Redes que sustentam a quebrada: como o terceiro setor transforma cotidiano da maior RA do DF
Diante de lacunas históricas no fornecimento de serviços básicos na Ceilândia, projetos sociais e comunitários assumem o protagonismo e utilizam o esporte, cultura e promoção do bem estar como ferramentas para desburocratizar o acesso à cidadania.
Postado em 19/06/2026
Por: Arthur Lima, Fabricia Melo e Ivana Pinheiro
A Ceilândia, atualmente a maior Região Administrativa do Distrito Federal, com mais de 350 mil habitantes, convive desde a sua fundação com lacunas deixadas pelo poder público na prestação de serviços essenciais. Essa realidade está diretamente relacionada com o contexto de seu surgimento, na década de 1970, por meio da Campanha de Erradicação das Invasões (CEI), que transferiu de forma abrupta e indiscriminada milhares de famílias de trabalhadores da área central para a periferia.
Diante dessa carência estrutural, o terceiro setor assumiu um papel estratégico. Na região onde a identidade cultural pulsa, o cotidiano é transformado por redes de auto-organização, que promovem a cidadania através da arte, cultura, prática de esportes e promoção do bem estar e saúde. Como parte desse movimento, o Instituto Evolui e o Instituto Nacional de Projetos, Estudos e Assistência Social – INPEAS utilizam caminhos distintos e complementares para ocupar espaços e gerar soluções reais nascidas da comunidade.

O contraste entre essas instituições mostra que elas atuam exatamente onde o Estado deixa de agir de forma efetiva. De um lado, o Instituto Evolui atua desde 2019, desenvolvendo ações voltadas para a comunidade através da cultura, educação e ação social. Do outro, o INPEAS atua de forma institucionalizada, convertendo recursos de emendas parlamentares em frentes de capacitação técnica, escolinhas de esporte e assistência. Ambos formam uma rede de acolhimento que fortalece a população.
Sociólogos e geógrafos, como Aldo Paviani em seu livro clássico “A conquista da cidade: movimentos populares em Brasília”, apontam que a tradição de mobilização social em Ceilândia é uma resposta ao planejamento excludente da capital federal, que centraliza os recursos públicos no Plano Piloto, obrigando a periferia a construir suas próprias alternativas de sobrevivência e lazer. Segundo as pesquisas desses profissionais, o terceiro setor não funciona somente como um agente paliativo, mas também como motor de inclusão produtiva e retenção de talentos locais das áreas de tecnologia, sustentabilidade, artes e esportes.
O legado da cultura de rua
Ao desembarcar na Estação Central do metrô da Ceilândia, os passageiros são logo envolvidos por uma movimentação que vem diretamente da praça central. Lá, onde o concreto se funde à arte urbana, a Casa do Hip Hop – DJ Jamaika se destaca como um verdadeiro elemento da resistência cultural periférica.

Para compreender a importância desse movimento para a região, é necessário entender o surgimento do próprio hip hop. Este é um movimento cultural criado na década de 1970, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, com o objetivo de combater o racismo e a desigualdade social presentes ali através da união da dança (o break), da música (rap), e das artes visuais (grafite). No Brasil, esse movimento artístico surgiu na década de 1980, se consolidando através de grupos e artistas como o Racionais MC’s e o DJ Jamaika, pioneiro do rap brasiliense, nascido em Taguatinga, e que iniciou sua carreira na Ceilândia.

Para manter esse legado vivo, o DJ Ocimar fundou a Casa do Hip Hop, juntamente com o rapper Kabala e sua esposa Laiz Cecília. Nela é oferecida uma programação diversificada, que vai de exposições artísticas a oficinas gratuitas de DJ, break, grafite e rima, além da famosa “Batalha da Casa”, onde a juventude encontra um espaço para se expressar. Essa engrenagem funciona graças à estrutura do Instituto Evolui, que aposta no acesso à cultura como ferramenta de desenvolvimento humano, fortalecimento da comunidade e criação de senso de pertencimento.
O Instituto atua em diversos outros projetos de igual importância, como o “Turismo Mais Brasília”, criado para promover a inclusão, diversidade, sustentabilidade e valorização das RA’s, e o “Eco Inova”, que promove ações sustentáveis com foco em economia circular, inclusão produtiva e geração de renda. Estima-se que através dos projetos desse instituto, mais de 3000 pessoas foram beneficiadas.

A criação de toda essa estrutura é indissociável da história de vida de sua liderança, que é marcada pelo amor à arte e à cultura periférica. “Eu tenho mais de 30 anos de hip hop, comecei em 1993”, conta o DJ Ocimar, fundador da Casa e presidente do Instituto Evolui. “Nessa caminhada com projetos sociais, levando o hip hop para escolas, presídios, palestras e outras entidades, conheci muitos amigos. Um deles foi o DJ Jamaika, que é um ícone para o pessoal de Ceilândia e de Brasília. Com o tempo, percebi que precisava ter o meu próprio instituto, para não ficar dependendo das entidades dos outros. Foi quando criamos o Instituto Evolui”, explica.
A semente da Casa do Hip Hop brotou logo em seguida, impulsionada pelo luto e pelo legado. “Abrimos nossa sede na Ceilândia Centro, do lado do metrô, e tive a ideia de fazer ali a Casa do Hip Hop. Eu precisava de um mano comigo que tivesse história, então procurei o Rivas, irmão do DJ Jamaika. Ele me disse que estava com a mesma ideia porque via essa necessidade na cidade. Fechamos a parceria e ele sugeriu colocar o nome do irmão, que tinha falecido há um ano. Assim nasceu a Casa do Hip Hop de Ceilândia DJ Jamaika, que funciona dentro do instituto e é liderada por nós dois e por nossas esposas, a Laiz Cecília, vice-presidente do Evolui, e a esposa do Rivas”, detalha Ocimar.

Manter esse legado vivo exige esforço e diálogo com as novas gerações. “O Jamaika deixou um legado e nós estamos propagando isso. Carregar esse nome é um peso e uma responsabilidade grande. Por isso, fazemos as batalhas de MC todas as últimas quintas-feiras do mês e fomentamos oficinas de break, de grafite, que é a área do Rivas, um dos melhores grafiteiros que conheço, e de DJ, que é a minha praia”, orgulha-se o presidente.
O impacto dessa ocupação cultural mudou, inclusive, a geografia oficial do local. “Temos exposições de grafite na nossa galeria e fazemos esporte e cultura em frente, na praça. Aquela praça, que era chamada Praça do Metrô, agora mudou o nome para Praça do Hip Hop, onde fizemos até um monumento. Estamos realmente fazendo barulho e fazendo acontecer para uma geração nova que não teve o contato que a gente teve. O tempo passa e a galera ouve outros estilos, mas a cultura do hip hop prevalece”, conclui DJ Ocimar.
O esporte e o acolhimento que quebram barreiras
Enquanto parte da comunidade encontra na praça um espaço voltado para a cultura, as famílias da Ceilândia encontram no INPEAS um porto seguro para a assistência de base e desenvolvimento socioeconômico. Com sede na Ceilândia Sul, o instituto demonstra uma sólida articulação de políticas públicas, gerenciando os repasses federais que são voltados para democratizar o acesso a atividades esportivas e de inclusão.

Assim como outras ONGs e instituições, a organização é marcada por uma história de dedicação que atravessa gerações. “Eu sou idealizadora do INPEAS junto com a minha mãe. Na verdade, foi ela que me colocou junto nessa caminhada”, conta Rayanne Costa, vice-presidente do instituto. Ela explica que o envolvimento com o terceiro setor transformou sua visão de mundo ao notar o impacto das ações na realidade local. “A gente transforma a vida de muitas pessoas e é muito bonito ver isso, não só na questão física, mas na emocional também. É gratificante ver as pessoas aproveitando de um serviço e de um meio que deveria ser de todos”, ressalta.


A missão do instituto se materializa de diversas formas, sendo uma delas a parceria com a Associação Judô Galdino, que oferece, de forma gratuita, aulas de artes marciais para crianças e jovens da região. Para Rayanne, o projeto cumpre a função de levar acesso às práticas esportivas a quem foi privado delas. “O judô costuma ser visto como uma atividade mais privada. E aqui na associação as pessoas têm acesso gratuito às aulas e ao material: os quimonos, as faixas, as mochilas e os uniformes são todos doados por meio das emendas”, informou.
Entre as memórias marcantes do instituto, Rayanne destaca uma ação de Natal realizada em uma das áreas mais vulneráveis da RA. “Fomos doar brinquedos e foi inesquecível. Teve criança que chorou quando recebeu o presente. Ver o alvoroço delas ao ganharem um brinquedo que nunca imaginaram ter na vida são as memórias que fazem a gente querer trabalhar e se envolver cada vez mais”, declarou.

Apesar de todos os frutos que são colhidos pelos projetos, manter a estrutura operante é um desafio diário. Segundo a entrevistada, o maior e principal obstáculo é a instabilidade financeira. Visto que as ações dependem da liberação de emendas parlamentares federais, os projetos não são fixos e costumam durar entre um ano e um ano e meio. Há ainda as despesas com estrutura e com funcionários, o que acaba influenciando diretamente na verba disponibilizada.
Dentre as muitas ações realizadas pelo instituto, algumas ganham destaque e são verdadeiros diferenciais para a comunidade. Um deles é o projeto Mulheres Caliandras, promovido em parceria com a Secretaria da Mulher do DF, cujo objetivo é promover a igualdade de gênero, o empoderamento feminino e a inclusão social, por meio de cursos de capacitação voltados para mulheres. Outro exemplo é o projeto Esporte em Ação, que promove aulas gratuitas de ginástica funcional, de futebol e de judô. Estima-se que mais de 1000 pessoas já foram beneficiadas através das ações promovidas pelo INPEAS em todo o DF.
