Muito além do artesanato: o empreendedorismo feminino no capim dourado
De Tocantins ao Distrito Federal, mulheres transformam o capim dourado em fonte de renda, autonomia financeira e desenvolvimento familiar, conciliando tradição, gestão e empreendedorismo.
Postado em 07/06/2026
Por Júlia Curado, Letícia Dias, Maria Eduarda Ribeiro, Ruth Teles e Ymária Raíssa

Entre fios de buriti, feiras movimentadas e horas dedicadas ao trabalho manual, milhares de mulheres encontraram no capim dourado mais do que uma tradição artesanal. O que começou como um conhecimento transmitido entre gerações tornou-se uma importante fonte de renda e autonomia financeira para famílias que dependem da atividade para sustentar suas casas, investir no futuro dos filhos e construir seus próprios negócios.
Reconhecido pelo brilho natural que lembra o ouro, o capim dourado (Syngonanthus nitens) é, na verdade, uma sempre-viva da família Eriocaulaceae. Essa riqueza natural ganhou notoriedade a partir das comunidades artesãs de Tocantins, por meio de uma tradição secular que remonta às técnicas do povo indígena Xerente. Esses saberes foram assimilados na região do Jalapão (TO) e desenvolvidos pela comunidade quilombola de Mumbuca a partir dos anos 1920.
Ao longo das décadas, a atividade expandiu sua circulação para outros estados, chegando a mercados, feiras e centros de comercialização em diferentes regiões do país, incluindo o Distrito Federal. O reconhecimento histórico e cultural desse processo culminou com a promulgação da Lei Federal nº 15.005/2024, que declarou oficialmente essa arte como manifestação da cultura nacional. Além disso, para salvaguardar sua autenticidade e origem geográfica, a região do Jalapão detém, desde 2011, o selo de Indicação de Procedência (IP) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Nesse percurso de expansão, a atividade deixou de ser apenas uma prática tradicional para se consolidar também como uma alternativa de empreendedorismo feminino fortemente vinculada à bioeconomia, modelo que gera negócios e desenvolvimento a partir do uso sustentável de recursos naturais. Hoje, as mulheres lideram diferentes etapas dessa cadeia produtiva. São elas que produzem, administram estoques, definem preços, atendem clientes, participam de feiras e buscam novas oportunidades de comercialização.
Além da habilidade artesanal, elas precisam lidar com os desafios comuns a qualquer negócio: concorrência, custos de produção, logística, divulgação e adaptação às mudanças do mercado. O esforço dessas mulheres se insere em um setor robusto. Segundo levantamento oficial do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o artesanato no Brasil movimenta aproximadamente 3% de seu Produto Interno Bruto (PIB), juntando a força de trabalho de mais de 8,5 milhões de pessoas. No contexto regional da colheita sustentável, a atividade enquadra-se perfeitamente no conceito de economia familiar, onde o trabalho dos membros do lar é essencial para a subsistência, gerando uma renda média de até dois salários mínimos mensais por artesã.
Os resultados, portanto, vão muito além das vendas. Em muitas famílias, a receita gerada pelo artesanato representa independência financeira, acesso à educação, investimento em projetos pessoais e maior participação das mulheres nas decisões econômicas do lar. O capim dourado, nesse contexto, deixa de ser apenas matéria-prima e passa a ocupar um papel central na transformação social de quem trabalha com ele.
Para compreender como esse processo acontece na prática, esta reportagem acompanha diferentes trajetórias de mulheres que encontraram no artesanato uma oportunidade de crescimento econômico e realização pessoal. Histórias marcadas por desafios, reinvenções e conquistas que ajudam a explicar por que o empreendedorismo feminino se tornou uma das principais forças por trás dessa cadeia valiosa.
Mais que artesanato, um futuro para a família
A rotina da artesã Cleide Viana da Silva Porto começa muito antes da abertura das bancas nas feiras. Entre a produção das peças, os compromissos do trabalho formal e os cuidados com a família, seus dias são marcados pela necessidade constante de administrar horários, responsabilidades e fontes de renda. A realidade dela ajuda a compreender um aspecto comum entre muitas mulheres empreendedoras: a busca por autonomia financeira sem abrir mão das responsabilidades familiares.

Formada em Pedagogia, Cleide construiu uma trajetória profissional na área da educação, atuando tanto na rede particular quanto na Secretaria de Educação do Distrito Federal. Durante anos, conciliou o trabalho em sala de aula com outras demandas da vida pessoal. Com o passar do tempo, porém, o desgaste físico e emotional da profissão começou a pesar.
“O dar aula é uma atividade bem complexa, exige muito, é meio cansativo”, relata ao lembrar do período entre 2014 e 2016, quando começou a enxergar no artesanato uma alternativa possível para reorganizar sua rotina profissional.
O contato com o capim dourado abriu espaço para uma nova perspectiva, mas também exigiu um alto domínio técnico e capacidade de inovação. Diferente das peças tradicionais do passado, que tendiam a ser mais frágeis, o artesanato contemporâneo absorveu inovações para ganhar mercado. Um exemplo disso é a técnica da “vareta”, criada há cerca de 20 anos, que consiste em inserir um arame (geralmente de espessura nº 20) por dentro do capim, elevando a durabilidade da peça para 20 anos ou mais. Curiosamente, no negócio familiar de Cleide, o desenvolvimento dessa inovação técnica contou com o apoio e colaboração de seu esposo, Cloves Conceição Martins.

A produção em si também exige um planejamento logístico rigoroso e paciência: antes de iniciar o trançado, o capim deve ser hidratado por quatro horas em água (ou mantido envolto em um pano molhado) para que ganhe a maleabilidade necessária para ser trabalhado sem quebrar.
Hoje, Cleide divide sua rotina entre três frentes de trabalho. Durante a semana, mantém um emprego fixo em Taguatinga. Nos intervalos, dedica-se à criação em seu ateliê, focando no design e na remodelagem de peças, como a transformação de tiaras em gargantilhas, para diversificar o portfólio e fugir da massificação industrial. Para elevar o valor agregado e atrair o mercado consumidor de Brasília (e o cobiçado público estrangeiro), ela integra ao capim sementes nobres, como a pachiúba e a jarina, esta última conhecida como “marfim vegetal” por sua dureza de pedra. O acabamento, por sua vez, utiliza linhas sintéticas douradas que, por serem mais resistentes ao ressecamento, substituem a linha tradicional em algumas peças comerciais.
Aos fins de semana, Cleide assume a banca da família na feira da Torre de TV no Distrito Federal, um dos principais centros consumidores mapeados para o escoamento dessa produção. Para que essa dinâmica funcione, o apoio familiar é indispensável. Cloves administra outro ponto de venda da família e participa ativamente da manutenção do negócio. A divisão das tarefas permite que a atividade permaneça funcionando de forma contínua, garantindo maior estabilidade financeira ao núcleo familiar.

Mas a história de Cleide não é marcada apenas pelos desafios do empreendedorismo. Sua trajetória também carrega experiências pessoais que ajudam a explicar a determinação com que conduz o negócio. Antes do nascimento de Sofia Viana Martins, sua filha caçula, ela enfrentou duas gestações interrompidas e precisou passar por um tratamento médico rigoroso para conseguir levar a gravidez adiante. O processo exigiu esforço emocional, disciplina e investimento financeiro. “Gastei demais, mas ela nasceu super saudável, com muita saúde”, relembra Cloves.

Hoje, além de Sofia, o casal também compartilha a criação de Alice Luz da Silva, sobrinha acolhida como filha. É justamente pensando nas oportunidades oferecidas às duas meninas que Cleide continua investindo tempo e energia no negócio construído a partir do artesanato.
A renda obtida com o capim dourado ajuda a custear as despesas da casa, manter a estabilidade financeira da família e apoiar projetos que ultrapassam os limites da própria atividade artesanal. Entre eles está a trajetória esportiva de Alice, atleta de ginástica acrobática que alcançou índices para disputar competições internacionais.
Mais do que complementar o orçamento doméstico, o artesanato se tornou uma ferramenta de planejamento e construção de futuro. Na rotina de Cleide, cada peça produzida carrega não apenas a tradição de uma técnica artesanal, mas também o esforço de uma mulher que transformou trabalho manual em oportunidade de crescimento para toda a família.
Capim dourado e autonomia feminina em Tocantins
Se na rotina de Cleide o capim dourado funciona como parte de uma engrenagem familiar no Distrito Federal, no interior de Tocantins, onde a produção está presente em pelo menos 16 municípios, ele aparece conectado a regulamentações ambientais estritas e a outras dimensões da vida das mulheres. Na Associação dos Artesãos de Capim Dourado Pontealtense (ACDP), o trabalho com a fibra se mistura com renda, autonomia e também com bem-estar emocional. Entre diferentes gerações, o que antes era apenas tradição passou a ser também uma escolha: uma forma de sair de trabalhos informais, complementar a renda ou encontrar equilíbrio na rotina.
No entanto, para que esse ecossistema continue gerando frutos, a sustentabilidade ecológica é um fator mandatório. O manejo da planta é rigorosamente regido pela Lei Estadual nº 3.594/2019 e pela Portaria NATURATINS nº 362/2007. Essas normas determinam que a colheita só pode ocorrer estritamente entre 20 de setembro e 30 de novembro, período que garante a maturação das sementes.

Além disso, para garantir a perpetuidade da espécie, as artesãs seguem à risca a regra de cortar e dispersar as flores (as “cabecinhas”) no exato local da coleta, assegurando o replantio natural. A preservação do ecossistema das veredas e do buriti (Mauritia flexuosa), cuja seda (a fibra extraída do olho do buriti) é tradicionalmente usada para costurar o capim, é considerada fundamental não apenas para o equilíbrio hidrológico do Cerrado, mas para a própria sobrevivência econômica e saúde mental das comunidades tradicionais e quilombolas.
Um dos casos mais marcantes dessa transformação em solo tocantinense é o de Maria Luiza Ramos da Silva, de 61 anos. Natural de Jerumenha, no Piauí, ela chegou à região ainda na época em que o território pertencia a Goiás, antes da criação do estado de Tocantins. Durante anos, trabalhou como cozinheira em casas de família, tendo o trabalho doméstico como principal fonte de renda.

A mudança começou há cerca de 25 anos, quando uma amiga da associação lhe apresentou o capim dourado e ensinou os primeiros pontos da costura. O aprendizado foi rápido e, em pouco tempo, o artesanato passou a ocupar o lugar do antigo trabalho. “Com três meses trabalhando com o capim dourado, eu larguei a cozinha dos outros e passei a trabalhar para mim mesma”, lembra.
A partir daí, Maria Luiza passou a dedicar mais tempo à produção, enfrentando jornadas longas para dar conta dos pedidos e consolidar o artesanato como sua principal fonte de renda. Hoje, já aposentada, ela mantém a produção em menor escala, mas com a sensação de ter conquistado independência financeira a partir do próprio trabalho.

Em outra realidade dentro do mesmo ecossistema está Ildene Florêncio de Almeida, de 49 anos. Funcionária pública municipal em Tocantins, ela vive com uma renda fixa limitada e encontrou no capim dourado uma forma de complementar o orçamento da casa. Há cerca de 20 anos, incentivada por uma amiga, começou a aprender a técnica sem grandes pretensões. Com o tempo, a atividade deixou de ser apenas curiosidade e se tornou uma fonte importante de renda extra.
Hoje, associada em Ponte Alta, Ildene se dedica principalmente à produção de peças maiores, como vasos, cestas e mandalas, que têm maior valor de mercado e circulação para outras regiões do país. Mas o impacto do artesanato vai além da renda. “O capim dourado para mim é como uma terapia. É um divertimento”, conta. Ela destaca também o papel dos encontros e cursos de aperfeiçoamento promovidos pela associação, que reúnem artesãs e fortalecem o aprendizado coletivo.
O fortalecimento institucional de grupos como a ACDP reflete as diretrizes do Plano de Desenvolvimento do Arranjo Produtivo Local (APL) do Capim Dourado, formalizado em 2014. Esse plano visa fortalecer as associações locais e reativar a AREJA (Central de Associações), uma medida vital para garantir que o lucro real da atividade retorne e permaneça nas comunidades tradicionais, protegendo o patrimônio regional contra a biopirataria e a venda ilegal do capim in natura para fora do estado de Tocantins.
Para Ildene, Maria Luiza e tantas outras, cada peça produzida representa não só uma complementação financeira, mas também um espaço de convivência, preservação e equilíbrio emocional. Nesse contexto, o empreendedorismo feminino ligado ao capim dourado consolida-se na geografia brasileira não apenas como uma vibrante atividade econômica, mas como uma poderosa estratégia de cuidado, autonomia, identidade e estabilidade na vida cotidiana.
Mulheres que transformam tradição em negócio
As trajetórias de Cleide, Maria Luiza e Ildene ajudam a compreender uma realidade que se repete em diferentes regiões do Brasil. Embora cada uma tenha encontrado no capim dourado respostas para necessidades distintas, seja a busca por autonomia financeira, a complementação da renda familiar ou até mesmo um espaço de bem-estar, todas fazem parte de um movimento maior de fortalecimento do empreendedorismo feminino.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Dados do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (SICAB) mostram que mais de 77% dos mais de 358 mil artesãos profissionais cadastrados no país são mulheres. O artesanato consolidou-se como uma importante ferramenta de inclusão produtiva e geração de renda, especialmente por permitir que muitas trabalhadoras conciliem a atividade econômica com as responsabilidades familiares.
A presença feminina também cresce no universo do empreendedorismo de forma mais ampla. Levantamento analisado pelo Sebrae aponta que, no quarto trimestre de 2025, o Brasil alcançou o recorde de 10,4 milhões de mulheres à frente de seus próprios negócios. Elas representam 34,3% dos empreendedores do país, um avanço significativo quando comparado aos anos anteriores.
Apesar desse crescimento, os desafios permanecem. As mulheres empreendedoras dedicam, em média, 34 horas semanais aos seus negócios, enquanto entre os homens a média é de 40 horas. Ao mesmo tempo, mais da metade delas também é responsável pelo sustento financeiro da família. Segundo o levantamento, 53% das empreendedoras brasileiras são chefes de domicílio, acumulando responsabilidades econômicas e domésticas.
A realidade observada nas histórias desta reportagem reflete esse cenário nacional. Entre a gestão da casa, o cuidado com os filhos, a participação em feiras e a produção artesanal, muitas mulheres transformam o empreendedorismo em uma estratégia de sobrevivência, independência e construção de futuro.

No universo do capim dourado, essa presença feminina é ainda mais marcante. Segundo informações do Sebrae Tocantins, as mulheres representam a maior parte da força de trabalho envolvida na cadeia produtiva da fibra no Jalapão. São elas que lideram associações, preservam técnicas tradicionais e mantêm viva uma atividade que atravessa gerações.
O reconhecimento desse trabalho também se reflete em iniciativas como a Festa da Colheita, realizada na comunidade quilombola de Mumbuca. O evento valoriza a produção artesanal, incentiva práticas sustentáveis de manejo e fortalece a visibilidade das artesãs da região. Com apoio do Sebrae desde 2021, a iniciativa busca ampliar mercados, estimular a inovação e fortalecer os pequenos negócios ligados ao capim dourado.
Mais do que uma atividade econômica, o capim dourado tornou-se um instrumento de transformação social. Das feiras do Distrito Federal às associações do Tocantins, mulheres seguem convertendo conhecimento tradicional em renda, autonomia e oportunidades para as próximas gerações. Em cada peça produzida permanece não apenas o brilho característico da fibra dourada, mas também a marca de um empreendedorismo feminino que sustenta famílias, preserva saberes e movimenta economias locais.



