Quem financia o silêncio? Como a falta de renda aprisiona mulheres no abuso e por que o empreendedorismo virou uma saída
Dados do DataSenado apontam que 31% das mulheres residentes no Distrito Federal afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem, realidade que reflete a necessidade da busca por um recomeço
Postado em 07/06/2026
Por: Ana Carolina de Medeiros, Beatriz Fagundes, Carlos Sergio Vilaça, Kaillane de Sousa e Vitor Mendes
A violência doméstica contra as mulheres é um dos problemas estruturais mais persistentes, não só na sociedade brasileira como também mundial. Manifestando-se de formas multidimensionais por meio de agressões físicas, psicológicas, morais, sexuais e patrimoniais, ela destrói lares e silencia potenciais. De acordo com a pesquisa do DataSenado, 33% das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica. No Distrito Federal, 31% das mulheres relataram a mesma situação. E a falta de independência financeira desponta como uma das principais amarras que mantêm as vítimas sob o teto do agressor.
O levantamento aponta que a escassez de recursos próprios anula, na percepção de muitas mulheres, a viabilidade de garantir abrigo e alimentação para si e para seus filhos longe do ambiente hostil. Diante desse panorama de vulnerabilidade sistêmica, dados socioeconômicos reforçam que a inserção produtiva e a conquista da autonomia econômica reduzem drasticamente os índices de reincidência da violência de gênero.
A dimensão estatística desse sofrimento cotidiano no Distrito Federal é traduzida em números alarmantes. Entre as vítimas, a violência psicológica desponta como a mais prevalente e silenciosa, atingindo impressionantes 91% dos casos registrados, seguida de perto pelas violências moral e física. O levantamento do DataSenado também expõe a capilaridade do problema no tecido social do DF, revelando que 70% das brasilienses conhecem alguém de seu círculo próximo que já foi vítima de abusos.
É nesse contexto de trauma coletivo que levantamentos conjuntos do Sebrae-DF e do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) trazem esperança: cerca de 48% das mulheres que decidiram empreender após vivenciarem situações de abuso apontam o desenvolvimento do negócio próprio como o fator diretamente decisivo para alcançar a sua “libertação”, como o caso de Kézia Alves, que decidiu empreender e montar o próprio brechó.
Com o objetivo de reverter os dados, iniciativas do poder público e de Organizações Não Governamentais (ONG’s) se complementam no Distrito Federal. A atuação integrada dessas frentes busca garantir o acesso à qualificação profissional e ao apoio psicossocial, fundamentais para a emancipação econômica e quebra do ciclo de violência.
Secretaria da Mulher do DF e a articulação institucional
A Secretaria da Mulher do Distrito Federal atua de forma transversal na formulação de políticas de gênero, operando uma rede de 31 equipamentos públicos que inclui quatro Centros de Referência à Mulher Brasileira (CRMBs). O perfil das usuárias acolhidas nessas unidades revela mulheres em situação de violência doméstica que acumulam vulnerabilidades sociais, enfrentam dificuldades de inserção profissional e carecem de redes de apoio estruturadas. Nos atendimentos cotidianos, a dependência financeira e o medo da insegurança material, principalmente quando há filhos envolvidos, despontam ao lado da dependência psicológica como os principais impeditivos para o rompimento do ciclo de abuso. Diante disso, a gestão estadual compreende a autonomia econômica como um eixo estruturante e indissociável da proteção jurídica para que as vítimas reconstruam suas vidas com segurança.
Para enfrentar esses desafios, que envolvem impactos emocionais e a ausência de renda, a secretaria investe no fortalecimento da empregabilidade e no fomento de negócios próprios. A secretaria firmou 14 acordos de cooperação técnica que viabilizaram emprego formal a 365 mulheres vítimas de violência, que permanecem acompanhadas por equipes multidisciplinares. No campo da formação, 3.255 mulheres certificadas e 13.846 atendimentos em cursos práticos voltados a áreas de alta demanda e rápida geração de renda com baixo investimento inicial, como serviços administrativos, copeira, porteira, cuidador de idosos, gastronomia e estética. Para garantir a sustentabilidade dessa transição, há uma articulação permanente com as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) e uma atuação intersetorial com as áreas de assistência social, habitação, educação e saúde.
A consolidação dessa autonomia também conta com suporte material temporário. Regulamentado pelo Decreto nº 45.989/24 e pela Portaria nº 49 de abril de 2026, o programa Aluguel Social concede um auxílio financeiro mensal de R$ 600 por até doze meses para despesas de moradia segura de vítimas em extrema vulnerabilidade socioeconômica, sob relatórios técnicos de equipes multidisciplinares e exigência de medida protetiva vigente. O retorno espontâneo aos centros aponta a eficácia das ações: além da redução drástica nas chances de retorno ao convívio com o agressor, há registros frequentes de mulheres que, após conquistarem a independência financeira, retornam voluntariamente para compartilhar experiências e incentivar outras vítimas.

Mulheres que transformam vidas de mulheres
Na aula inaugural de mais uma turma do Mulheres Mil, a mestre de cerimônia circula pelo palco com desenvoltura. De sorriso fácil, apresenta o cronograma do evento e chama as pessoas para subirem ao palco.
A mulher em questão é Ana Célia Alves. Aos 43 anos, recém-divorciada e morando de aluguel com o filho, ela encontrou nos estudos uma forma de transformar a realidade em que vivia. No Instituto Federal de Brasília (IFB), formou-se em Secretariado Executivo e está cursando Secretariado Escolar.
Por meio do Mulheres Mil, formou-se, na turma de 2025, em Cuidador de Idosos, profissionalizando, assim, o trabalho que já exercia. Ela conta que o diploma possibilitou aumentar a quantidade de plantões e complementar sua renda.
“Aumentei meu faturamento por meio da iniciativa. Foi gratificante participar do curso. Fiz novas amigas, conheci novas pessoas e construí uma rede de apoio.”
Por 27 anos, Ana Célia viveu em um relacionamento abusivo sem se dar conta disso. Quando percebeu a situação, procurou terapia e, apenas com a ajuda de profissionais, conseguiu compreender a realidade que vivia e identificar que sofria de dependência emocional gerada pelo abuso.
Para ela, foi mais difícil identificar os problemas da relação pelo fato de não ter sofrido agressões físicas, mas violência patrimonial e psicológica.
“Havia outros tipos de violência. E, nesse contexto, os anos foram passando sem que eu percebesse que se tratava de abusos, porque, quando você está dentro desse tipo de relação, é muito difícil reconhecer o abuso. Você chega a enxergar o que acontece com outras mulheres, mas não consegue perceber o seu próprio contexto.”

Redescobrindo a si mesma
Mãe de oito filhos, Ana Paula Santos Freitas é uma mulher determinada a correr atrás daquilo que acredita ser o melhor para ela e sua família. Aos 38 anos, saiu do aluguel há três meses e realizou o sonho da casa própria, onde vive com as seis filhas, quatro delas com neurodivergências, e planeja uma viagem de férias com as meninas.
Em meio à vida corrida e prestes a se formar em Gastronomia pelo Instituto Federal de Brasília (IFB), ela mantém viva a paixão pelos estudos. Fez cursos de bartender e sonha em abrir o próprio negócio.
Hoje, como professora voluntária no Instituto Eva, Ana Paula tem paixão por ensinar o que aprendeu a mulheres que sofreram violência doméstica e quem a vê cuidando dos filhos, estudando e cheia de vida nem imagina que, há seis anos, ela passava por momentos difíceis.
“Gosto muito porque eu aprendo com elas, e elas repassam um pouquinho de conhecimento para outras mulheres. Mas não é só sobre as aulas, é sobre compartilhar nossas lutas”, destaca.
Ana Paula entende que há mulheres que não conseguem se livrar dos abusos não porque não querem, mas porque a situação é muito mais difícil do que as pessoas imaginam.
“Tem mulheres que moram de aluguel e dependem financeiramente do marido, assim como eu dependia. Muitas perdem a vida e não têm a mesma oportunidade que eu tive de recomeçar. Faz seis anos que me separei e vou dizer: foram os seis anos mais produtivos da minha vida. Acredito que, depois da separação, tive uma grande evolução.”
Traços de uma vida marcada pela violência
Ana Paula cresceu em um lar conturbado. Filha única de uma mãe alcoólatra, saiu de casa aos 15 anos para morar com o primeiro namorado, com o objetivo de mudar de vida. De repente, viu o sonho se transformar em pesadelo: o homem que jurou amá-la passou a agredi-la e a mantê-la em cárcere privado.
Após a separação, Ana Paula se envolveu com a pessoa que viria a ser pai de seis de suas oito filhas. Foram mais 14 anos em uma relação marcada por violência psicológica e financeira. Sentindo-se presa e estagnada, Ana Paula havia deixado de cuidar de si mesma e dedicava toda a atenção ao marido e aos filhos. A culpa e o medo do que poderia acontecer caso se separasse eram constantes. Foi preciso chegar a uma situação extrema, envolvendo ameaças aos filhos, para que ela tomasse a iniciativa de romper o relacionamento.
Quando conseguiu sair daquela realidade, sua primeira atitude foi se inscrever no Encceja para concluir os estudos. Aos poucos, foi percebendo que o mundo fora daquele ambiente era diferente do que imaginava. Ana Paula sequer sabia o que eram redes sociais e, após a separação, apesar de possuir uma medida protetiva contra o ex-marido, sentiu como se estivesse saindo da prisão.
A filha mais velha, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), chegou a ser agredida pelo pai. Ainda assim, por orientação médica, Ana Paula autorizou o contato entre os dois.
Caminhos para uma nova vida
Para chegar ao divórcio, Ana Paula contou com uma rede de apoio formada por profissionais que hoje considera amigas. Em 2020, conheceu o Instituto Eva e recebeu acompanhamento psicológico, o que a ajudou a compreender a situação em que vivia e a reconhecer comportamentos que havia naturalizado.
Em uma conversa com a psicóloga, confidenciou que não sabia se defender. Ao ouvir da profissional que isso acontecia porque ela nunca havia sido defendida nem protegida, percebeu a importância de ensinar às filhas aquilo que não deveriam aceitar de outras pessoas, para que a história não se repetisse.

Hoje, Ana Paula considera a terapia fundamental na vida de uma mulher. “Acredito que toda mulher precisa de ajuda psicológica. Nós acordamos pensando, dormimos pensando no que vamos fazer amanhã, no que vamos estudar, no que vamos cozinhar. A psicóloga ajuda a gente a respirar, a descansar e até a cuidar melhor do próprio corpo.”
Desde a separação, muitas coisas mudaram. Ana Paula fez cursos de bordado, auxiliar administrativo e empreendedorismo e, por meio deles, conquistou independência financeira.
“Hoje eu sonho, algo que antes não fazia. Sonho. Se você voltar seis anos no tempo, olhar para mim naquela época e depois olhar para quem sou hoje, vai se perguntar quem era aquela mulher: uma mulher que não sorria, amarga e sofrida.”
O medo e a coragem como formas de caminho
Em um brechó localizado em Valparaíso de Goiás, Kézia Alves transformou a paixão por brechós em negócio próprio. A moda sustentável sempre esteve presente em sua vida: das peças que ganhava na infância aos brechós que passou a frequentar na adolescência.
O sonho de criança da jovem era conhecer o shopping para comer batata-frita e hambúrguer. Ao entrar no Conjunto Nacional, aos 13 anos de idade, ficou deslumbrada. Para a menina que sempre vestiu peças doadas, as lojas de roupa chamaram sua atenção e a deixaram maravilhada.
Kézia passou a infância na Estrutural, onde viu a mãe trabalhar como garçonete e catar recicláveis no desativado Lixão da Estrutural, mas nunca aceitou que aquele fosse o seu destino. Sabia que mudar a realidade em que vivia era difícil e que suas opções eram escassas, mas tinha esperança de uma vida fora dali.
Com 11 anos de idade, já trabalhava em pizzaria, enquanto conciliava o trabalho com a mãe na feira, vendendo verduras, para conquistar sua independência financeira. Na adolescência, foi jovem aprendiz e estagiária, mas mantinha o sonho de empreender.
Aos 21 anos, voltou a estudar, cursou Estética e Cosmética, formou-se e abriu o próprio negócio na área. Apesar da afinidade, Kézia passou por burnout devido a demandas emocionais mal resolvidas.
“Eu não quis mais saber daquilo, mas sabia que queria empreender, que queria fazer algo diferente. Não queria trabalhar oito horas por dia presa, queria liberdade.”
Em 2023, aos 25 anos, engravidou de sua primeira filha e, ali, mesmo sabendo que demandaria muito esforço e tempo, Kézia teve certeza de que gostaria de trabalhar para si mesma. Em 2025, abriu a loja na região administrativa de Vicente Pires. O início foi instável, com problemas familiares, ela abria e fechava a loja para cuidar do irmão no hospital.
“Eu tinha começado, mas não conseguia falar muito sobre isso, nem vender bem. Então, meu irmão saiu do hospital e, na primeira semana, pude pegar firme no brechó, mas logo em seguida, em dezembro, minha avó foi internada com diagnóstico de câncer, e em janeiro, ela faleceu.”
Kézia se viu em mais uma situação difícil: tinha perdido a mulher que a havia criado como filha, mas não parou, porque acreditava que a avó gostaria que ela continuasse.
Após a perda, em abril, manteve-se firme na moda sustentável, o que acreditava que realmente valia a pena. Mudou o brechó para Valparaíso de Goiás, onde conquistou clientes. A jovem vê que a persistência e a perseverança foram essenciais para o sucesso do estabelecimento. Aos 28 anos, realizando o sonho do próprio brechó, ela ainda busca curar as feridas abertas durante a infância.
Marcas de uma infância roubada
Aos cinco anos de idade, Kézia perdeu o pai. Aos oito, sofreu abuso sexual do tio, a pessoa mais próxima do que tinha como figura paterna. Apenas aos 21 anos teve consciência da gravidade da situação, que durou anos, e, finalmente, encontrou explicações para as perguntas sem respostas que a acompanharam até a vida adulta.
“Muitos anos atrás, ainda tive contato com ele. As pessoas, e as mulheres da minha família, não entendem bem os efeitos de um abuso sexual, então foi algo para o qual não tomaram providências.” Há um ano, ela procurou a Justiça, mas foi informada de que a denúncia não teria eficácia.
Ao longo de sua vida, precisou lidar com as consequências da violência que viveu. Com 12 anos, teve seu primeiro relacionamento com um homem mais velho: uma relação abusiva, em que sofria agressões físicas e psicológicas. Kézia ainda não compreendia a situação e pensava ser apenas uma “adolescente rebelde”, como descreve.

As promessas de mudança do homem sempre a faziam voltar à relação conturbada, marcada por violências e traições. A busca pelo amor e pela proteção que não teve durante a infância fez com que ela aceitasse qualquer coisa em troca do mínimo de afeto.
A vida começa quando um ciclo termina
A relação durou sete anos e foi a razão pela qual Kézia procurou ajuda psicológica. Para ela, as sessões de terapia foram fundamentais para perceber as próprias tristezas e frustrações, os comportamentos desajustados e o vício em pornografia durante a adolescência. Com o tempo, passou a entender que havia um motivo por trás de todo aquele sofrimento.
Somente aos 21 anos, entendeu que o que viveu não era normal. A culpa e o autojulgamento por se considerar uma criança obscena e vulgar foram substituídos pela consciência de que ela não tinha culpa e de que estava assumindo a responsabilidade de outra pessoa para si.
“Hoje, penso em um dia cursar Psicologia, por ter me identificado com a área. Uma das coisas que digo é que, primeiramente, Deus, mas, em segundo lugar, quem salvou a minha vida foi a Psicologia: a terapia. Ela me ajudou a encontrar o meu caminho, a entender que eu conseguiria ressignificar minhas dores e meus traumas, e que não havia violência alguma que se sobressaísse diante da minha vontade de viver, crescer e evoluir.”
Programa Mulheres Mil (IFB)
Dentro da estrutura educacional do Distrito Federal, em parceria com a Secretaria da Mulher, o Instituto Federal de Brasília (IFB) atua diretamente na ponta da qualificação profissional com o Projeto Mulheres Mil. Criado originalmente em 2007 e retomado pelo governo federal em 2023, o programa se firmou como uma política pública estratégica direcionada a atender às demandas das mulheres das comunidades das regiões administrativas. A coordenação do projeto destaca que o foco central do programa vai muito além do ensino de um ofício técnico, ele também é voltado à promoção da autonomia financeira, psicológica e ao rompimento definitivo de ciclos de violência doméstica.
Na prática, o programa integra a qualificação profissional em segmentos de mercado como saúde e administração a diretrizes pedagógicas voltadas para a elevação da escolaridade e o pleno exercício da cidadania. Segundo a coordenadora do programa, Letícia Érica Ribeiro, o processo se fundamenta em um acolhimento humanizado, desenhado para entender a complexidade da realidade de alunas que, frequentemente, chegam fragilizadas pelos índices de violência psicológica e moral comuns aos contextos de abuso.

A experiência na coordenação do projeto evidencia que o impacto social das salas de aula ultrapassa os limites da inserção no mercado de trabalho, atuando de maneira significativa no combate à depressão, no resgate da autoestima e no fortalecimento de vínculos comunitários e redes de solidariedade entre as participantes.

O programa Mulheres Mil desempenhou o seu principal papel na vida de Ana Célia SOBRENOME?? ao oferecer a ela novas perspectivas de futuro por meio da educação. Após concluir os cursos de secretariado escolar, cuidadora de idosos e estar cursando secretariado executivo, ela não apenas expandiu suas competências, mas também conquistou uma significativa ampliação de sua renda. Essa emancipação financeira foi o elemento crucial que lhe garantiu a segurança e a independência necessárias para romper, em definitivo, o ciclo de violência e se libertar do vínculo com o seu agressor.
Fora dos portões dos Institutos Federais, as redes de apoio se estendem a espaços em toda a capital, como a Casa Luar, que oferece acolhimento e atividades terapêuticas para mulheres da comunidade do São Sebastião. O impacto do projeto é evidenciado pela transformação pessoal das alunas, que encontram novos propósitos e formas de superar ciclos de exclusão social.
Casa Luar: o movimento que devolve a autoestima e a auto suficiência
Como parte do esforço de descentralização das redes de proteção e capacitação no Distrito Federal, a Casa Luar atua como um polo de suporte a mulheres na região administrativa de São Sebastião. O espaço funciona de forma complementar às políticas públicas e às ações do setor “privado”, focando em duas frentes principais de intervenção: o suporte terapêutico e o fomento ao empreendedorismo feminino local. A atuação da entidade é baseada na premissa de que a recuperação dos impactos emocionais da vulnerabilidade social e da violência doméstica é um pré-requisito para que as usuárias consigam se estabelecer no mercado de trabalho ou gerir seus próprios negócios de forma sustentável.
Na prática, a Casa Luar oferece um ambiente de acolhimento que busca mitigar o isolamento social comum a mulheres que residem em áreas com menor concentração de equipamentos públicos tradicionais. Ao integrar o atendimento focado na saúde mental a oficinas práticas de geração de renda, o espaço atua como um elo territorial estratégico, preparando as moradoras da comunidade para acessar programas de maior escala, como os cursos rápidos de artesanato.


Essa dinâmica de reestruturação pessoal e superação é exemplificada não só pela história de Ana Célia, mas também pelo relato de Liliane Aparecida Ribeiro, de 43 anos, frequentadora das atividades promovidas aos sábados pelo espaço em São Sebastião. Ela relata que o contato inicial com a instituição foi marcado por um intenso processo de descarga emocional, no qual o compartilhamento de vivências e o desabafo coletivo nas rodas de conversa serviram como ponto de partida para processar seus próprios traumas. Encorajada pela rede de apoio e pelo ambiente de acolhimento, Liliane encontrou a motivção necessária para retomar a trajetória acadêmica, o processo culminou recentemente em sua aprovação no vestibular da Universidade de Brasília (UnB), consolidando a educação superior como a nova etapa de sua autonomia e emancipação.

Instituto EVA: Empoderamento, Valorização e Autoestima da mulher
Fundado em 1999 e sob gestão reestruturada desde o período da pandemia, em 2019/20, o Instituto EVA atua na articulação de serviços de assistência para mulheres em situação de vulnerabilidade. A partir do projeto Casa EVA, a organização implementou um fluxo de atendimento que integra suporte jurídico, assistencial e acompanhamento psicológico individual e em grupo. Os diagnósticos obtidos nas rodas de conversa apontam que a baixa escolaridade, a ausência de renda própria e a falta de creches ou redes de apoio para o cuidado dos filhos constituem os principais entraves para o desligamento de parceiros agressores. Diante disso, a entidade direciona sua atuação para a oferta de oficinas de qualificação de curto prazo.
“Deu muito certo, porque é algo que quem não teve o interesse de abrir o seu próprio negócio, mesmo assim não deixa de empreender de casa, o que é um grande facilitador, pois elas podem dar atenção aos filhos, à família”, comentou, Edina Maria Sampaio, coordenadora da instituição.
A grade de cursos é planejada para atender à demanda por geração de renda imediata a partir do próprio domicílio. Entre as principais frentes estão as qualificações em serviços administrativos, panificação, tendo como exemplo o projeto “Pães e Prosas”, que atendeu cerca de 300 inscritas, e o segmento de estética e beleza, que abrange técnicas de trancistas, maquiagem e design de sobrancelhas. Existem também as oficinas focadas em artesanato, que capacitam as participantes na produção de crochê, velas, laços e fitas, além de artigos religiosos como terços, santas e imagens customizadas. Para viabilizar o início da atividade autônoma, o instituto capta insumos e ferramentas de trabalho por meio de editais e parcerias institucionais, fornecendo kits básicos às egressas. Mesmo sediada no Recanto das Emas, a associação estende suas atividades de forma itinerante para as regiões de São Sebastião, Paranoá, Itapoã, Taguatinga e Santa Maria, registrando o atendimento de aproximadamente 600 mulheres por semestre.


A limitação do espaço físico da sede e a barreira cultural de beneficiárias que temem perder auxílios governamentais ao começar a empreender figuram como as principais dificuldades operacionais da instituição. Para além das oficinas, membros da diretoria, que é composta inclusive por egressas do sistema de proteção, realizam o acompanhamento presencial de vítimas a delegacias, exames periciais e unidades de saúde.
Esse processo de transição social é ilustrado pela trajetória de Ana Paula Santos Freitas. Após ingressar no instituto em situação de dependência econômica e sofrer os impactos de um contexto de violência doméstica, ela se encontrou na necessidade de transformar sua vida e estruturar sua própria independência. Atualmente independente financeiramente, Ana Paula retornou à instituição para atuar como professora voluntária, auxiliando na formação prática de novas turmas que buscam ingressar no mercado de trabalho.
Geração de renda rápida e a solidariedade encontradas no Instituto Espalhando Amor
O Instituto de Desenvolvimento Social Espalhando Amor no DF nasceu da trajetória de Cléo Almeida. Após atuar como voluntária na Defesa Civil e em grandes eventos, ela uniu um grupo de amigos que a acompanhava nas redes sociais para formalizar a ONG em 2013. O que começou na varanda de sua casa e passou por várias comunidades, hoje ocupa um antigo galpão de lixo reciclado que foi totalmente transformado por meio de doações e esforço coletivo.
“Tudo o que a gente oferece é de graça para a comunidade ou para quem quer se capacitar. A pessoa não precisa trazer nada, nem no curso de crochê, nem de pintura, nem de confeitaria, nada. Só basta ter o interesse em aprender”, afirma Cléo Almeida, fundadora do instituto.
O foco principal da organização é claro: a capacitação e geração de renda rápida para que mães desempregadas possam trabalhar em suas próprias casas enquanto cuidam de seus filhos. “A gente não tem aquele suporte de ficar dando cesta básica. O que a gente tem aqui, a gente investe em oficina, em equipamento para ensinar as pessoas”, explica a coordenadora.
A eficácia do projeto se reflete nos números e no impacto real na vida das alunas. Somente no ano anterior, o instituto capacitou 350 mulheres e, em parceria com 16 voluntários e facilitadores, nome utilizado pelo instituto para nomear profissionais que se oferecem para dar aulas, oferece oficinas que vão desde a culinária até o artesanato de alto valor enviado para feiras, como a costura criativa com retalhos de jeans, fuxico e bolsas de crochê que chegam a ser vendidas por R$ 250.


“Nós temos a oficina do crochê, onde elas aprendem a fazer algumas artes e poder expor em feiras que nós somos convidados a participar. E às vezes elas mesmas, por iniciativa própria, oferecem para o vizinho, a gente ajuda elas a criarem o Instagram para mostrar o que fazem, conseguir encomendas”, detalhou Nélia Ramos, voluntária do instituto desde 2022.
Para além da geração de renda, o Espalhando Amor lida diariamente com as dores da comunidade. Ao notar indícios de violência doméstica ou abuso contra mulheres, crianças e idosos, a equipe faz a escuta inicial e aciona imediatamente uma rede prática de proteção (como conselheiros tutelares locais e ONGs parceiras que oferecem abrigo imediato), contornando as dificuldades burocráticas dos canais tradicionais de denúncia. A emancipação pelo trabalho se prova real quando o ciclo de violência é quebrado.
“A gente tem professoras que saíram desse caso de vulnerabilidade. Elas chegaram aqui sem ter o que comer, aprenderam a costurar. Hoje elas são professoras de costura… Elas saíram desse caso de violência, elas já saíram de casa, hoje conseguem pagar o seu aluguel. Então, para a gente, isso é uma coisa grandiosa. E a gente encontra nos sinais ou aqui nas paradas de ônibus, as pessoas vendendo o nosso pão caseiro… Para quem vivia de ajuda de cesta básica, hoje é uma empreendedora”, destacou a coordenadora com muito orgulho.
Mesmo enfrentando a escassez de recursos financeiros e a falta de voluntários fixos para manter as portas abertas durante toda a semana, já que Cléo concilia a gestão da ONG com seu trabalho regular, o instituto realiza milagres diários, provando que a organização e a seriedade suprem a ausência de verbas.
A importância do coletivo e a feirinha de empreendedoras da Ceilândia
Quando a vulnerabilidade se choca com a necessidade de sustentar uma família, o empreendedorismo comunitário surge como resposta coletiva, materializando o dado de que o negócio próprio é o fator decisivo para a libertação de muitas mulheres. O coletivo de Empreendedoras da Ceilândia é o reflexo exato desse movimento. Nascido há três anos da vivência de sua fundadora, Brisa Santana, que se viu desempregada e como mãe solo, o projeto começou de forma despretensiosa após o fim de outras feiras livres por falta de organização.
“Eu juntei um grupo de vendas com umas amigas minhas e ali a gente iniciou as vendas. Aí a gente fez um anúncio na rede social e através desse anúncio a gente captou, na primeira semana, 90 mulheres. Então a gente viu que era uma carência da mulher empreendedora; a mulher estava empreendendo e queria mostrar seu produto”, aponta.
O sucesso foi imediato. Da primeira feira física com 50 expositoras que utilizavam apenas mesas simples, o coletivo foi expandindo ao longo dos anos e hoje abriga 380 mulheres. Mais do que um espaço de comércio, o projeto desenvolveu uma forte identidade visual que virou marca registrada na comunidade: o rosa. A fundadora explica o impacto dessa escolha: “A gente sempre padronizou, se vocês repararem todo mundo tá de rosa, todo mundo tá de forro rosa, a gente padronizou desde o início. E aí ficou a marca, né? As pessoas nem sabem às vezes o nome do coletivo, mas sabem que é um coletivo de mulheres e elas usam rosa. Virou nossa marca registrada”.


Corpo e mente caminhando juntos
Em um coletivo com tantas mulheres empreendedoras e fortes, apresentou-se ali, uma nova necessidade: a de cuidar da mulher. No primeiro semestre, o foco das atividades esteve principalmente na saúde mental, oferecendo rodas de terapia em grupo todas as sextas-feiras para acolher as carências das participantes, uma resposta direta à alta incidência de violência psicológica identificada no DF.
No campo técnico, parcerias garantiram capacitações de quase seis meses em marketing digital, precificação, logomarca e empreendedorismo. No horizonte próximo, o grupo aguarda a liberação de uma emenda parlamentar junto à Secretaria da Mulher para lançar oficinas na área da beleza (trança e maquiagem), planejando criar a “Tenda da Beleza” nas feiras.
Atuando em quatro dias de feiras noturnas, o coletivo transformou-se em um ecossistema estritamente feminino em sua cadeia de valor. Da alimentação ao transporte por aplicativo, a prioridade são as fornecedoras mulheres. Embora tenha nascido na Ceilândia, o projeto expandiu suas fronteiras e hoje acolhe mulheres vindas do Sol Nascente, Pôr do Sol, Estrutural, 26 de Setembro, Águas Lindas e até de Formosa (GO). Nas palavras de sua idealizadora, a virada de chave do projeto foi humana:
“O coletivo hoje é diferenciado desses de feira que vocês vão ver por aí, porque a gente tem conectividade. A gente sabe o que a outra passa, a gente se trata como família, a gente tem carinho pelos filhos das outras, tem cuidado… O intuito, no começo do projeto, foi elas mostrarem o trabalho delas, e acabou que virou rede de apoio mesmo. Hoje a gente é o apoio para essa mulher e, no final, lá na ponta, a gente se reuniu para empreender”, afirmou Brisa.
Uma mão que levanta a outra
O coletivo lida diretamente com a escassez de recursos de suas participantes. Para as mulheres que ainda não possuem estrutura própria de tendas, o projeto disponibiliza espaços compartilhados utilizando tendas obtidas por doações. Nos locais onde a montagem de grandes estruturas não é possível, como na Universidade Católica, as feirantes utilizam apenas mesas e cadeiras, garantindo que a falta de dinheiro não seja um impedimento para trabalhar.
A transformação socioeconômica promovida pela feira atua diretamente na raiz da dependência financeira que, como aponta o DataSenado, prende tantas mulheres ao ambiente hostil. O impacto da feira tocou inclusive realidades de violência doméstica extrema logo no início do projeto. A independência financeira obtida nas calçadas da Ceilândia deu a mulheres a oportunidade de traçar novos destinos seguros, confirmando que a autonomia econômica reduz drasticamente os índices de reincidência da violência de gênero.
“Primeiramente, o projeto foi para mulheres vulneráveis mesmo, mulheres que vendiam alguma coisa em casa. Já tivemos meninas que saíram do ciclo de violência através da feira, sim. Tiveram recurso através da feira, compraram uma passagem e voltaram para a sua terra. Tiveram coragem de pegar seus filhos, comprar uma passagem, sair, ter um ofício, ter coragem de empreender até em outro estado”, completa a idealizadora do projeto.
