Do tarot à acupuntura: como o mercado esotérico e as terapias holísticas passaram a movimentar a economia brasileira
Apesar das diferentes crenças, muitos buscam formas alternativas de autocuidado e conhecimento com os mesmos objetivos.
Postado em 24/06/2026

Impulsionado pela busca do bem-estar, do autoconhecimento e do contato maior com a espiritualidade, o mercado esotérico brasileiro se encontra em constante expansão desde a década de 80 e vem ganhando uma nova cara com a popularização do comércio online e a chegada das redes sociais em 2016.
Itens como cristais e incensos, e serviços como leitura de tarot e oráculos, passaram a ser tanto vendidos pela internet como ainda são facilmente encontrados em feiras e eventos voltados para o setor, presentes por todo o território nacional.
A Chapada dos Veadeiros, em especial a cidade de Alto Paraíso, no interior de Goiás, é um dos polos místicos mais fortes do país — tendo a maior concentração de lojas físicas do segmento em todo o Centro-Oeste.
Mas Brasília não escapa da fama esotérica da região. Pelo contrário: a capital já nasceu envolta de mito. Essa ideia de “cidade do futuro” da sua construção ambiciosa nos anos 60 abriu as portas para todo tipo de leitura espiritual sobre seu território, sua arquitetura e sua posição no Planalto Central.
A história mais famosa é a de Dom Bosco. Em 1883, o padre italiano teria sonhado com uma “terra prometida” entre os paralelos 15 e 20 — faixa que coincide, mais ou menos, com a região onde Brasília seria erguida décadas depois, criando uma lenda fundadora espiritual intrinsecamente conectada à cidade.
A cidade planejada por Lúcio Costa, marcada pelos traços de Niemeyer, é lida por grupos espiritualistas e esotéricos como um espaço de energia. O exemplo mais emblemático é o Vale do Amanhecer, em Planaltina. Fundado por Tia Neiva, o movimento mistura elementos do cristianismo, espiritismo, umbanda, tradições indígenas e referências egípcias. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) já o reconheceu como referência cultural do Distrito Federal e a Agência Brasília cita 250 mil e 700 templos.
Nessa Brasília atravessada por mitos de fundação e pluralidade religiosa, o esoterismo não é só uma crença individual. Virou um circuito cultural e econômico. Astrologia, tarot, cristais, terapias holísticas, oráculos, produtos de autocuidado espiritual — tudo isso encontra espaço em lojas, atendimentos, redes sociais e eventos presenciais espalhados pela cidade.

Feiras como a Mystic Fair atraem público interessado em um mercado de produtos e serviços esotéricos
É nesse contexto que a Mystic Fair aparece. A feira se apresenta como a maior do setor no Brasil e ocorre anualmente em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília. Reúne estandes de editoras, espaços holísticos, lojas esotéricas, terapeutas, astrólogos, quiromantes, massagistas e outros profissionais do ramo. Na edição de Brasília, realizada em maio, a programação incluiu palestras e atividades sobre temas como prosperidade, Wicca, benzimento, runas, chakras, Exu e sagrado feminino. Além dos atendimentos, a feira reúne produtos como cristais, incensos, livros e oráculos, funcionando como um espaço de encontro para interessados em espiritualidade.
Entre os expositores estava Sabrina Montenegro, taróloga e terapeuta holística de Brasília. No Instagram, pelo perfil @sabrina_montenegro_tc, onde oferece serviços que incluem Reiki, tarô, florais e baralho cigano.
Na Mystic Fair, Sabrina participou pelo Coletivo Magicamente, grupo ligado à Magicamente Feira Mística, evento brasiliense que reúne mais de 4,3 mil seguidores no Instagram e realiza edições presenciais na loja colaborativa Endossa, na Asa Norte. A feira local chegou à 41ª edição em 2026, com programação divulgada para 11 de julho e cerca de 30 expositores. Dentro da Mystic Fair, o coletivo se apresentou com um stand de “produtos, atendimentos e vivências”, reunindo práticas como tarot Reiki, mesas radiônicas, baralho cigano, benzimentos, astrologia helenística, quiromancia e cafeomancia.
Segundo Sabrina, a ida ao evento nacional nasceu da experiência acumulada nas feiras locais. “A gente fez um coletivo das pessoas que mais se expõem lá”, explica. O grupo levou atendimentos de tarot, mesa radiônica, baralho cigano, leitura de mão e borra de café, além de velas, incensos, cachimbos xamânicos e outros produtos esotéricos.
Para ela, Brasília já tem um público fiel para esse tipo de evento. “Brasília tem muita gente que procura oráculos, procura as feiras. E essa não é a única feira mística local que tem aqui, e estamos sempre cheios”, afirma. A fala reforça que a Mystic Fair não chega ao DF como um fenômeno isolado, mas se conecta a um circuito anterior de atendimentos, coletivos e feiras esotéricas espalhadas pela capital.
No atendimento, Sabrina destaca que a confiança entre consulente e oraculista é central. “O mais importante de tudo é você se sentir seguro, porque são informações geralmente muito particulares que você dá e que a pessoa pode ver”, explica. Para ela, um bom atendimento não deve se prender apenas a previsões negativas, como traição, morte ou tragédia, mas abrir espaço para caminhos possíveis, crescimento pessoal e profissional. “O importante não é você saber se ele [o parceiro] gosta de você, é saber se você realmente se gosta do jeito como você é”, afirma, ao comentar a recorrência de perguntas amorosas nas consultas.

Essa visão do oráculo como orientação, e não apenas como previsão, também aparece na fala de Alzimar Ramalho, profissional da área, que ajuda a entender quem procura essas práticas e quais demandas levam as pessoas às cartas.
Afinal, o tarot está na vida
Alzimar Ramalho é taróloga e jornalista. Desde a adolescência é interessada por jogos de cartas, e aprofundou-se mais ainda no tema quando descobriu o baralho cigano através de uma amiga que a convidou para fazer um curso de final de semana, isso durante a época em que ainda morava em Brasília. “Nunca tinha ouvido falar de baralho cigano, e olha que eu já conhecia algumas coisas como o tarô,” conta Alzimar. “Fui com ela e a gente já ganhou um baralho naquele curso rápido e eu comecei a jogar como a professora tinha falado e fui sendo incentivada.”
Quando retornou a São Paulo em 2021, já aposentada, ela aprendeu a jogar tarô com o professor Wayner Lyra (@waynerlyratarot), que durante a pandemia abriu sua primeira turma online. Hoje, Alzimar é dona do canal Tarot na Vida, no YouTube, onde publica leituras, conselhos semanais e vídeos sobre tarô e baralho cigano. O canal aparece com cerca de 540 inscritos e mais de 570 vídeos publicados, enquanto seu perfil profissional no Instagram, @alzimarramalho, reúne aproximadamente 2,6 mil seguidores.
Quanto ao seu público, Alzimar respondeu que é majoritariamente feminino. “Mais de 80% do gênero feminino. Do gênero masculino, muitos são gays. Então, você já tem aquela energia yin mais aflorada”, afirma, explicando que na filosofia chinesa, o yin está associado a características tradicionalmente ligadas ao feminino, como sensibilidade e introspecção. Segundo ela, homens héteros aparecem em menor número: “Pouco. 15%, 10%, por aí. Com temática mais ligada às finanças e ao trabalho. E sempre chegaram até mim porque alguma mulher, uma amiga, a irmã ou a esposa indicaram”.
A percepção da taróloga se alinha a dados quantitativos sobre o mercado esotérico. No levantamento brasileiro divulgado pelo Meon, feito com usuários de mapa astral online, cerca de 90% do público se identifica como feminino. Além da pesquisa feita pelo Pew Research Center apontando essa mesma forte adesão feminina e queer: mulheres são mais propensas do que homens a acreditar em astrologia e a consultar práticas como horóscopo, tarô e videntes, destacando igualmente a presença do público LGBT, que demonstra maior interesse por astrologia e tarô do que pessoas não LGBT. Também de acordo com essa mesma pesquisa, nos Estados Unidos, 10% dos americanos consultam astrologia, cartas de tarô ou videntes acreditando que essas práticas oferecem insights úteis. Entre os adultos LGBT, essa porcentagem sobe para 29%.

Os motivos para procurar essas práticas, porém, mudam bastante dependendo de quem chega. Para Alzimar, o tarô tem menos a ver com prever o futuro do que com ajudar a pensar. Ela compara o oráculo a um GPS: algo que mostra caminhos possíveis, não um destino obrigatório. “O tarot não decide por você, ele te mostra possibilidades”, resume.
Essa tendência também aparece nas pesquisas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a procura por astrologia e tarô está ligada principalmente ao autoconhecimento, à busca de sentido e ao apoio emocional. Embora parte do público se aproxime dessas práticas por curiosidade ou entretenimento, elas costumam funcionar como ferramentas de reflexão sobre questões pessoais e momentos de incerteza.
Durante a pandemia, esse papel ficou mais nítido para Alzimar. Com a sobrecarga emocional, a convivência forçada e a incerteza sobre tudo, muitas pessoas — especialmente mulheres — procuraram as consultas não para saber o que ia acontecer, mas para conseguir respirar um pouco. Com o tarot e a astrologia funcionando como um espaço de escuta, mais do que como oráculo.
O lado holístico
Jornalista há 37 anos, José Marcelo Santos também é acupunturista, formado em medicina tradicional chinesa. Sofrendo de enxaqueca severa, que o levava para o hospital duas vezes por mês, acabou descobrindo a acupuntura e se interessou pelo tratamento. “Aí quando eu já havia tentado de tudo, fiz um tratamento com acupuntura, e me encantei pela atividade e pelo resultado e decidi que um dia eu faria. Fiz, abri um consultório e aí teve um momento que eu tive de escolher, porque eu estava entre televisão, consultório e sala de aula.”
Apesar de ser constantemente associada ao esotérico por sua forma de terapia não-convencional, a acupuntura não é uma prática espiritual ou mística. Embora tenha surgido na China muito antes de qualquer avanço tecnológico, seus efeitos terapêuticos são facilmente explicados pela neurociência e pela medicina moderna. “Por princípio, holístico significa olhar um todo.” explica José Marcelo. “A medicina chinesa se enquadra nesse termo holístico, porque se você chegar para mim reclamando de enxaqueca, eu vou tentar descobrir a origem da sua enxaqueca. Eu vou querer saber como é seu ciclo menstrual, o que é que você gosta de comer, qual é a temperatura do alimento, quanto de água você bebe, quais sabores te atraem mais. Então, vou procurar a origem do problema. Eu não vou olhar só para sua queixa, eu vou olhar você como um todo.”
José Marcelo confirma o que os dados e a colega de profissão, Alzimar Ramalho, dizem sobre o público que busca as atividades. “Mais mulheres. É porque ela cuida mais da saúde do que o homem, né? Isso em toda a área da saúde, você vai encontrar mais mulheres, e pelo menos na medicina mais preventiva.”

E quanto às novas gerações?
É muito comum que pessoas mais jovens busquem respostas para as incertezas e instabilidades do futuro. E com a falta de confiança em instituições tradicionais, a astrologia, por exemplo, é um prato cheio para os jovens se reconhecerem e se redefinirem. Muitos também, apesar de não serem religiosos, são espiritualizados — pessoas que buscam formas de espiritualidade que não exigem dogmas ou uniformidade, mas que oferecem respostas para grandes questões.
Há uma crença comum em forças e energias que podem ser canalizadas para o bem-estar e a cura, e uma percepção de que tudo está interligado no universo. Muitas pessoas estão abertas a experimentar novas sensações e emoções, buscando experiências autênticas, preferencialmente em contato direto com a natureza e culturas locais.

