Como o direito ao lazer redesenha as fronteiras da cidadania no DF

Por Gabriela Nogueira A promessa utópica de Brasília como uma “cidade-parque”, onde áreas verdes e o direito ao descanso deveriam ser acessíveis a todos, esbarra diariamente na desigualdade geográfica do Distrito Federal. Enquanto o Plano Piloto desfruta de infraestrutura consolidada e paisagismo planejado, os moradores das Regiões Administrativas (RAs)enfrentam a escassez de espaços públicos estruturados […]

Larissa do Vale

Postado em 18/06/2026

Por Gabriela Nogueira

Parque da Cidade. (Crédito: Gabriela Nogueira/IESB)


A promessa utópica de Brasília como uma “cidade-parque”, onde áreas verdes e o direito ao descanso deveriam ser acessíveis a todos, esbarra diariamente na desigualdade geográfica do Distrito Federal. Enquanto o Plano Piloto desfruta de infraestrutura consolidada e paisagismo planejado, os moradores das Regiões Administrativas (RAs)
enfrentam a escassez de espaços públicos estruturados e dependem do transporte público para acessar o lazer. Essa assimetria territorial redesenha as fronteiras da cidadania, transformando o tempo livre e o bem-estar em privilégios de endereço.

O conceito de lazer há muito tempo deixou de ser compreendido pela sociologia moderna como o mero tempo residual do relógio, o vazio que sobra após o expediente ou o simples ato de “não trabalhar”. Conforme os estudos clássicos e pioneiros do sociólogo francês Joffre Dumazedier, o lazer nas sociedades industriais e pós-industriais cumpre uma função tripla indispensável para o desenvolvimento humano, sintetizada nos chamados “três Ds”: o
Descanso, que atua na recuperação física e psíquica das fadigas do trabalho; o Divertimento, que quebra a monotonia do cotidiano através do lúdico; e, fundamentalmente, o Desenvolvimento, que promove a livre escolha, a sociabilidade espontânea, a formação cultural e a auto-realização do indivíduo fora das obrigações profissionais e institucionais.

O lazer, portanto, é uma dimensão crítica da emancipação e da cidadania, intimamente ligada à forma como os cidadãos se apropriam do espaço público e desfrutam do direito à cidade. Quando Lúcio Costa projetou Brasília no fim da década de 1950, esse princípio de bem-estar e desenvolvimento humano foi materializado de forma inédita na chamada escala bucólica, uma das quatro escalas urbanísticas que estruturam o Plano Piloto. No entanto, em uma capital projetada para o equilíbrio e para a superação das mazelas urbanas tradicionais, onde termina o usufruto real da arquitetura modernista e começa a exclusão
geográfica?

Decorridas décadas desde o início de sua construção, o Distrito Federal revela-se, na prática, um território de contrastes sociais, onde o “direito ao descanso” e a qualidade do espaço social são distribuídos de forma radicalmente desigual. Enquanto o centro desfruta da consolidação desse modelo idílico e arborizado, as Regiões
Administrativas (RAs) lidam diariamente com o lazer possível dentro de suas severas limitações estruturais e orçamentárias.

A arquiteta, urbanista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Luciana Saboia, aponta que as diretrizes urbanísticas originais de Brasília, baseadas em grandes áreas livres, recuos generosos e equipamentos públicos integrados e próximos às moradias, teoricamente existem e foram replicadas tanto no Plano Piloto quanto nas regiões
administrativas. O desenho urbano modernista, influenciado pelos preceitos do urbanismo funcional, deixou grandes vazios territoriais nessas localidades para que a população pudesse desfrutar de áreas comunitárias e de lazer. Logo, a grande contradição reside na execução concreta e na qualidade urbanística dessa promessa ao longo do tempo.

Segundo a professora, essa infraestrutura verde foi muito melhor e mais densamente implementada no Plano Piloto do que nas regiões administrativas que orbitam o centro político: “embora exista um espaço físico reservado nessas regiões para que essas dinâmicas de lazer aconteçam, a alta de arborização e de tratamento paisagístico adequado compromete gravemente a permanência da população e a própria segurança desses locais”, destacou Luciana. A arquiteta ressaltou que quando há investimento em paisagismo, calçadas contínuas e árvores adequadas ao clima local, o ambiente urbano se transforma: o clima severo do Planalto Central fica consideravelmente mais ameno, cria-se
sombra protetora e os lugares de encontro comunitário florescem espontaneamente.

O maior e mais bem-sucedido exemplo prático dessa correlação entre o espaço aberto, a vegetação e o lazer, conforme destaca a professora Luciana Saboia, é o Eixão do Lazer. Aos domingos e feriados, o eixo rodoviário que corta o Plano Piloto de norte a sul tem o fluxo de veículos completamente interrompido, transformando-se em um imenso parque linear que atrai milhares de frequentadores.

O sucesso dessa intervenção, contudo, não decorre apenas do fechamento da via em si, mas sim do fato de que o Eixão é emoldurado por extensas faixas verdes e arborizadas que funcionam como áreas de permanência qualificada, onde acontecem shows, feiras, eventos esportivos e encontros familiares. Por outro lado, quando o poder público falha em preencher esses recuos regulamentares com paisagismo, calçadas acessíveis e ciclovias ligadas ao cotidiano, o espaço aberto modernista degenera no seu exato oposto. Em vez de promover o bucolismo e a liberdade,
torna-se um lugar inóspito, árido, residual e perigoso, afastando as pessoas da rua. Nas periferias do Distrito Federal, o vazio urbano frequentemente não se traduz em beleza ou descanso, mas sim em isolamento e exclusão.
No plano original concebido por Lúcio Costa, o lago deveria ser um componente intrínseco da escala bucólica, configurando-se estritamente como uma imensa área verde e aberta de livre acesso ao público em geral. No entanto, o crescimento acelerado da capital e a forte pressão do mercado imobiliário de alta renda nas RAs nobres ao redor do espelho d’água subverteram de forma drástica essa premissa democrática.

Ao longo das décadas, o Lago Paranoá foi cercado por mansões e clubes privados, transformando a água, que deveria ser um bem coletivo de lazer e contemplação, em um dos maiores símbolos de exclusão social e geográfica da capital. O lago passou a funcionar como uma barreira física e simbólica de privilégio. Para contrapor essa dinâmica, a professora Saboia se posiciona firmemente a favor de ações governamentais integradas, como o programa “Orla Livre”, que visa desimpedir as margens e propiciar percursos contínuos, ciclovias e encontros entre diferentes públicos. A arquiteta defende que a cidade precisa, urgentemente, voltar-se de frente para o lago, propondo inclusive soluções arrojadas como o estabelecimento de um sistema de transporte pluvial público que conecte de forma eficiente uma margem à outra, democratizando o acesso e integrando estruturas existentes como o Deck Sul e o Deck Norte.

Para compreender de forma detalhada essa assimetria territorial, o artigo realizado pelas pesquisadoras Luciana Saboia e Liz Sandoval, “A cidade é uma só?, Luta por Reconhecimento na Relação Centro-Periferia em Brasília”. No estudo, as autoras utilizam a teoria do reconhecimento mútuo, formulada pelo sociólogo alemão Axel Honneth e
expandida pelo filósofo francês Paul Ricoeur, para demonstrar como o projeto monumental da capital conviveu, desde os seus primeiros anos de canteiro de obras, com uma severa negação de direitos civis e com uma divisão de classes. O discurso oficial do governo, eivado de uma retórica desenvolvimentista e democrática, pregava que Brasília nascia livre das divisões tradicionais das metrópoles brasileiras, uma cidade sem favelas onde operários e burocratas compartilhariam o mesmo horizonte planejado.

Ao chegarem à nova e distante localidade planejada pelo regime militar, os moradores de Ceilândia depararam-se com lotes áridos, desprovidos de saneamento básico, infraestrutura urbana mínima ou qualquer tipo de arborização que pudesse mitigar as intempéries do clima. A promessa da casa própria e da igualdade modernista desvaneceu diante da aridez do novo assentamento.

É precisamente nesse cenário de dispersão urbana e distâncias continentais que a Rodoviária do Plano Piloto assume um papel crucial de centralidade. Diariamente, um massivo movimento arrasta mais de oitocentas mil pessoas das RAs para o centro administrativo do Distrito Federal. Localizada exatamente no ponto de intersecção entre o Eixo Rodoviário e o Eixo Monumental, a plataforma da rodoviária converte-se no território físico onde as várias “brasílias” colidem.

A professora Luciana Saboia propõe um redirecionamento radical na forma como pensamos o paisagismo e os espaços públicos em todas as Regiões Administrativas. A arquiteta defende que a produção de áreas de lazer deve caminhar de mãos dadas com a implantação de jardins cada vez mais naturais e diretamente voltados para a valorização e preservação do bioma Cerrado. As áreas de proteção ambiental e as reservas ecológicas não podem ser encaradas pelo Estado ou pela população como santuários isolados e distantes da malha urbana, mas sim como elementos vivos da paisagem cotidiana, a exemplo do que ocorre na área da Água Mineral.

Vivenciar a riqueza, a sombra e a amenidade climática do Cerrado dentro de cada RA é um passo fundamental para resgatar a dignidade cívica de suas populações. A utopia da “cidade-parque” desenhada na metade o século passado só cumprirá o seu verdadeiro papel histórico quando a sombra das árvores, a calçada acessível, o direito de contemplar a água do lago, a ciclovia segura e o tempo livre de qualidade deixarem de ser privilégios geográficos de uma elite residente no centro.

A partir dessa centralidade imposta pelo transporte, a dinâmica do lazer no DF fragmenta-se entre a infraestrutura consolidada do núcleo central e a resistência nas Regiões Administrativas. Essa barreira é sentida diariamente por Maria Clara de Castro Mendes, moradora do Itapoã. Ela enfrenta uma rotina dupla de deslocamento até o Plano Piloto,
tanto para trabalhar quanto para conseguir momentos de lazer no fim de semana. “Aqui na região onde moro faltam opções de lazer próximas, e o acesso ao transporte público é bem difícil, o que torna tudo mais cansativo”, desabafa Maria Clara.

Enquanto o centro usufrui de parques e eventos financiados pelo Estado, as RAs dependem da adaptação local e da
necessidade de locomoção de seus moradores. Desenvolver esse tema exige, portanto, mapear esse cenário desigual, investigando como o direito ao divertimento é moldado pela abundância de recursos de um lado e pela criatividade comunitária nas demais regiões.

Entre parques, cultura e natureza: o lazer como marca do Plano Piloto

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Ponte JK. Foto Larissa do Vale.

Por Larissa do Vale.

Em uma manhã de domingo, corredores dividem espaço com ciclistas no Eixão do Lazer. No Parque da Cidade Sarah Kubitschek, famílias ocupam os gramados, crianças brincam nos parquinhos e centenas de pessoas aproveitam as pistas de caminhada. Poucos quilômetros adiante, visitantes observam animais no Zoológico de Brasília enquanto frequentadores acompanham a programação cultural do Cine Brasília. Mais de seis décadas após a inauguração da capital federal, esses espaços continuam reunindo milhares de pessoas e ajudam a preservar uma característica pensada desde a origem da cidade: a valorização da convivência coletiva.

Ao contrário de muitas cidades brasileiras, que cresceram sem planejamento e precisaram adaptar áreas para lazer ao longo do tempo, Brasília nasceu com parques, áreas verdes e equipamentos culturais incorporados ao desenho urbano. No projeto elaborado por Lucio Costa e na arquitetura concebida por Oscar Niemeyer, o acesso à cultura, ao esporte e aos espaços de convivência foi tratado como elemento essencial da vida urbana.

Essa proposta atravessou gerações. Dos equipamentos criados ainda durante a construção da cidade aos espaços que se consolidaram nas décadas seguintes, o Plano Piloto desenvolveu uma rede de áreas públicas que continuam atraindo moradores e visitantes para atividades esportivas, culturais, educativas e de lazer.

Entre os primeiros equipamentos públicos voltados à convivência e ao lazer está o Zoológico de Brasília. Criado ainda durante o período de construção da nova capital, o espaço surgiu para acolher animais encontrados nas áreas impactadas pelas obras que transformavam o Cerrado na sede do governo federal. Com o crescimento da cidade, o zoológico também ampliou sua estrutura e passou a desempenhar papel importante na educação ambiental e na preservação da fauna.

Atualmente, o espaço está entre os equipamentos públicos mais visitados do Distrito Federal. Em 2024, mais de 512 mil pessoas passaram pelo local, número impulsionado, entre outros fatores, pela ampliação do acesso com a gratuidade aos domingos e feriados.

Conselheiro da Fundação Jardim Zoológico de Brasília, Ceciliano Junior acredita que o aumento da visitação demonstra o interesse crescente da população por atividades que unem lazer e aprendizado.

“O Zoológico de Brasília é um espaço de lazer, convivência e aprendizado. O aumento da visitação mostra que a população tem buscado cada vez mais experiências ligadas à natureza e à educação ambiental. Muitas crianças têm aqui o primeiro contato com temas relacionados à preservação da fauna, ao respeito aos animais e à importância da conservação dos ecossistemas. É um ambiente que desperta consciência e aproxima as pessoas das questões ambientais de forma acessível e educativa”, afirma.

Para Ceciliano, o zoológico representa um exemplo de como os espaços públicos podem reunir diferentes funções em um mesmo ambiente, promovendo lazer, educação, preservação ambiental e convivência familiar.

A vocação de Brasília para o lazer ao ar livre ganhou ainda mais força com a consolidação do Parque da Cidade Sarah Kubitschek. Com cerca de 420 hectares, o espaço é considerado um dos maiores parques urbanos do mundo e oferece pistas de caminhada, ciclovias, quadras esportivas, áreas de convivência e atrações voltadas para diferentes faixas etárias. Ao longo das décadas, o local se transformou em um dos principais pontos de encontro dos brasilienses.

Moradora do Noroeste, a assessora de imprensa e blogueira Vanessa de Araújo faz parte desse público que transformou o parque em destino frequente nos momentos de descanso.

Outra referência importante para os moradores do Plano Piloto é o Parque Olhos d’Água, na Asa Norte. Criado para proteger nascentes e áreas de Cerrado preservado, o espaço tornou-se um dos principais locais para caminhadas, corridas e contemplação da natureza. Com trilhas, lago e rica biodiversidade, o parque demonstra como preservação ambiental e lazer podem coexistir em uma área urbana.

Além dos espaços voltados ao esporte e ao contato com a natureza, a cultura também ocupa lugar de destaque na vida pública do Plano Piloto. Inaugurado junto com a capital, em 1960, o Cine Brasília tornou-se um dos símbolos da produção audiovisual brasileira. Projetado por Oscar Niemeyer, o espaço recebe mostras, festivais, sessões especiais e atividades voltadas à formação de público, ampliando o acesso da população ao cinema e à cultura.

Outro importante equipamento cultural é o Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul. Referência na formação artística e na difusão cultural, o local abriga oficinas, exposições, apresentações e projetos que fortalecem a produção cultural do Distrito Federal.

Outro símbolo dessa ocupação coletiva é o Eixão do Lazer. Desde a década de 1990, a principal via expressa do Plano Piloto é fechada para veículos aos domingos e feriados, transformando-se em um corredor dedicado à convivência, ao esporte e às atividades recreativas. Ao longo de mais de 14 quilômetros de extensão, o espaço recebe milhares de pessoas todos os finais de semana.

Além da prática esportiva, o Eixão também se tornou palco para ações sociais e comunitárias. Um dos exemplos é o projeto Cuide-se Mais, realizado pelo Instituto Acolher, que oferece gratuitamente atividades voltadas ao bem-estar, à saúde e à integração social.

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Projeto Cuide-se Mais, Edição Eixão Norte. Foto: Larissa do Vale.

Presidente da instituição, Tamires Rodrigues Feitosa destaca a importância dos espaços públicos para aproximar a população de iniciativas comunitárias.

“Quando levamos atividades gratuitas para parques e áreas públicas, ampliamos o acesso da população ao lazer, ao bem-estar e à convivência comunitária. O projeto Cuide-se Mais tem percorrido diversas regiões administrativas do Distrito Federal e, neste fim de semana, está no Eixão Norte, um dos espaços mais tradicionais de lazer da cidade. A receptividade do público tem sido muito positiva, o que demonstra a importância de iniciativas que ocupam os espaços públicos com atividades acessíveis e de qualidade. Ambientes como esse se tornam cada vez mais essenciais para promover qualidade de vida, inclusão e integração social”, afirma.

Apesar dos avanços, desafios relacionados à manutenção da infraestrutura, acessibilidade, segurança e adaptação dos equipamentos às novas demandas urbanas continuam presentes. A preservação desses espaços é apontada por especialistas como fundamental para garantir que continuem cumprindo seu papel social nas próximas décadas.

Aos domingos, quando o trânsito dá lugar às bicicletas no Eixão, quando famílias ocupam os gramados do Parque da Cidade e crianças descobrem os animais do zoológico, a proposta imaginada pelos criadores de Brasília continua visível. Mais de seis décadas depois da inauguração da capital, os espaços públicos seguem sendo palco de encontros, histórias e experiências que ajudam a definir a forma como a cidade é vivida por seus moradores.

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(Crédito: Larissa do Vale/IESB).

Entre o centro e a periferia: por que os moradores de Ceilândia atravessam o DF em busca de lazer

Por Larissa Barros



Marcada por ser símbolo de resistência e por sua forte identidade cultural, a Ceilândia é a região administrativa mais populosa do Distrito Federal. Apesar de concentrar grande parte da população brasiliense, a cidade ainda enfrenta a falta de espaços e investimentos em lazer. Com isso, muitos moradores acabam se deslocando para o Plano Piloto em busca de bares, shows e outras opções de entretenimento, evidenciando as diferenças no acesso ao lazer entre o centro e a periferia.

Criada em 1971 a partir da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), a Ceilândia recebeu milhares de famílias removidas de áreas consideradas irregulares durante a construção de Brasília. Para especialistas, a origem da cidade ajuda a compreender as desigualdades urbanas que ainda marcam a relação entre o centro e as periferias do
Distrito Federal.

Para o jornalista Vinicius Remer da Silva, morador de Ceilândia Sul, o Plano ainda oferece opções que não consegue encontrar na própria região. “Embora a cidade tenha muitas opções culturais, acredito que existam poucas opções de lazer. O Plano tem, por exemplo, o Parque da Cidade, que é um lugar que frequento para correr, além do Lago Paranoá, onde pratico natação”, afirma.

Segundo ele, Ceilândia possui espaços importantes, mas ainda enfrenta limitações estruturais. “Ceilândia tem um parque, mas ainda falta bastante estrutura e ele está bem distante do que representa o Parque da Cidade. O Plano também tem o Cine Brasília, com ingressos acessíveis, enquanto a Ceilândia não possui um cinema público, mesmo sendo a maior cidade do DF”, completa.

O lazer concentrado no centro

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Ceilândia é sede de diversas iniciativas de cultura e lazer.

Segundo o sociólogo André Pires, que também é morador de Ceilândia, o Distrito Federal foi planejado historicamente com base em uma lógica funcionalista e modernista, inspirada em Lúcio Costa, que priorizou o Plano Piloto como centro político, econômico e simbólico.

“Esse planejamento já previa uma separação entre o centro e as cidades-satélites,
periferias que orbitariam o Plano e abrigariam principalmente trabalhadores. Equipamentos
culturais, como teatros, cinemas e centros culturais, foram instalados majoritariamente no
Plano Piloto, reforçando a desigualdade territorial”, explica.

Para André, a concentração histórica de investimentos públicos e privados ajuda a explicar por que o lazer ainda permanece centralizado. “O centro recebe mais recursos, infraestrutura e incentivos”, afirma. “Assim, moradores da periferia precisam se deslocar porque o acesso à cultura não foi distribuído de forma equitativa desde a construção de
Brasília e isso perdura até hoje”, completa o sociólogo. O deputado distrital Max Maciel (PSOL) afirma que a própria formação de Brasília contribuiu para o afastamento das periferias dos espaços de lazer e serviços públicos. “Ninguém
escolheu morar na Ceilândia, as pessoas foram colocadas lá.

Segundo ele, a organização urbana do DF mantém desigualdades históricas. “Brasília foi projetada dessa forma, afastando as cidades periféricas. E nessas cidades faltam serviços e espaços de lazer. Quase tudo fica concentrado na região central, o que gera um custo alto para a população”, afirma.

O custo de atravessar a cidade

O deputado também critica a redução de espaços públicos gratuitos na capital. “Os espaços gratuitos em Brasília estão acabando, sendo fechados ou privatizados. Para viver na cidade, hoje, custa caro. No estádio que custou R$1 bilhão, por exemplo, são R$40 apenas para estacionar, isso para quem tem carro”, reforça.

Para ele, o cenário revela um processo de exclusão da população periférica dos espaços de lazer. “Isso mostra como os espaços que antes eram acessíveis ao povo vão sendo retirados ou entregues à iniciativa privada, tornando tudo mais caro e excluindo parte da população. Precisamos rediscutir a cidade e pensar em uma Brasília verdadeiramente
voltada para as pessoas”, afirma.

Morada da Ceilândia, Tamires Rodrigues relata que o deslocamento sempre fez parte da sua experiência de lazer como moradora da Ceilândia. “Falando por mim, pensando em uns dez anos atrás, quando eu tinha 20 anos e ainda estava estudando, isso fazia muita diferença. Eu sempre gostei muito do CCBB e continuo gostando, porque lá tem muita programação gratuita”, conta. Ela explica, porém, que o acesso aos espaços culturais exige
planejamento constante.

Vinicius também destaca que a mobilidade influencia diretamente na forma como moradores da periferia usufruem da cidade. “Chega a ser desanimador pensar no deslocamento e no tempo necessários para frequentar momentos de lazer fora da Ceilândia”, afirma.

Segundo ele, muitos espaços considerados acessíveis acabam dependendo do carro. “Frequento o Parque da Asa Delta, no Plano, para nadar no lago, mas é um lugar ao qual só consigo chegar de carro”, comenta

Para o sociólogo André Pires, o deslocamento de moradores da Ceilândia para o Plano Piloto acontece não apenas pela concentração de eventos e opções de lazer no centro, mas também porque a região funciona como um “meio do caminho” para pessoas de diferentes periferias do Distrito Federal.

Segundo ele, esse movimento evidencia desigualdades urbanas e no direito ao lazer, já que os espaços considerados de maior prestígio cultural permanecem concentrados na área central, enquanto as periferias possuem menos opções. O sociólogo também destaca que o acesso ao lazer, embora seja um direito social, acaba condicionado por fatores como renda, transporte e localização, além de revelar uma hierarquia simbólica dos espaços urbanos, em que o centro é visto como mais legítimo culturalmente.

O que falta na maior cidade do DF

Tamires acredita que faltam mais investimentos em espaços públicos de convivência. “Acho que falta um bom parque na região, porque muita gente acaba indo para outros lugares. E tem também a questão da segurança, que eu considero o principal”, afirma. “Fazer uma caminhada às sete da manhã de um sábado, por exemplo, ainda não parece algo totalmente seguro”.

Max Maciel defende que a descentralização cultural passa por políticas públicas permanentes. Segundo ele, a Ceilândia deveria possuir mais equipamentos culturais proporcionais ao tamanho da população. “Se a meta 31 do Plano Nacional de Cultura fosse cumprida, a cada 50 mil habitantes deveria existir ao menos um equipamento cultural”,
explica. “Pegando a Ceilândia como exemplo, com cerca de 400 mil habitantes, a região deveria ter, no mínimo, quatro grandes equipamentos culturais, como salas de cinema, teatros e centros culturais. Mas isso não existe”, afirma o deputado.


Ele também acredita que escolas e equipamentos públicos podem funcionar como espaços de convivência e cultura nos finais de semana. “Às vezes não há hospital, mas existem trinta escolas. Esses espaços também precisam ser valorizados e podem se tornar centros de cultura e convivência”, pontua. “No fim das contas, o que precisamos é de um projeto de cidade pensado para as pessoas, para que elas possam usufruir do lazer sem precisar
enfrentar grandes deslocamentos ou custos excessivos”, conclui.

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Deputado Max Maciel. (Crédito:Larissa Barros/IESB).

Um dos exemplos recentes da perda de espaços tradicionais de lazer e cultura na região é o São João do Cerrado, que após 17 anos sendo realizado em Ceilândia foi transferido para o Plano Piloto. Segundo informações divulgadas nas redes sociais, a mudança ocorreu devido às obras no espaço onde a festa era realizada e pela busca de uma alternativa com maior estrutura e acesso para pessoas de diferentes regiões do DF.

Para Tamires, a mudança também evidencia como manifestações culturais periféricas ainda enfrentam dificuldades de valorização. “Ainda existe um certo preconceito, como se aqui não tivesse cultura ou opções de lazer. Falta divulgação, faltam recursos e incentivo para esse tipo de evento”, acrescenta. Segundo ela, esse preconceito aparece inclusive na relação entre moradores do centro e da periferia. “Quem mora aqui sabe que a Ceilândia tem cultura, mas a gente quase não vê pessoas saindo do Plano Piloto para vir até aqui participar de festas ou atividades culturais”,
comenta.

Vinicius também relata que muitos eventos gratuitos realizados na cidade sofrem julgamentos pejorativos. “Já ouvi frases como ‘de graça ainda está caro’”, conta. Segundo ele, se o mesmo evento acontecesse no Plano Piloto, muitas dessas pessoas provavelmente frequentariam sem resistência.

O lazer que fortalece a periferia

Apesar das dificuldades relatadas pelos moradores, a Ceilândia possui uma das cenas culturais mais fortes do Distrito Federal. A região é reconhecida por manifestações ligadas ao hip-hop, ao samba, à cultura popular nordestina e por espaços tradicionais como a Casa do Cantador, considerada um dos principais símbolos culturais da cidade.

Um exemplo dessa produção cultural é o Samba da Guariba, realizado mensalmente na EQNN 18/20. O evento reúne centenas de pessoas entre moradores, comerciantes e artistas locais, transformando o espaço público em ponto de encontro e convivência. Edson Rodrigues, coordenador do Samba da Guariba, que reúne centenas de pessoas uma
vez por mês na EQNN 18/20, afirma que iniciativas culturais periféricas ajudam a fortalecer vínculos comunitários e o sentimento de pertencimento. “O Samba da Guariba se apresenta como uma força territorial. A gente marca e demarca o território e, a partir dessa territorialidade, consegue afirmar, por meio do samba e da comunidade, a força da cultura
popular e da cultura do samba na periferia”, explica.

Segundo ele, a periferia possui enorme potência cultural. “O Samba da Guariba representa essa força ancestral, essa força motriz que carrega identidades, corporalidades e toda a construção de uma cultura popular ligada ao samba”, afirma.

Edson acredita ainda que as regiões administrativas vêm criando alternativas importantes de lazer e entretenimento fora do eixo central de Brasília. “Os grandes eventos, como shows, jogos de futebol e peças de teatro, ainda se concentram no centro. Mas, quando falamos de entretenimento, as cidades periféricas têm se fortalecido muito”, diz. “Hoje existem feiras e projetos culturais espalhados pelo Distrito Federal inteiro. As regiões administrativas têm conseguido movimentar esse circuito com feiras temáticas, projetos sociais e iniciativas do próprio governo”, acrescenta.

Para ele, iniciativas culturais periféricas ajudam moradores a se reconhecerem dentro do próprio território. “O Samba da Guariba faz parte justamente desse processo de valorização da cidade, da quebrada e da periferia”, afirma. “Iniciativas como essa são importantes porque ajudam a territorializar as pessoas, fazem com que elas se sintam pertencentes e importantes dentro do próprio território, além de criarem alternativas de lazer e entretenimento perto de casa”, conclui.

Para o sociólogo André Pires, a forte produção cultural da Ceilândia ainda enfrenta barreiras de reconhecimento institucional e midiático. Segundo ele, a região abriga importantes movimentos ligados ao hip-hop, ao rock, ao funk e à cultura popular, mas recebe menos visibilidade devido à desigualdade de capital cultural e midiático. “O que é produzido no centro ainda possui mais reconhecimento institucional. Falta investimento público e privado, existem menos editais, patrocínios e infraestrutura, além da centralização da mídia e da divulgação no Plano Piloto”, explica. “Não se trata de ausência de cultura, mas de desigualdade na valorização e difusão dessa cultura”.

Max Maciel avalia que ampliar equipamentos culturais nas periferias é essencial para democratizar o acesso ao lazer. “Hoje, o que temos é o teatro do Sesc, mantido pelo setor produtivo, que faz um trabalho importante. Mas, enquanto política pública do Estado, há uma ausência muito grande desses espaços”, afirma. “Por isso, o caminho passa por
rediscutir a cidade e garantir equipamentos culturais nas periferias, formando público e criando condições para que as pessoas consumam cultura perto de casa”, conclui o deputado distrital.

“Vai de Graça” impulsiona deslocamento das Regiões Administrativas para o Lago Paranoá

Por Daniel Lima

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O programa “Vai de Graça” está em funcionamento desde março de 2025. Foto: Daniel Lima 

Os domingos nas margens do Lago Paranoá apresentam uma nova dinâmica e os pontos de acesso público como a Orla da Ponte JK, a Ermida Dom Bosco, o Parque das Garças e acessos menos mapeados passaram a receber frequentadores vindos de diversas Regiões Administrativas (RAs) do Distrito Federal. Em sua maioria, o deslocamento ocorre por meio do sistema de transporte público, que opera de forma gratuita aos domingos e feriados.

A suspensão da tarifa confirmou uma demanda reprimida por lazer nas RAs que dependem do transporte coletivo. O programa “Vai de Graça” é uma iniciativa do Governo do Distrito Federal que institui a gratuidade no transporte público (ônibus, metrô, BRT e Zebrinhas) aos domingos e feriados. Assinado pelo governador Ibaneis Rocha em fevereiro de 2025, o decreto deu vida ao projeto já no mês seguinte, em 1 de março.

A medida serve para facilitar o deslocamento da população nos dias de folga, promover a inclusão social ao incluir os mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, impulsionar o comércio, a economia, o turismo e o lazer na capital, reduzindo também a dependência do transporte individual.

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O levantamento da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana aponta que o benefício foi aplicado em 82 dias entre março de 2025 e fevereiro de 2026. Foto: Daniel Lima

Dados apresentados pela Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) mostram que o programa “Vai de Graça” contabilizou cerca de 37,8 milhões de acessos gratuitos no primeiro ano de funcionamento, sendo 89% no sistema rodoviário e 11% no metrô. Com a implantação do benefício, a média de usuários aos domingos teve uma alta de 70%, passando de 271 mil para 461 mil, enquanto os feriados registraram um aumento médio de 73%.

O levantamento da CTMU aponta que o benefício foi aplicado em 82 dias entre março de 2025 e fevereiro de 2026, sendo 52 domingos, sete feriados e 23 datas específicas, como Carnaval, aniversário de Brasília e festividades de fim de ano. Os dados mostram que o transporte gratuito permitiu a chegada do público de menor renda às margens e parques do lago, localizados em áreas nobres da capital.

A quebra dessa barreira econômica transformou a rotina de quem antes deixava de ter momentos de lazer no lago por conta dos custos do transporte. A moradora de São Sebastião Ana Luísa Araújo, de 24 anos, relata que a gratuidade eliminou o isolamento que a falta de recursos causava nos dias de folga. “Antes eu precisava me preocupar com o valor da passagem ou até deixar de ir por falta de condições. Muitas vezes deixava de sair ou precisava organizar melhor meus gastos. Agora a diferença é muito grande, porque tenho mais liberdade para me locomover sem esse custo. Me sinto mais incluída, com mais acesso ao lazer, à convivência com outras pessoas e aos espaços da cidade”, afirma Ana Luísa, que agora frequenta a orla com mais conforto e bem-estar.

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Localizada às margens do Lago Paranoá, a Ermida Dom Bosco abriga uma pequena capela que atrai visitantes em busca de turismo e fé na capital federal. Foto: Daniel Lima

A nova dinâmica e o impacto do transporte gratuito

O fluxo de transporte nos dias de passe livre contraria a dinâmica de funcionamento dos ônibus que é observada entre segunda-feira e sábado. O estudo da pesquisadora Carlla Pourre, desenvolvido na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB), aponta que o sistema viário do DF foi estruturado de forma radial para direcionar a força de trabalho das RAs periféricas para o centro. Essa movimentação pendular se concentra nas janelas de pico: das 05h às 08h59 e das 16h45 às 19h29, atendendo a deslocamentos por emprego e estudo.

Para as faixas de menor renda, o custo do transporte inviabilizava o deslocamento para o lazer nas RAs que circundam o espelho d’água. Para medir esse impacto no bolso das famílias, o estudo de Pourre dá uma nota de 0 a 1: quanto mais perto de zero for o número, maior é o sufoco para pagar as passagens no fim do mês.

Na Estrutural, esse aperto é o mais grave de todo o Distrito Federal, registrando o índice crítico de 0,14. Essa barreira financeira também sufoca os moradores de localidades como Fercal (0,21), Varjão (0,24), Paranoá (0,28) e Recanto das Emas (0,29). No extremo oposto, o transporte quase não pesa na renda de quem mora no Plano Piloto (0,87) e no Lago Sul (0,89), regiões nobres que concentram a maioria dos acessos públicos à orla e registram os índices mais altos do DF.

A eliminação da cobrança de passagens aos domingos removeu essa barreira econômica e  mostrou que o passe livre funciona como medida de redistribuição de renda, permitindo que a população das RAs utilize o sistema de transporte para acessar as áreas de lazer do Lago Sul, Lago Norte e Plano Piloto. A autônoma Júlia Costa, de 26 anos e moradora de Samambaia, relata que a gratuidade na catraca transformou o seu único dia de folga na semana. “É ótimo, porque é o único dia na semana que consigo sair e fazer algo diferente, e sem gastar nada, já que o Lago fica em lugares inacessíveis para mim que moro longe”, afirma. 

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Hoje, o Lago Paranoá é um dos principais pontos turísticos da capital e abriga três ilhas: Paranoá, Retiro e dos Clubes. Fotos: Daniel Lima

O deputado distrital Max Maciel aponta que esse fluxo revela o início de uma reparação histórica na capital, historicamente planejada para empurrar as classes trabalhadoras para longe do centro. O parlamentar antecipa que estudos de monitoramento do passe livre confirmam quais comunidades mais têm se apropriado desse direito. “A grande parte das linhas mais utilizadas aos domingos e feriados vem exatamente do Paranoá e de São Sebastião. São pessoas que estão querendo usufruir de uma cidade que antigamente era segregada. Brasília desenvolveu suas cidades longe do centro e elas não garantiram o direito ao lazer nesses territórios, que viraram cidades-dormitório”, analisa.

Essa ocupação de áreas nobres por moradores das periferias também tensiona preconceitos históricos das RAs de alta renda, manifestados muitas vezes pelo uso pejorativo de termos como “farofada”. Para Maciel, o estranhamento expõe uma visão elitista sobre o espaço público. “Causa estranheza exatamente por acharem que esse espaço é só deles, uma extensão do quintal de casa, e não do conjunto da cidade. Radicalizar na democratização não é só dizer que o acesso é livre e sem taxa, é garantir que as pessoas acessem com qualidade”, defende o deputado.

O desenho de Lúcio Costa e a ocupação da cidade

No relatório original do Plano Piloto de 1956, o urbanista Lúcio Costa delimitou as bordas do espelho d’água dentro da chamada “escala bucólica”. A diretriz previa que as áreas verdes e as encostas fossem mantidas abertas e livres, integrando a população aos recursos naturais da cidade para fins de convívio e descanso coletivo.

O desenvolvimento urbano do Distrito Federal consolidou barreiras físicas e socioeconômicas nessas áreas. Setores residenciais de alta renda cercaram a maior parte do perímetro habitável do lago, transformando o acesso à água em um fator de exclusão geográfica. Pontos de acesso público, como a Orla da Ponte JK, a Ermida Dom Bosco e o Parque das Garças, permaneceram como raras janelas de uso comum pela população.

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Veja no mapa os cinco pontos preferidos para aproveitar o lago Paranoá. Foto: Google Maps/ Daniel Lima

Ao viabilizar o deslocamento de moradores de Regiões Administrativas distantes para essas faixas de orla, o programa altera o perfil de usuários de espaços antes caracterizados pelo isolamento socioeconômico. O fenômeno modifica o uso da infraestrutura de lazer dessas RAs, aproximando a dinâmica atual da premissa registrada por Lúcio Costa em seus escritos, quando apontou que a eficácia do planejamento urbano se valida no momento em que a comunidade toma posse e utiliza os espaços públicos.

A professora de Arquitetura da UnB Luciana Saboia aponta que a precariedade dos espaços públicos nas periferias justifica o fluxo migratório em busca de lazer nas RAs nobres. “Essa infraestrutura foi muito melhor implementada no Plano Piloto do que nas cidades satélites em torno. Quando o espaço não é bem projetado com essa vivência, vira um lugar inóspito e residual. Toda vez que tem uma ação que qualifica o ambiente urbano, a resposta do público é positiva”, afirma. 

Os desafios do acesso e permanência continuam 

Se a tarifa zero resolveu o custo do deslocamento principal até a área central ou até os terminais de ônibus, a circulação interna para pontos específicos da orla e a permanência dos usuários ainda enfrentam restrições físicas e estruturais. ,

O primeiro obstáculo mapeado é a insuficiência de linhas circulares aos domingos. O sistema atende as rotas que ligam as cidades-satélites à Rodoviária do Plano Piloto ou aos terminais locais, mas as linhas internas que interligam esses pontos a locais específicos, como a Ermida Dom Bosco e o Parque das Garças no Lago Norte, ou à Orla da Ponte JK, operam com frotas reduzidas e intervalos estendidos aos fins de semana.

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O transporte gratuito aos domingos e feriados é um ponto positivo, mas as frotas são reduzidas e os passageiros chegam a esperar por mais de uma hora no ponto de ônibus. Foto: Daniel Lima

Ao desembarcar na Rodoviária do Plano Piloto, a espera por uma linha circular até as margens do lago chega a passar de 40 minutos. “Não adianta colocar a gratuidade enquanto as frotas diminuem. No terminal, os domingos são impossíveis, o metrô demora e o ônibus fica sem previsão no aplicativo oficial. É gratuito, mas causa muita frustração”, desabafa Júlia. Usuários que não dispõem de orçamento para custear transporte por aplicativo ficam restritos a áreas próximas às paradas principais, reduzindo as opções de aproveitamento da margem do lago.

Além disso, esses pontos apresentam escassez de banheiros públicos com manutenção regular e de bebedouros em funcionamento. A ausência desses equipamentos públicos gratuitos gera dependência do comércio privado do entorno. Os frequentadores precisam arcar com despesas de alimentação e consumo cujos preços são balizados pelo custo de vida elevado do Plano Piloto, Lago Sul e Lago Norte, gerando gastos adicionais que impactam o orçamento de descanso das famílias.

Os problemas logísticos e a falta de assistência direta na orla interferem diretamente na experiência de quem finalmente conseguiu acessar o local. A estudante de direito Isadora Alencar, de 26 anos, que passou a frequentar as margens do lago com mais frequência após a implementação da gratuidade, sente na pele a ausência de suporte institucional e cobra melhorias para além da catraca livre. “Acho que o lago ainda precisa de mais segurança, mais limpeza, mais banheiros públicos e uma estrutura melhor para os visitantes, como bancos, iluminação e opções de lazer e alimentação mais organizadas”, afirma.