Jovem de Expressão amplia oportunidades para a juventude da Ceilândia

Com oficinas e eventos gratuitos, o projeto fortalece a cultura periférica e cria oportunidades para jovens.

Igor Viegas

Postado em 24/06/2026

Por: Igor Viegas Duarte, Janaína dos Santos da Silva, José Pedro Ghesti, Maria Eduarda Sá Rodrigues de Barros, Sabrina Maria Pessoa Costa

Frequentemente associada aos noticiários de violência, Ceilândia revela um dos principais contrastes do Distrito Federal. Embora o DF ocupe a primeira posição nacional em qualidade de vida entre as unidades federativas brasileiras, segundo o Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, a maior região administrativa do território ainda enfrenta desafios sociais significativos.

Com cerca de 490 mil habitantes, de acordo com a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD 2024), a cidade concentra aproximadamente 16% da população do Distrito Federal e apresenta indicadores socioeconômicos inferiores aos observados em regiões centrais. Esse cenário também se reflete nos dados de violência: segundo a Secretaria de Estado de Saúde do DF, a região registra o maior número de notificações de agressões contra crianças e adolescentes, tendo meninas entre 10 e 19 anos como as principais vítimas de violência doméstica e intrafamiliar.  

Criado em 2007, após um estudo realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com a Caixa Seguradora sobre a vulnerabilidade social de jovens entre 18 e 29 anos no DF, o Jovem de Expressão (JEX) surgiu em um cenário marcado pela violência e falta de oportunidades, reescrevendo histórias há anos. Nesse cenário, o projeto passou a desenvolver ações que fortalecem a cena cultural da cidade e incluem a juventude periférica na produção artística, com oficinas gratuitas divididas em quatro áreas: educação, cultura, saúde mental e empreendedorismo, englobando aulas de teatro, fotografia e danças urbanas. Assim, o que começa como uma aula termina, muitas vezes, em carreira, empresa e identidade.

Ensaio fotográfico dos alunos (Foto: Janaína dos Santos/ Tá Na Cei)
Turma de teatro ensaiando para peça (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)
Preparação coreográfica (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

A própria Praça do Cidadão, onde o projeto está localizado, passou por um processo de ressignificação simbólica ao longo dos anos. O espaço, anteriormente associado à insegurança pela população local, tornou-se um ponto de referência para atividades culturais, educativas e de convivência comunitária, fenômeno que sintetiza uma das principais propostas do JEX: “a ocupação de territórios periféricos por meio da arte, do diálogo e da participação social”

Quadra da Praça do Cidadão (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

Entre os principais projetos está o Carnaflow, festival que mistura música, cultura urbana e ocupação cultural periférica. Igualmente, ganham relevância a Batalha do Neurônio, voltada ao fortalecimento do hip hop e das batalhas de rima; e o Festival de Cinema, que valoriza o audiovisual produzido nas periferias.

Segundo Jonathan Williano, conhecido como Nenzin MC e integrante da equipe de produção há 12 anos, a principal missão do projeto é democratizar o acesso à cultura. “O Jovem de Expressão busca descentralizar o acesso cultural e preparar os jovens para atuarem no mercado da cultura”, afirma. Os eventos realizados pelo espaço também movimentam a economia criativa de Ceilândia, com edições que reuniram mais de três mil pessoas, além de abrir espaço para vendedores locais, artistas independentes, coletivos culturais e atividades voltadas para crianças e famílias da comunidade.

Formação artística e impacto profissional

“Talento existe em todo lugar. Oportunidades são poucas. Oportunidades gratuitas são raríssimas.” A frase é de Mila Ellen, professora de teatro do projeto há 10 anos. Após se apaixonar pelo mundo das artes cênicas através da televisão e conhecer o teatro no SESC Ceilândia, ela resume com precisão o que o Jovem de Expressão representa para quem cresce na periferia sem referências de acesso à arte formal. “Eu não imaginei que a minha vida poderia se tornar uma cena de teatro.” É um lugar de se conhecer, reconhecer e de realizar sonhos. Tudo o que um dia você sonhou, no teatro é possível realizar”, afirma.

Professora Mila Ellen (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

A metodologia de Mila rompe com o ensino tradicional. O que ela chama de “teatro de guerrilha” coloca a resistência no centro da cena: a dramaturgia é construída coletivamente a partir de propor reflexões sobre suas vivências, “desabafos” sociais dos próprios alunos, onde a vida vira cena, e a cena vira transformação. “Na maioria das vezes, eu pego histórias e cenas que os alunos contam. A partir disso, nós fazemos uma pequena aula de dramaturgia cênica para organizar tudo dentro da linguagem teatral: personagens, rubricas, movimentações e outros elementos”, diz ela. 

Caso ocorram espetáculos baseados em textos já escritos, o responsável é o dramaturgo oficial da Cia Barril, Elmo Férrer, ex-professor do JEX. O resultado é concreto: 150 ex-alunos seguiram carreira acadêmica em artes cênicas. Um dos resultados coletivos mais representativos dessa trajetória é o espetáculo “Pertencer”. Criado pelos próprios alunos e dedicado a temas como identidade, comunidade e reconhecimento, a montagem reflete experiências compartilhadas pelos participantes e a busca por pertencimento em uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais, tornando-se, ao mesmo tempo, produto artístico e documento de uma realidade vivida.

Professora Tatiana Reis (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

Na oficina de fotografia, Tatiana Reis, com 12 anos de atuação no projeto, fez uma escolha pedagógica aparentemente simples, mas de impacto profundo: emprestar câmeras para que os alunos levassem para casa. Ao eliminar a barreira financeira do equipamento, ela permitiu a prática constante e abriu portas para o mercado antes mesmo da formatura. O legado mais visível é a Ocre Imagem,  produtora audiovisual fundada por 17 ex-alunas. “Hoje, na minha turma, a gente tem uma geografia humana super diversificada”, observa Tatiana, reflexo de um projeto que atrai quem enxerga nele uma oportunidade real.

Nas danças urbanas, Hud Oliveira carrega dez anos administrando oficinas e uma convicção inabalável sobre o território onde trabalha. “Se há alguma região forte em talento, é esse lugar, é a Ceilândia.” Sua metodologia tem raízes no Dancehall, dança afro-jamaicana integrada a ritmos como funk e hip-hop , mas o horizonte é mais amplo: formar artistas com identidade própria, usando o improviso como ferramenta de autoconfiança. Ex-alunos de suas turmas fundaram o Grupo Expressão, companhia que já circula em festivais profissionais.

Professor Hud Oliveira (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

Seus alunos comentam com apreço sobre suas didáticas que os fizeram querer continuar a praticar a dança. “Nós trabalhamos com o Hud a muito tempo e ele pratica várias vertentes da dança”, diz a aluna de dança, Tatiane Oliveira, que pratica essa arte desde criança e achou no Jovem de Expressão a oportunidade de continuar a ter essa experiência. Em benefício dos ensaios, ex-alunos de suas turmas fundaram o Grupo Expressão, companhia que já circula em festivais profissionais.

Circulação cultural e dimensão social

O projeto mantém, ainda, espaços dedicados à circulação cultural. Na Galeria Risofloras, criada em 2018, o espaço integra o Instituto de Referência da Juventude, com exposições de fotografia e artes visuais ampliam o debate sobre temas sociais vinculados à realidade periférica, com ênfase em experiências negras e vivências da população LGBT+, grupos historicamente sub-representados nos espaços culturais hegemônicos. Marcos Castro, 28, conhecido como “guardião” do espaço e aluno do projeto, menciona que está na galeria há cerca de cinco meses, mas participa de oficinas do Jovem de Expressão desde 2016, iniciando com audiovisual e evoluindo para cobertura de eventos.

Entrada da Galeria Risofloras (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

Entre os aspectos estruturais que distinguem o Jovem de Expressão, destaca-se a oferta de atendimento psicológico gratuito, que funciona como estratégia de permanência em um contexto marcado por vulnerabilidades econômicas e emocionais. Essa dimensão de cuidado contribui para a criação de vínculos duradouros entre os participantes e o projeto, fenômeno que se manifesta no retorno frequente de ex-alunos como monitores, educadores ou colaboradores, configurando um ciclo contínuo de formação intergeracional.

O projeto reúne participantes de todas as idades, promovendo um ambiente de troca de experiências pouco comum em espaços de formação artística. A gratuidade das atividades é apontada pelos próprios participantes como um diferencial determinante, dado que iniciativas similares, quando disponíveis, concentram-se nas regiões centrais de Brasília e geralmente são pagas.

Dinâmica de improvisação para a peça “Pertencer” (Foto: José Pedro/ Tá Na Cei)

Um dos resultados coletivos mais representativos dessa trajetória é o espetáculo “Pertencer”. Criado pelos próprios alunos e dedicado a temas como identidade, comunidade e reconhecimento. A montagem reflete experiências compartilhadas pelos participantes e a busca por pertencimento em uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais, tornando-se, ao mesmo tempo, produto artístico e documento de uma realidade vivida.

 “O Jovem descentraliza a arte, porque os principais espaços artísticos estão no Plano Piloto”, afirma a aluna de teatro, Débora Almeida. As oficinas que o JEX proporciona para os cidadãos da Ceilândia retratam como a integração pode mudar o rumo de suas vidas. “É um espaço acolhedor, que nos dá a oportunidade de crescer”, reflete o aluno de dança, Breno Silva.

Após quase duas décadas de atuação, o Jovem de Expressão consolida-se como evidência de que territórios periféricos são também espaços de produção cultural, formação profissional e construção de futuros possíveis, revelando uma juventude que encontra na arte não apenas expressão, mas um instrumento concreto de transformação social.