A travessia interrompida

No Distrito Federal, mais de 300 mil estudantes estão matriculados em cursos de graduação — mas o sistema educacional ainda falha em mantê-los até o diploma

Lucas Soares

Postado em 02/07/2026

Por Arthur Isaakson, João Pedro Rezende, Lucas Soares e Maximus Hernández

No Distrito Federal, mais de 300 mil estudantes estão matriculados em cursos de graduação nas redes pública e privada, segundo o Censo da Educação Superior 2024, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Uma parcela significativa deles, no entanto, não chegará ao diploma. Sairá antes — não por falta de vontade, mas por uma combinação de fatores que as estatísticas registram como “evasão” e que, por trás dos números, escondem histórias de esgotamento, longos deslocamentos, filas de espera para atendimento psicológico e semestres inteiros cursados no automático.

Concluir a graduação tem se tornado uma meta interrompida para uma parcela expressiva dos brasileiros, com um cenário de transformações profundas na última década. De acordo com o Censo da Educação Superior 2024, do Inep, as matrículas na modalidade a distância (EAD) registraram um salto impressionante de 286,7% entre os anos de 2014 e 2024. No mesmo período, as matrículas nos cursos presenciais despencaram 22,3%. Essa mudança no perfil educacional fez com que o EAD ultrapassasse o ensino presencial pela primeira vez na história, concentrando 50,7% do total de estudantes de graduação no país.

Apesar da forte expansão, o modelo a distância enfrenta uma grave crise de retenção. De acordo com os dados do Mapa do Ensino Superior 2026, publicado pelo Instituto Semesp, a taxa de evasão anual no EAD atingiu 41,6% no Brasil, impulsionada principalmente pela rede privada, onde o abandono anual é de 41,9%, em comparação com 32,2% na rede pública.

O problema se acentua quando analisado a longo prazo. O mesmo relatório do Semesp aponta que a taxa de desistência acumulada na rede privada — considerando o ciclo de 2020 a 2024 — alcançou 64,7% dos alunos, chegando ao pico de 68,1% especificamente nos cursos a distância. Olhando para um panorama ainda mais amplo, o acompanhamento histórico do Inep revela que, entre os ingressantes de 2015 a 2024, a desistência acumulada foi de 65% no EAD e de 59% no ensino presencial.

No modelo presencial, embora os indicadores sejam menores, a pressão econômica e as exigências do mercado de trabalho também cobram um preço alto: a evasão anual no país ficou em 24,8% em 2024. Segundo o Semesp, esse abandono é mais acentuado nos centros universitários e faculdades privadas (26,6%) do que nas instituições públicas (21,4%).

Especialistas apontam que o abismo entre os setores público e privado, sobretudo no Distrito Federal, reflete tanto as condições de ensino quanto o perfil do estudante. No setor privado, muitos alunos precisam conciliar trabalho e estudo, o que os torna mais vulneráveis a oscilações financeiras. O EAD, embora democrático no acesso a quem dispõe dos equipamentos adequados, falha em criar o sentimento de pertencimento necessário para manter o aluno motivado até o último semestre. O quadro é direto: o país consegue receber o estudante na universidade, mas falha em mantê-lo até o diploma.

Como resposta institucional a esse cenário de vulnerabilidade, algumas instituições vêm tentando ampliar suas redes de apoio, embora o desafio permaneça complexo. Na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, as ações de permanência estudantil ganharam volume nos últimos anos. De acordo com o Relatório de Gestão de 2024 da UnB, a instituição saltou de 7 editais de assistência oferecidos em 2016 para 32 editais em 2023, resultando em mais de 11 mil estudantes atendidos pelos programas de apoio ao longo do ano de 2024.

(Gráfico da evolução dos editais de assistência da UnB / Infográfico: Maximus Hernández)

Ainda assim, sem políticas públicas integradas que combatam o abandono desde o primeiro semestre, o diploma seguirá sendo uma conquista interrompida para grande parte dos acadêmicos.

Ingressar no ensino superior marca uma fase de transição complexa. O aluno precisa de autonomia para lidar com pressões acadêmicas, sociabilidade e competitividade. As universidades concentram diversos fatores de risco para a saúde mental, incluindo a sobrecarga de trabalho, expectativas elevadas e incertezas quanto ao futuro profissional. Além da cobrança por desempenho, outros fatores agravam os quadros psíquicos, a depender das particularidades de cada estudante: dificuldades financeiras, a jornada dupla entre trabalho e estudos e a responsabilidade pelo cuidado de familiares. O conjunto produz sentimentos de desamparo e estresse. A desistência da faculdade raramente é uma escolha simples. Por trás das estatísticas de evasão, há relatos de desgaste emocional e de rotinas extenuantes que transformam o ambiente acadêmico em um espaço de adoecimento.

Para Javier Silva, de 21 anos, a saída do curso de tecnologia em design de produtos no Instituto Federal de Brasília (IFB), campus Samambaia, não ocorreu de um dia para o outro. Foi, segundo suas próprias palavras, “como uma morte lenta”. Javier ingressou na instituição em 2022 com um histórico escolar complexo. Morou na Inglaterra entre 2018 e 2020 por causa do pós-doutorado da mãe. Lá, concluiu o ensino médio e chegou a iniciar os estudos em design 3D, matemática e artes. Mas o isolamento durante a pandemia de Covid-19 desencadeou sintomas depressivos. “Fiquei deprimido por ficar sozinho na Inglaterra, comecei a perder as matérias; desisti e voltou para o Brasil para ficar perto da família”, relembra.

De volta ao Distrito Federal, a readaptação exigiu cursar a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e estudar no cursinho pré-vestibular até passar no IFB. Mas a realidade do tecnólogo logo esbarrou no cansaço físico. Morador do Cruzeiro, Javier enfrentava cerca de três horas diárias de ônibus, ida e volta, até Samambaia — dependente de uma única linha de transporte público. As aulas vespertinas terminavam às 18h. A espera pelo transporte de volta somava 40 minutos. “A pior parte é ficar esperando no próprio ônibus. Eu dormia muito no transporte”, conta Javier, que se descreve como uma pessoa diurna e com pouca interação social.

(Aluno esperando ônibus após aula na UnB / Foto: João Pedro Resende)

Somada ao desgaste do deslocamento, a percepção de que o curso era superficial drenou sua motivação. O tecnólogo, projetado para durar quatro semestres, foi se estendendo. Javier percebeu que havia entrado na faculdade muito mais para agradar às expectativas maternas do que por desejo próprio. A saturação veio com a exigência de 200 horas de atividades complementares externas e a pressão para desenvolver maquetes e o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) no tempo livre.

Nesse período, ele começou a lecionar xadrez — com aulas concentradas aos fins de semana e em turnos opostos, nos horários nobres para o público infantil. Também integrou a equipe de críticas de cinema de um portal cultural e ingressou em um curso de teatro. A rotina apertada o levou a reduzir as matérias optativas até parar de frequentar as aulas por completo. Em 2026, sua matrícula foi cancelada por abandono. “Ao parar de aparecer, percebi que ninguém ia atrás, não perguntavam o que estava acontecendo comigo. Esse desgaste do tempo me fez desanimar”, desabafa.

O relato de Javier ecoa nos consultórios de psicologia. Segundo a psicóloga Gianina Pizetta, as queixas mais comuns aos serviços de atendimento institucional e clínico envolvem crises de ansiedade agudas, sentimentos crônicos de desamparo e esgotamento decorrente da sobrecarga. A pressão invisível para corresponder a padrões de produtividade, muitas vezes sem o devido acolhimento pedagógico, atua como gatilho para o adoecimento psíquico.

Gianina aponta que estudos recentes — incluindo recortes de gênero no sofrimento psíquico — mostram que a rotina pesada não afeta a todos da mesma forma. Estudantes que acumulam responsabilidades domésticas ou cumprem jornadas duplas apresentam maior vulnerabilidade ao esgotamento emocional.

Para a psicóloga, remediar a crise de saúde mental no ambiente acadêmico exige ir além do atendimento clínico individualizado. “Para que a faculdade deixe de ser um ambiente adoecedor, são necessárias ações coletivas e institucionais profundas”, explica Gianina. Isso envolve a flexibilização das grades curriculares, a criação de espaços reais de convivência e de escuta, a capacitação do corpo docente para identificar sinais de sofrimento e a desmistificação do fracasso acadêmico. A evasão estudantil se consolida, portanto, não como falta de foco ou desistência voluntária, mas como sintoma final de um sistema que acolhe no vestibular e falha no amparo humano até o diploma.

Quando a cidade afasta o estudante

Se o caso de Javier mostra o desfecho, é preciso voltar ao começo para entender como se chega a ele. O abandono universitário raramente acontece de forma repentina. Antes do cancelamento da matrícula, há um processo gradual de afastamento marcado por faltas frequentes, queda no rendimento, dificuldade de concentração e esgotamento físico e emocional. No Distrito Federal, esse percurso encontra um agravante específico: a distância entre onde os estudantes moram e onde estudam.

A evasão costuma ser associada a dificuldades financeiras, problemas acadêmicos ou questões de saúde mental. Mas, para muitos universitários brasilienses, ela começa antes mesmo da sala de aula. Começa no trajeto.

A dimensão desse desafio aparece nos fluxos diários de mobilidade da região. Levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) em 2026 mostra que cerca de 44 mil moradores do Entorno atravessam diariamente a divisa para estudar no Distrito Federal. Desses, aproximadamente 18 mil dependem de ônibus ou transporte escolar público para realizar o percurso. O maior contingente parte de municípios como Novo Gama, Águas Lindas, Valparaíso e Planaltina (GO), evidenciando a forte dependência educacional em relação à capital.

Para a arquiteta e urbanista Sara Teixeira, a forma como Brasília foi planejada influencia diretamente a experiência de quem depende do transporte público para estudar. “A cidade de Brasília foi feita para ser vivida de carro. Mas nem todos têm essa possibilidade. A alternativa acaba sendo o transporte público, que ainda é limitado no Distrito Federal”, afirma. A organização territorial da capital concentra universidades, empregos e serviços em áreas específicas, principalmente no Plano Piloto, enquanto grande parte da população vive nas regiões administrativas ou nos municípios vizinhos. O resultado é uma rotina de deslocamentos longos e desgastantes que consome horas preciosas do dia. “Quando você vai aceitar um emprego ou iniciar um curso, precisa considerar o deslocamento. Muitas vezes são duas horas por dia só no transporte, fora a carga horária de estudo e trabalho”, explica Sara.

Duas horas diárias equivalem a dez horas por semana. Em um semestre letivo, representam centenas de horas gastas entre ônibus, estações e terminais. Para estudantes que também trabalham, cuidam da família ou dependem de empregos para complementar a renda, esse tempo reduz drasticamente as possibilidades de descanso, convivência social e dedicação aos estudos.

Na prática, a jornada universitária não termina quando a aula acaba. Ela continua nos pontos de ônibus, nas integrações e nas esperas que se acumulam ao longo dos semestres. O desgaste não é apenas físico. É uma erosão silenciosa que retira, aos poucos, a energia necessária para permanecer.

Segundo Sara, as instituições de ensino nem sempre conseguem identificar os sinais desse processo antes que ele se transforme em evasão. A queda no desempenho acadêmico, a redução da participação em sala, os atrasos frequentes e as faltas recorrentes costumam ser interpretados apenas como problemas individuais, quando muitas vezes refletem uma rotina já insustentável. “Muitas vezes, a pessoa começa a pensar: ‘hoje eu não vou pisar na faculdade’. E, aos poucos, deixa de ter energia para lidar com aquela rotina”, relata.

Ao desgaste do deslocamento somam-se outros fatores igualmente relevantes: a insegurança em trajetos noturnos, a pressão financeira para custear transporte e alimentação, a necessidade de conciliar trabalho e graduação e a dificuldade de construir vínculos sociais em uma rotina marcada pela correria. O estudante que trabalha durante o dia, estuda à noite e passa horas no transporte público não está apenas cansado — está operando constantemente no limite.

A evasão, nesse contexto, deixa de ser resultado de uma única decisão. Ela passa a ser consequência de uma sucessão de pequenas renúncias: a aula perdida porque o ônibus atrasou, o trabalho não entregue por falta de tempo, a atividade extracurricular abandonada para priorizar o emprego, a noite de sono trocada por um prazo acadêmico. Isoladamente, cada uma dessas situações parece administrável. Juntas, tornam-se difíceis de sustentar.

Para Sara, enfrentar o problema exige pensar a permanência estudantil para além dos muros das universidades. Fortalecer a autonomia das regiões administrativas, ampliar a oferta de serviços e equipamentos públicos fora do Plano Piloto e melhorar a integração do transporte coletivo são medidas que podem reduzir barreiras estruturais à conclusão dos cursos. “Aproximar o estudo do aluno é uma forma de reduzir a desistência”, afirma.

Enquanto essas transformações não acontecem, milhares de estudantes seguem calculando diariamente se o tempo, o dinheiro e a energia que possuem serão suficientes para mais um semestre. Quando deixam de aparecer nas aulas, a evasão costuma ser registrada apenas como um número nos relatórios institucionais. O processo, porém, começou muito antes. A questão é saber se existe alguém capaz de perceber esse afastamento antes que ele se torne definitivo. Em algumas instituições do Distrito Federal, a tentativa de responder a essa pergunta passa justamente pela ampliação das redes de acolhimento psicológico e acompanhamento estudantil.

A entrada na universidade costuma representar um marco importante na vida de milhares de jovens brasileiros. O início da graduação traz expectativas de crescimento profissional, de independência financeira e de construção de um futuro. Ao mesmo tempo, a rotina acadêmica impõe uma série de pressões emocionais que afetam diretamente a saúde mental dos estudantes. A necessidade de manter boas notas, lidar com cobranças familiares, trabalhar para pagar os estudos e enfrentar as incertezas do mercado de trabalho acaba por transformar a experiência universitária em um ambiente de forte desgaste psicológico para muitos alunos.

Nos corredores das universidades, sintomas como ansiedade, crises emocionais, sensação constante de insuficiência, insegurança e esgotamento mental têm se tornado cada vez mais frequentes. Em muitos casos, o sofrimento psicológico interfere diretamente no rendimento acadêmico, no convívio social e até mesmo na permanência estudantil. Em Brasília, instituições de ensino superior têm buscado ampliar as redes de apoio emocional nos campus, como forma de enfrentar o crescente cenário de adoecimento psíquico entre universitários.

No Campus Sul do IESB, localizado na Asa Sul, a clínica-escola de Psicologia e os serviços de acolhimento ao estudante constituem uma das principais ferramentas de suporte emocional oferecidas pela instituição. O espaço reúne atendimento psicológico supervisionado, projetos de acolhimento e iniciativas voltadas à saúde mental, tanto para a comunidade acadêmica quanto para o público externo.

(Imagens das unidades de psicologia do IESB / Foto: Arthur Isacksson)

Segundo Hannya Herrera, chefe do curso de Psicologia do IESB, os desafios emocionais enfrentados pelos universitários atualmente ultrapassam os limites da sala de aula e abrangem diferentes aspectos da vida social e pessoal dos estudantes. Ansiedade, estresse, sobrecarga emocional, dificuldade de adaptação à rotina universitária e sintomas depressivos são frequentes entre as demandas recebidas pela instituição.

“Muitas pessoas ainda associam o cuidado psicológico à ideia de fraqueza ou incapacidade. Dentro das instituições educativas, esse cenário vem mudando gradualmente, principalmente por meio de campanhas de conscientização e da ampliação dos serviços de apoio emocional”, afirma Hannya.

A professora explica que a clínica-escola funciona como um espaço de formação prática para os estudantes de Psicologia, ao mesmo tempo em que amplia o acesso da população ao atendimento psicológico. Os atendimentos são realizados por estagiários, sob supervisão de professores especializados, o que garante acompanhamento técnico e ético ao longo de todo o processo terapêutico.

Entre os serviços mais procurados está o Plantão Psicológico, projeto que oferece acolhimento imediato a pessoas em sofrimento emocional agudo. O modelo busca atuar como uma escuta inicial qualificada, oferecendo orientação psicológica em situações emergenciais relacionadas à saúde mental.

Apesar de o Plantão Psicológico também atender alunos da instituição, a principal porta de entrada dos estudantes do IESB é o Núcleo de Atendimento ao Discente e Egresso (NAADE). Dentro do núcleo, funciona o NAADEPsi, setor voltado especificamente a atendimentos pontuais relacionados ao sofrimento psíquico associado às demandas acadêmicas.

Segundo Ivanna Carvalho, psicopedagoga do NAADE, as situações mais recorrentes entre os estudantes incluem ansiedade, crises emocionais, dificuldades de adaptação ao ensino superior, problemas de relacionamento interpessoal e sentimentos de solidão. A pressão por desempenho acadêmico e o medo constante do fracasso também aparecem com frequência nos relatos recebidos pelo setor.

“Muitos estudantes chegam emocionalmente sobrecarregados, tentando lidar ao mesmo tempo com a faculdade, o trabalho, a vida pessoal e as expectativas sobre o futuro profissional. O sofrimento emocional acaba impactando diretamente a rotina acadêmica e a permanência desses alunos na graduação”, destaca Ivanna.

A realidade observada pelos profissionais da instituição reflete uma situação cada vez mais comum nas universidades brasileiras. Grande parte dos estudantes enfrenta jornadas exaustivas. Muitos passam o dia inteiro trabalhando, enfrentam longos deslocamentos no transporte público e chegam às salas de aula fisicamente cansados e emocionalmente esgotados. Quando somados às provas, aos trabalhos, às cobranças financeiras e às inseguranças pessoais, esses fatores acabam por criar um ambiente de tensão psicológica constante.

Além disso, Ivanna aponta que ainda há uma dificuldade cultural em falar sobre saúde mental no ambiente universitário. Apesar do avanço das discussões, sobre o tema, nos últimos anos, muitos estudantes ainda têm receio de procurar ajuda psicológica por medo de julgamentos ou de serem vistos como frágeis emocionalmente.

O acolhimento psicológico como ferramenta

Entre os alunos que decidiram buscar apoio psicológico na faculdade está João Gabriel Viana, estudante do 2º semestre de Jornalismo. Durante o início da graduação, ele relata ter enfrentado dificuldades para se adaptar à nova rotina acadêmica e às responsabilidades que surgiram junto com a vida universitária.

“O atendimento me ajudou a entender melhor o que eu estava sentindo e a organizar minha rotina emocional diante das cobranças da faculdade”, afirma o estudante.

O fortalecimento de espaços de acolhimento psicológico nas universidades vai além do atendimento clínico individual. Os projetos desenvolvidos pelas instituições também ajudam a criar redes de apoio, a estimular vínculos sociais e a reduzir o isolamento emocional vivido por muitos jovens universitários.

No caso do IESB Sul, a clínica-escola busca atuar justamente nesse processo de humanização do ambiente acadêmico, oferecendo suporte emocional e ampliando o debate sobre saúde mental no campus. Além do acolhimento psicológico, a atuação dos profissionais e estudantes da clínica contribui para aproximar o cuidado emocional da realidade universitária.

Hannya Herrera ressalta que o impacto social da clínica-escola também se reflete diretamente na permanência estudantil. Segundo ela, muitos alunos conseguem continuar suas trajetórias acadêmicas graças ao suporte emocional oferecido pela instituição. “A clínica-escola desempenha um papel social importante ao ampliar o acesso ao atendimento psicológico e ao auxiliar estudantes que poderiam interromper sua trajetória acadêmica devido ao sofrimento psíquico”, afirma.

Em meio a uma rotina universitária marcada por pressões constantes, cobranças acadêmicas e inseguranças quanto ao futuro, os serviços de apoio psicológico têm se tornado fundamentais para garantir a qualidade de vida e a continuidade dos estudos. Mais do que tratar sintomas isolados, os espaços de acolhimento emocional nas universidades passam a desempenhar um papel essencial na construção de ambientes acadêmicos mais humanos, acessíveis e preparados para lidar com os desafios emocionais enfrentados pelos estudantes.

Se, no IESB, a clínica-escola representa uma tentativa de criar suporte em meio à carência, na maior universidade pública do DF o problema é estrutural — e se aprofundou com a maior greve dos últimos anos. Quando as aulas pararam por mais de 60 dias na Universidade de Brasília (UnB) em 2024 — e o trabalho dos técnicos, por mais de 110 —, o que se rompeu não foram apenas os calendários. Foi a confiança de que a instituição conseguiria reter seus estudantes até o fim. A então reitora Márcia Abrahão reconheceu, em declaração ao Metrópoles, os impactos da paralisação no funcionamento da universidade, na formação dos estudantes, na pesquisa e na extensão.

Os docentes e técnicos reivindicavam recomposição salarial e melhores condições de trabalho — pautas que o governo federal atendeu parcialmente ao longo de 2024. A reportagem não entra no mérito da legitimidade da greve, mas registra seus efeitos sobre os estudantes. Para Giovanna Dantas, de 21 anos, estudante do 6º semestre de Ciência Política, a realidade era outra.

Com cerca de uma hora de deslocamento diário até o campus, ela precisou conciliar as exigências acadêmicas com um estágio e, durante a greve, com a gestão do Centro Acadêmico do curso. A retomada do semestre 2024.1 — o primeiro semestre letivo de 2024 — foi, em suas palavras, “bastante frustrante”. “Mesmo após os três meses de greve, período em que seria possível regularizar o calendário letivo sem grandes alterações, o nosso recesso de fim de ano foi reduzido”, diz. A grade horária saiu distorcida. Como parte dos professores não aderiu à paralisação, Giovanna chegou a ter dias com buracos de até seis horas entre as aulas. “Voltar para casa, pela distância e pelo tempo gasto, não valia a pena, o que acabou afetando minha rotina e a de muitos outros alunos.”

O resultado foi um semestre emendado a outro, sem férias, com 12 matérias obrigatórias em seis meses. “A principal sensação era a de estar no automático, pois, se eu parasse, não sei se conseguiria voltar ao ritmo”, conta. Ela não buscou apoio psicológico na UnB — não por falta de necessidade, mas por conhecer de perto o sistema. “Tinha o privilégio de conseguir ajuda por fora da universidade. Sabendo da demora e da dificuldade do sistema, preferi não entrar nessa fila.”

As duas portas e suas filas

O que Giovanna enfrentou não é exceção. Na maior universidade federal do Centro-Oeste, a rede de assistência estudantil cresceu, mas o suporte em saúde mental ainda atende a uma pequena parcela dos que precisam. Há duas portas de entrada para o cuidado psicológico na UnB. Ambas têm fila. A primeira é o programa de auxílio financeiro, que opera por meio de editais periódicos financiados por emendas parlamentares da bancada do Distrito Federal — sem garantia de continuidade. No edital do Decanato de Assuntos Comunitários (DAC) nº 27/2024, a universidade abriu 300 vagas de auxílio temporário de R$ 2.400 (em parcela única, correspondente ao custeio de seis meses de tratamento, a R$ 400 por mês), para cobrir tratamento psicológico, psiquiátrico ou neurológico ou a compra de medicamentos.

Para Luísa Valadares, advogada formada pela UnB e coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Honestino Guimarães de junho de 2023 a abril de 2024, o número não deixa dúvida: “Evidentemente, 300 vagas para auxílio-saúde-mental são incompatíveis com o universo de 11 mil estudantes.” Mas o problema vai além da conta. Durante a greve, o atraso no pagamento das bolsas teve consequências práticas. “Significa que os estudantes vão passar um mês sem medicação. E quem usa medicação controlada sabe a diferença que faz não tomar um dia de remédio — imagina um mês, imagina semanas.” Os próprios editais de acesso à permanência ficaram suspensos durante a paralisação, deixando os estudantes em situação de vulnerabilidade sem qualquer rede de apoio.

A segunda porta é o Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos (CAEP). Vinculado ao Instituto de Psicologia desde 1975, oferece atendimentos conduzidos por estudantes de psicologia sob supervisão. As vagas são abertas por meio de um formulário eletrônico no início de cada semestre. Quando as vagas se esgotam, o formulário fecha e quem não consegue vaga entra para uma lista de espera que pode se estender por meses, sem garantia de chamada. Não há prioridade para alunos da UnB.

A própria página do CAEP orienta quem ficou de fora a buscar clínicas-escola de outras instituições — o estudante em crise pode ser encaminhado para fora da universidade que deveria acolhê-lo. Luísa, que antes de presidir o DCE dirigiu o Centro Acadêmico de Direito por três anos, conhece essa realidade de dentro: “O que não existe é uma destinação adequada do orçamento público às universidades e, hoje, além da necessidade de recomposição orçamentária, falta uma gestão que saiba gerir os recursos e as prioridades da UnB.”

Hadassa Aurora de Brito Araújo, 34 anos, estudante de Comunicação Social — Audiovisual e representante discente no Colegiado de Residentes da Casa do Estudante Universitário de Graduação, vê o problema sob outro ângulo. Ela mora no espaço que concentra os estudantes em maior vulnerabilidade da UnB: uma comunidade de cerca de 300 moradores que conta, hoje, com apenas uma psicóloga para atender a todos, segundo Luísa Valadares — e onde a distância entre a política e a realidade fica mais visível. “A maior parte dos estudantes já chega quando esgota todas as possibilidades e acaba por esbarrar em processos lentos e extremamente burocráticos, que demandam energia emocional que já não têm”, diz.

Para ela, a universidade tem trabalhado numa lógica de resposta à crise, com pouco foco na prevenção. “Enquanto faltam investimentos estruturais na assistência estudantil, sobra burocracia, demora e desgaste para quem não pode esperar.”

(Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos da UnB/Casa do Estudante / Foto: João Pedro Resende)

Na gestão do Centro Acadêmico, Giovanna acompanhou de perto o que os números não mostram — como o caso de um colega morador de Ceilândia que precisava de cerca de duas horas e meia de transporte para chegar ao campus. Durante a greve, como um de seus professores não aderiu à paralisação, ele se viu diante de uma escolha impossível: passar cinco horas por dia no transporte público, três vezes por semana, para assistir a uma única aula — enquanto trabalhava todas as noites.

O esgotamento físico veio junto com outro: ele começou a se comparar com colegas que não enfrentavam as mesmas barreiras, o que agravou a ansiedade e a sensação de estar ficando para trás. Giovanna tentou contato com a secretaria do curso para abono das faltas. Não houve retorno — os servidores também estavam em greve. Buscaram o CAEP. Depois, outros recursos da universidade. A resposta chegou, mas tarde demais. “Quando conseguimos algum posicionamento sobre a demanda, a situação já se torna inviável para ele continuar na matéria sem reprovar por falta. “Na prática, o suporte acabou não sendo efetivo no momento em que ele realmente precisava”, conta.

O estudante trancou a matéria, ficou para trás no fluxo do curso e chegou a cogitar abandonar a graduação. Ainda está na UnB, mas abalado. O caso, ressalta Giovanna, estava longe de ser isolado: “Muitos estudantes chegavam falando sobre cansaço extremo, dificuldades financeiras, incompatibilidade de horários, problemas com transporte e, principalmente, desgaste emocional por sentirem que estavam ficando para trás academicamente — especialmente os que vinham de outro estado ou não estavam próximos à sua rede de apoio.”

Na Casa do Estudante, Hadassa vê esse padrão se repetir com mais intensidade. O atendimento, quando existe, acontece em um espaço improvisado, inadequado para consultas. “É um ambiente conflituoso, em parte devido à infraestrutura precária, com espaços inadequados para a convivência. Falta reforma e isolamento acústico nas paredes dos quartos que já não têm portas; a acessibilidade é precária”, descreve Hadassa. Até há pouco tempo, ambulâncias vinham semanalmente ao local para atender estudantes em sofrimento psíquico. Aos fins de semana e feriados, a situação se agrava: o transporte Intracampus deixa de funcionar, obrigando os moradores a caminhar cerca de 2,3 quilômetros até o Restaurante Universitário. “Saúde mental não dá para separá-la da pauta de assistência estudantil. Tem estudantes adoecendo mentalmente por lidarem com a insegurança alimentar, por dividirem o tempo entre trabalho e graduação, por morarem longe ou por viverem em condições precárias de assistência.”

A distância entre a política e o corredor

O acúmulo de casos como esses forçou, ao menos institucionalmente, uma resposta. Em novembro de 2024, o Conselho de Administração aprovou a Política de Saúde Mental e Atenção Psicossocial da UnB. Em dezembro de 2025, durante o I Fórum de Saúde Mental, a universidade instituiu o Comitê Intersetorial Permanente de Saúde Mental, Atenção Psicossocial e Promoção de Saúde (CoPESM). A professora Viviane Neves Legnani, da Faculdade de Educação da UnB e diretora da Diretoria de Atenção à Saúde da Comunidade Universitária (DASU), reconhece a necessidade de mudança de paradigma: “Concordo plenamente que a gente tem que sair de um modelo curativo. Nós somos uma instituição de ensino e temos que trabalhar dentro da lógica da promoção da saúde.”

Para isso, a DASU solicitou a todas as unidades administrativas e de ensino da universidade a formação de grupos de acolhimento, com oficinas de capacitação previstas para junho e julho de 2026. Sobre o Programa de Acolhimento e Promoção da Saúde Mental (PROSAM), Legnani explica que o programa é voltado a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica e psíquica, com avaliação de ingresso e monitoramento contínuo. “A UnB não é uma instituição de saúde mental, mas sim uma instituição de ensino”, pondera. “As instituições públicas responsáveis por receber e acolher as demandas totalizantes em saúde mental estão vinculadas à Secretaria de Saúde do Distrito Federal.”

Os dados comprovam o esforço de expansão: a UnB passou de 7 editais de assistência estudantil em 2016 para 32 em 2023, e o número de atendidos cresceu em mais de 4 mil no período, superando 11 mil em 2024 — conforme o Relatório de Gestão de 2024 da própria universidade. Na Câmara Legislativa do Distrito Federal, o PL 1360/2024, aprovado na Comissão de Educação e Cultura em abril de 2025, propõe criar auxílios de permanência, transporte e saúde mental para estudantes da futura Universidade do Distrito Federal — mas ainda aguarda votação final. Mas quem está dentro do sistema tem ressalvas. Luísa, que participou pessoalmente de espaços colegiados de acompanhamento da assistência estudantil durante sua gestão no DCE, é direta: “Tenho minhas dúvidas sinceras se isso realmente vai acontecer. Não adianta criar mais espaços se vão ser esvaziados.”

Ela lembra que o Comitê Permanente de Acompanhamento da Assistência Estudantil — o Copaes — chegou a ser desconhecido pela própria gestão da reitoria. “Se os próprios gestores não sabem que esses espaços existem, fica difícil cobrar o movimento estudantil, que precisa estar presente.” Hadassa concorda: “Considero a criação de ambos importante, porque reconhece institucionalmente algo que o corpo discente já vem trazendo há algum tempo. No entanto, na vida concreta, tem funcionado de forma precária, abrangendo os estudantes de forma desigual.”

Para Giovanna, o diagnóstico é direto: “O suporte tende a não chegar a quem realmente precisa.” Luísa aponta o que está em jogo quando o sistema falha: “Garantir a permanência e a assistência estudantil é garantir que mulheres, pessoas negras e pessoas de periferia permaneçam na universidade pública.” E Hadassa, que vive dentro da universidade no sentido mais literal da palavra, resume o que vê todos os dias: “O adoecimento tem se tornado algo normalizado na universidade, como se fosse esperado que estudantes estivessem permanentemente exaustos para concluir a graduação.”

A evasão raramente aparece nos dados como adoecimento mental. Aparece como trancamento, abandono ou cancelamento por frequência insuficiente. O estudante que some às aulas não preenche o formulário. Simplesmente deixa de aparecer — o mesmo abandono silencioso que começou nas estradas da cidade reaparece nos corredores da maior universidade pública do país. Na maioria das vezes, ninguém pergunta por quê. Para quem está agora decidindo se volta no próximo semestre, a mudança ainda não chegou.