Distrital de Inclusão Social e Ambiental de Jovens. As propostas buscam ampliar a proteção de populações vulneráveis e fortalecer ações voltadas à justiça socioambiental no DF.
Nascido na Ceilândia, o deputado distrital Max Maciel (PSOL — Partido Socialismo e Liberdade) afirma que a desigualdade ambiental entre o centro e a periferia do DF não ocorre por acaso, mas faz parte de um processo histórico de exclusão das regiões periféricas do planejamento urbano e ambiental da capital. Segundo ele, basta circular pelo Plano Piloto para perceber as diferenças na arborização e nas condições ambientais em comparação com cidades como a Ceilândia.
Max também critica a ideia de que apenas o Plano Piloto foi pensado urbanisticamente. Segundo o deputado, Ceilândia e outras regiões administrativas também foram planejadas, mas as questões ambientais ficaram em segundo plano.
“Quando apontamos a diferença de arborização entre as RAs e o Plano Piloto, ouvimos como justificativa o fato de Brasília ser uma cidade planejada, mas Ceilândia e a maior parte das outras cidades do DF também têm projeto. A única diferença é que a arborização e outras questões ambientais não entraram no projeto”, declara.

É natural encontrar ruas bem asfaltadas e gramados verdes nas áreas do Plano Piloto. Crédito: Paola Cieglinski
O parlamentar ainda reforça que essa desigualdade revela escolhas políticas históricas: “É uma questão de prioridade e nada pra periferia é prioridade, nunca.”
Para o sanitarista do SUS Riquelme Brito, essa desigualdade produz consequências diretas na saúde da população. “A ausência de áreas verdes interfere na qualidade de vida, aumenta a sensação térmica e reduz espaços de convivência e lazer, impactando diretamente o bem-estar físico e mental da população.”
Ao discutir as mudanças mais urgentes para reduzir essas desigualdades ambientais, o deputado do PSOL aponta a drenagem urbana da Ceilândia como uma das principais demandas da população. Segundo ele, durante o período chuvoso os moradores continuam convivendo com alagamentos e prejuízos materiais recorrentes. “Agora estamos na seca, mas quando as chuvas começarem, infelizmente, vamos rever as mesmas cenas de todos os anos: a cidade alagando, pessoas perdendo bens, motos sendo arrastadas etc.”
Para ele, obras estruturais precisam ser tratadas com urgência pelo poder público. “O Drenar Ceilândia é mais que necessário, é urgente!”, afirma.
Apesar das tentativas de contato realizadas para a elaboração desta reportagem, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema-DF) e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) não responderam aos questionamentos encaminhados pela equipe de reportagem até o fechamento desta edição.
Lago Sul e Sol Nascente: os extremos da infraestrutura urbana no DF
Separados por cerca de 35 quilômetros, o Lago Sul e o Sol Nascente expõem, na prática, como os impactos ambientais são observados de forma desigual no Distrito Federal. Conhecida pelos casarões à beira do lago e por possuir o metro quadrado mais caro do país, a região administrativa próxima ao Plano Piloto tem uma população majoritariamente branca. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2024, pessoas pretas e pardas representam apenas 21% dos moradores da região, enquanto 42,4% dos domicílios possuem renda superior a 20 salários mínimos.

Já na segunda maior favela do Brasil, Sol Nascente, quase 70% da população é preta ou parda, e metade das famílias vive com apenas um salário mínimo. Nas ruas da região, não é difícil encontrar trechos sem árvores, poeira levantando com a passagem dos carros e pontos em que o asfalto dá lugar à terra batida. A discrepância fica ainda mais evidente em dados oficiais: um levantamento da Novacap mostra que, entre outubro de 2022 e fevereiro de 2023, o Lago Sul recebeu o plantio de 1.510 novas árvores. No mesmo período, o Sol Nascente não recebeu nenhuma árvore plantada pelo poder público. Mas o que esses números revelam quando associados às desigualdades urbanas do DF? Para especialistas e moradores, eles são o retrato claro do racismo ambiental.
Raphael Sebba destaca que é impossível discutir questões de classe no Brasil sem considerar a dimensão racial. Ele explica que a distribuição desigual da infraestrutura urbana acompanha o perfil demográfico das regiões. Como consequência, áreas ocupadas principalmente pela população negra acabam mais expostas à precariedade e aos extremos climáticos. “Você vê que as regiões que mais sofrem com secas prolongadas, fumaça de queimadas e alagamentos — ou seja, as áreas de maior risco — são majoritariamente ocupadas por pessoas negras”, ressalta.
A história local ajuda a entender como a segregação se consolida no território. O Sol Nascente surgiu na década de 1990, a partir da ocupação desordenada de chácaras nos arredores de Ceilândia. Após um crescimento acelerado, a área conquistou autonomia e tornou-se oficialmente uma região administrativa em 2019.
Ao analisar essa dinâmica, Sebba desmistifica a visão de que as ocupações informais são as “culpadas” pela degradação ambiental. Segundo o urbanista, a desigualdade ambiental é fruto da própria falha no planejamento da capital. “A ocupação informal também é um sintoma. Se há ocupação irregular, é porque a política habitacional falhou e as pessoas não tiveram acesso a uma moradia digna.” Ele reforça que a habitação vai muito além de um teto físico, exigindo condições para viver com acesso a lazer, serviços essenciais e, inclusive, à mobilidade.

Os dados da PDAD também refletem como a desigualdade no deslocamento diário acentua a exposição climática. No Sol Nascente, quase 50% das pessoas utilizam ônibus como principal meio de transporte até o trabalho, ficando sujeitos a esperas em paradas muitas vezes sem abrigo adequado, em calçadas sem arborização, sob sol forte ou chuvas intensas. Em diversos pontos da região, os pontos de ônibus se resumem a estruturas pequenas ou improvisadas, sem proteção suficiente contra o calor típico da seca no DF. Já no Lago Sul, onde 89,3% dos residentes se deslocam no conforto de automóveis particulares, a pesquisa sequer registrou amostragem suficiente para o uso de transporte público na região.
Moradora do Sol Nascente, a pedagoga Thaís da Silva relata como a ausência do Estado afeta diretamente a rotina da população. “Sobre arborização, há poucas árvores, e sobre saneamento básico, poucas obras voltadas para a rede de esgoto e drenagem da água da chuva. A pavimentação também é um problema, porque no período chuvoso ocorrem alagamentos. Apesar da coleta regular de lixo, ainda existe descarte irregular de resíduos.”

A desigualdade no plantio apontada pela Novacap é perceptível no próprio ambiente urbano: enquanto no Lago Sul as vias largas e arborizadas ajudam a amenizar a temperatura, no Sol Nascente predominam ruas mais expostas ao sol e com pouca sombra ao longo do dia. Essa disparidade na arborização impacta diretamente a temperatura, a qualidade do ar e o conforto térmico, especialmente durante os períodos de seca intensa.
“Isso acaba causando doenças respiratórias e afetando nosso bem-estar”, afirma Thaís. A ausência de áreas verdes, somada à poeira, à fumaça e aos problemas de saneamento, intensifica o desconforto térmico e agrava a qualidade de vida da população.
De acordo com o sanitarista Riquelme Brito, esses fatores impactam diretamente a saúde coletiva.
“As condições ambientais influenciam diretamente o processo saúde-doença. Territórios com moradias precárias, alta umidade, descarte inadequado de resíduos e falta de saneamento criam um ambiente favorável para transmissão e agravamento de doenças”, complementa.
A precariedade da infraestrutura hídrica também é alvo de críticas do deputado distrital Max Maciel (PSOL), que aponta riscos enfrentados diariamente pela população do Sol Nascente. Segundo ele, a bacia de contenção — barreira física de segurança, geralmente feita de concreto ou alvenaria impermeável, projetada para reter líquidos — da região “não tem nada além de um grande buraco”. Próximo ao local, moradores convivem com a preocupação constante em épocas de chuva forte, especialmente diante da falta de proteção e sinalização adequadas. “Essa diferenciação, inclusive, já custou vidas. Nós já tivemos pelo menos dois casos de afogamento na bacia de contenção do Sol Nascente”, comenta.
Em contrapartida, a realidade vivida por Yan Mello, estudante e morador do Lago Sul, evidencia um cenário completamente oposto. “Gosto bastante daqui. Acho uma região bem arborizada e agradável de viver. No geral, percebo um bom trabalho de manutenção urbana, porque os espaços costumam ser limpos e bem cuidados.” Ao circular pela região, é comum encontrar canteiros preservados, ruas limpas e áreas verdes constantemente irrigadas, mesmo durante os períodos de estiagem. De acordo com ele, a qualidade da infraestrutura e das áreas verdes influencia diretamente na saúde mental e na redução do estresse.

Em resposta sobre a diferença no plantio de árvores, a Novacap afirmou que o planejamento da arborização é realizado a partir do mapeamento de áreas verdes disponíveis e da viabilidade técnica dos terrenos, considerando espaço físico e condições operacionais para a sobrevivência das mudas. A companhia informou que o Distrito Federal não possui um inventário arbóreo completo, o que impede o uso de indicadores de densidade populacional na definição de prioridades, e que a expansão da infraestrutura verde depende de ações integradas e da elaboração de instrumentos como o Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) e o Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU).
Enquanto essas políticas aguardam consolidação técnica, as disparidades se mantêm de forma escancarada. E mesmo tendo acesso a serviços estruturados, Yan reconhece a lógica que sustenta essa segregação:
“Brasília é assim porque existe uma preocupação em manter uma boa imagem para quem vem de fora. Enquanto isso, as outras regiões cresceram sem planejamento. Acho que há um foco muito grande em preservar o status da capital do país”, pontua.

Na prática, a manutenção dessa “boa imagem” se traduz em gramados verdes e canteiros bem cuidados nos bairros nobres, enquanto as áreas periféricas continuam arcando com o ar seco e as consequências do racismo ambiental.
A reportagem também procurou a Administração Regional do Sol Nascente para comentar as demandas relacionadas à arborização, drenagem e serviços urbanos, mas não obteve resposta até a última atualização.
Entre o reflorestamento e o esgoto: o abismo ambiental entre Park Way e Estrutural
Embora estejam a uma distância de pouco mais de 20 quilômetros, o Park Way e o Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA) / Estrutural vivem realidades urbanas e ambientais profundamente distintas. De um lado, uma das regiões mais arborizadas do Distrito Federal reúne áreas de preservação ambiental, conforto térmico e investimentos constantes em reflorestamento. Do outro, moradores ainda convivem diariamente com esgoto vazando pelas ruas, descarte irregular de lixo e uma das menores coberturas vegetais da capital.
A diferença entre os dois territórios também aparece no perfil racial da população. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2024 revelam que o Park Way está entre as regiões administrativas com menor presença de população negra no DF, com 37,2% de moradores pretos e pardos. Já a Estrutural possui a maior proporção de população negra da capital: 75,4%.
Os contrastes se repetem nos indicadores sociais e ambientais. Segundo o Mapa das Desigualdades do Distrito Federal, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a Estrutural concentra uma das menores rendas per capita do DF e uma das maiores taxas de vulnerabilidade social. Segundo o Índice Urbano de Desempenho Ambiental do Distrito Federal (IUDA-DF), elaborado pela Codeplan, a região também aparece entre as localidades com maior incidência de esgoto a céu aberto e precariedade urbana, com um índice de 0,350 de desempenho em saneamento básico. Para referência, o DF apresentou um desempenho de 0,877 nesta dimensão.
Para o mestre em planejamento urbano Raphael Sebba, a distribuição desigual da infraestrutura ambiental acompanha o próprio processo de ocupação da capital. “A desigualdade ambiental é fruto do modelo de desenvolvimento urbano que foi adotado ao longo da história do Distrito Federal”, afirma.
O contraste entre as duas regiões aparece de forma evidente nos índices de arborização. Dados do Observatório Territorial da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) apontam que o Park Way possui cerca de 736 metros quadrados de cobertura arbóreo-arbustiva por habitante, um dos maiores índices do Distrito Federal. Na Estrutural, esse número cai para aproximadamente 7,4 metros quadrados por morador, valor abaixo dos 12 metros quadrados recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O IUDA-DF também evidencia as disparidades entre os territórios. Enquanto regiões centrais e de alta renda concentram os melhores resultados do levantamento, a Estrutural registrou o pior desempenho ambiental do DF, com índice de 0,189.
As diferenças também aparecem na forma como os investimentos ambientais são distribuídos entre as regiões administrativas. Em 2025, o Governo do Distrito Federal realizou o plantio de cerca de 3 mil mudas de árvores do cerrado no Park Way, além da retirada de aproximadamente 200 toneladas de lixo em áreas próximas ao Aeroporto. No ano seguinte, novas ações ampliaram o reflorestamento para cerca de 4,5 mil mudas ao longo da Epia, com o objetivo de reduzir a poluição sonora causada pelo tráfego intenso e melhorar o conforto ambiental dos moradores.
Na Estrutural, ações ambientais também passaram a ser anunciadas pelo poder público, mas em uma escala muito menor. Em novembro de 2025, a administração regional divulgou que 700 mudas de árvores nativas foram plantadas em diferentes pontos da cidade.
No Park Way, a preservação ambiental faz parte da própria identidade da região. Com cerca de 76 quilômetros quadrados de extensão territorial, o bairro abriga duas áreas de proteção ambiental e mantém grandes corredores verdes espalhados entre as quadras residenciais.
Moradora da região há vários anos, Denise Lima, de 53 anos, afirma que a arborização influencia diretamente a rotina dos moradores. “A sensação é de estar em uma área urbana, mas com um contato muito próximo da natureza”, relata. Segundo ela, a presença de árvores ajuda a amenizar o calor, melhora o bem-estar e incentiva o uso dos espaços ao ar livre.

Denise também reconhece diferenças significativas entre o Park Way e outras regiões administrativas do DF. “Aqui existe uma estrutura mais organizada e uma preservação ambiental maior quando comparada a outras áreas”, afirma.
Na Estrutural, a realidade vivida por Adriana Medeiros, de 57 anos, é completamente diferente. Apesar da proximidade de idade entre as duas moradoras, suas experiências urbanas refletem extremos opostos da capital federal.
Enquanto Denise descreve uma rotina marcada pelo contato com áreas verdes e pela sensação de tranquilidade, Adriana convive diariamente com lixo acumulado nas ruas, esgoto que transborda durante o período chuvoso, buracos no asfalto, ausência de calçadas e praças sem estrutura para lazer. Problemas que, segundo ela, afetam diretamente o bem-estar e a qualidade de vida dos moradores.
A Estrutural surgiu a partir da ocupação de famílias que buscavam sobrevivência próxima ao antigo lixão da capital, desativado apenas em 2018. Ao longo dos anos, o território cresceu marcado pela precarização urbana e pela ausência de planejamento adequado.
Adriana descreve a infraestrutura ambiental da região como “péssima”. Segundo ela, o descarte irregular de lixo e os problemas no sistema de esgoto fazem parte do cotidiano da população. “Quando chove, o esgoto entope e vaza nas ruas, causando um mau cheiro”, relata.

Além dos problemas sanitários, a moradora afirma que a ausência de áreas de lazer e a falta de manutenção impactam diretamente a qualidade de vida da população. “As praças estão destruídas. Não temos calçadas e os buracos nas ruas podem causar acidentes”, afirma.
Os impactos dessas condições também aparecem na saúde pública. O sanitarista do Sistema Único de Saúde (SUS) Riquelme Brito explica que regiões marcadas pela ausência de saneamento, descarte inadequado de resíduos e pouca arborização apresentam maior incidência de doenças respiratórias, arboviroses e problemas relacionados à contaminação ambiental.
Segundo ele, a exposição constante ao lixo acumulado, ao esgoto a céu aberto e às altas temperaturas afeta não apenas a saúde física, mas também o bem-estar mental da população.
Para o deputado distrital Max Maciel (PSOL), a desigualdade ambiental no Distrito Federal acompanha a segregação histórica entre centro e periferia.
“Hoje, é essa população quem convive com lixões, rios degradados, esgoto sem tratamento e com a instalação dos empreendimentos mais impactantes ambientalmente”, afirma.

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Mesmo diante de ações recentes de reflorestamento na Estrutural, os dados mostram que as disparidades permanecem evidentes na paisagem urbana das duas regiões. Entre corredores verdes, áreas de preservação e projetos contínuos de arborização, o Park Way mantém uma estrutura ambiental consolidada. Na Estrutural, onde moradores ainda convivem com esgoto vazando pelas ruas e carência de infraestrutura básica, o verde aparece de forma muito mais limitada.
A reportagem também procurou as administrações regionais do Park Way e da Estrutural para comentar as diferenças de infraestrutura urbana e os investimentos ambientais nas duas regiões, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Em uma capital planejada para simbolizar modernidade, as diferenças entre os dois territórios mostram que o acesso à qualidade ambiental continua distribuído de forma desigual. No Distrito Federal, as árvores, o saneamento e até a sensação de conforto urbano ainda revelam quem foi incluído — e quem permaneceu à margem do projeto de cidade.
