Empreendedorismo feminino ganha força por meio de redes de apoio e capacitação

Apesar do avanço no número de mulheres à frente de negócios próprios, desafios como acesso ao crédito, desigualdade de oportunidades e conciliação entre trabalho e vida familiar ainda limitam sua participação no setor.

Ândrea Luiza

Postado em 03/06/2026

Por Ândrea Ribeiro, Giordanna Marques, Maria França e Mariana Carvalho

O Brasil registrou, nos últimos 10 anos, um crescimento de 27% no empreendedorismo feminino. Esse salto foi 16 pontos porcentuais maior que o verificado entre homens empreendedores no mesmo período. É o que aponta um estudo realizado pelo Sebrae a partir de dados trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Dados de Domicílio Contínua (PNAD Contínua). No Distrito Federal, o contexto não é diferente: cada vez mais mulheres têm transformado habilidades, experiências profissionais e iniciativas pessoais em negócios próprios.

Eventos de inovação são espaços onde empreendimentos femininos se destacam.

Dados recentes indicam que 116 mil mulheres comandam seus próprios negócios na capital do país, dentro de um universo de 328,3 mil empreendedores, considerando o quarto trimestre de 2025. O número representa um crescimento expressivo ao longo dos últimos anos e reforça o avanço da participação feminina no empreendedorismo local. No entanto, apesar desse progresso, as mulheres ainda representam uma parcela minoritária do total de empreendedores, evidenciando que a igualdade de participação no setor está longe de ser alcançada e que barreiras estruturais continuam limitando seu protagonismo econômico.

Empreender exige planejamento, investimento, conhecimento e, muitas vezes, coragem para enfrentar incertezas. Para as mulheres, os desafios costumam ser ainda maiores, incluindo dificuldades de acesso ao crédito, sobrecarga de responsabilidades familiares e preconceitos persistentes no ambiente de negócios. Além disso, muitas mulheres recorrem ao empreendedorismo não apenas por oportunidade, mas também como alternativa diante das dificuldades de inserção e permanência no mercado formal de trabalho, o que revela desigualdades que vão além do universo empresarial. 

Nesse cenário, redes de apoio, programas de capacitação e iniciativas voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo feminino têm desempenhado um papel fundamental para que cada vez mais mulheres transformem seus projetos em negócios sustentáveis. Ainda assim, o crescimento do empreendedorismo feminino também levanta a necessidade de discutir políticas públicas e mecanismos que garantam condições mais equitativas para que esses negócios possam se desenvolver e permanecer competitivos no longo prazo.

Empreendedorismo feminino avança, mas ainda enfrenta desafios estruturais

Essa é a realidade observada por Bia Portela, empresária do setor de tecnologia e atual presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) de Águas Claras. Em entrevista, ela compartilhou sua trajetória profissional, os desafios enfrentados pelas mulheres empreendedoras e o papel das redes de apoio no fortalecimento dos negócios femininos.

Bia Portela acumula importantes reconhecimentos nacionais na sua trajetória como empresária do setor de tecnologia.

À frente de empresas voltadas para marketing digital, automação, inteligência artificial e mineração de dados, Bia acumula importantes reconhecimentos nacionais. Sua empresa conquistou o primeiro lugar na etapa distrital do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios e, posteriormente, alcançou reconhecimento nacional na categoria Ciência e Tecnologia, tornando-se a única representante do Centro-Oeste a conquistar essa premiação. Além disso, sua atuação empresarial já recebeu distinções como o Brasil Startup Awards, o prêmio Mulher Inovadora do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e outras premiações ligadas à inovação tecnológica e ao empreendedorismo. 

Apesar dos resultados, Bia afirma que a trajetória não foi construída sem obstáculos. “Quando eu chego em reuniões da área de tecnologia, muitas vezes, sou a única mulher na mesa. Em diversas situações, as pessoas perguntam se sou secretária de alguém ou se meu marido é quem desenvolve os projetos. Ainda existe uma dificuldade muito grande em reconhecer mulheres como líderes em áreas técnicas”, relata. Segundo ela, menos de 5% dos cargos de liderança em determinados segmentos tecnológicos são ocupados por mulheres, o que reforça a necessidade de iniciativas voltadas para inclusão e fortalecimento feminino.

Um dos temas centrais da entrevista foi a chamada dupla ou até tripla e quádrupla jornada enfrentada pelas mulheres. Para Bia, enquanto muitos homens conseguem dedicar grande parte do tempo exclusivamente ao trabalho, as mulheres costumam dividir sua rotina entre empresa, filhos, casa, estudos e cuidados familiares. “A mulher é empresária, mãe, esposa, filha e cuidadora. Muitas vezes ela precisa sair de uma reunião para buscar o filho na escola ou levá-lo ao médico. Essa realidade impacta diretamente a forma como ela empreende”, explica. A gestão do tempo aparece, segundo ela, como uma das principais dificuldades enfrentadas pelas empreendedoras. Mesmo diante dessas responsabilidades, estudos mostram que as mulheres costumam investir mais anos em formação acadêmica do que os homens. Ainda assim, frequentemente recebem salários menores e ocupam menos espaços de poder e tomada de decisão.

CMEC fortalece conexões e oportunidades 

Diante desse contexto, as redes de apoio exercem um papel essencial na trajetória das empreendedoras brasileiras. Nesse cenário, o Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) vem desenvolvendo importantes ações de incentivo, capacitação e fortalecimento do empreendedorismo feminino no país. Por meio de eventos, mentorias, programas de qualificação e criação de conexões entre empresárias, o CMEC contribui para ampliar oportunidades, fortalecer negócios liderados por mulheres e promover maior participação feminina na economia brasileira.

O CMEC Águas Claras mostra na prática e se destaca por sua atuação mais próxima da comunidade empresarial local, criando espaços de networking, rodas de conversa, feiras temáticas, capacitação e troca de experiências entre empreendedoras da região. A atuação do núcleo contribui para fortalecer a presença feminina no mercado e já conta com cerca de 370 empresas cadastradas e pretende alcançar a marca de 800 participantes até o final do ano. O objetivo é estimular o desenvolvimento econômico local e ampliar oportunidades para mulheres que buscam crescimento profissional e autonomia financeira. “A capacitação é importante, mas não basta apenas ensinar. É preciso gerar oportunidades reais de negócios e fortalecer conexões entre as mulheres”, destaca.

A presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) de Águas Claras, Bia Portela, declara que a construção de redes de apoio é fundamental para que mulheres empreendedoras tenham um ambiente seguro para compartilhar desafios, trocar experiências e desenvolver negócios. “Quando uma mulher erra, muitas vezes ela é julgada com muito mais rigor. Em uma rede de apoio, ela encontra um ambiente seguro para aprender, perguntar, crescer e se desenvolver sem medo”, afirma. Segundo a empresária, a força coletiva também permite ampliar a representatividade feminina em demandas sociais e econômicas. Ela cita como exemplo mobilizações realizadas por empresárias de Águas Claras para solicitar melhorias urbanas e questões relacionadas à segurança pública. “Quando uma mulher faz um pedido sozinha, muitas vezes ela não é ouvida. Mas quando esse pedido representa centenas de empresárias, ele ganha força institucional.” Bia destacou a dificuldade do acesso a crédito para obter financiamento, mesmo apresentando histórico positivo de pagamento. Por isso, o CMEC tem promovido iniciativas específicas para discutir educação financeira e ampliar o conhecimento sobre linhas de crédito disponíveis. 

Entre os projetos anunciados está a realização da primeira Feira do Crédito para Mulheres em Águas Claras, reunindo instituições financeiras e especialistas para orientar empreendedoras. Portela fez críticas ao excesso de conteúdos excessivamente teóricos em cursos e programas de empreendedorismo. Segundo ela, muitas iniciativas oferecem informações importantes, mas pouco aplicáveis à realidade das participantes. “Não adianta entregar apenas um certificado. A pessoa precisa sair sabendo fazer algo na prática.” Para a empresária, capacitações voltadas para o uso de ferramentas digitais, gestão financeira, marketing, vendas e inteligência artificial geram resultados mais concretos para quem está começando. Na avaliação da empresária, o Distrito Federal vem avançando na criação de políticas voltadas ao empreendedorismo feminino.

Ela destacou iniciativas apoiadas pelo Sebrae, programas governamentais de incentivo ao empreendedorismo e a recente aprovação de legislação específica para mulheres empreendedoras no DF. Entretanto, acredita que ainda há um desafio importante: descentralizar essas ações. “Muitas oportunidades ficam concentradas na área central de Brasília. A mulher que mora em regiões mais afastadas muitas vezes não consegue participar por questões de transporte, custo ou deslocamento.”Segundo ela, regiões como Samambaia, Recanto das Emas, Itapoã, São Sebastião e Sol Nascente precisam receber o mesmo nível de investimento, estrutura e oportunidades disponíveis no Plano Piloto. 

Conexões que transformam trajetórias 

Empreender nem sempre é uma jornada solitária. Para muitas mulheres, o apoio de outras empreendedoras tem sido um fator decisivo para superar desafios, ampliar oportunidades e fortalecer negócios. A empresária e enfermeira Ana Geiza de Lima Rodrigues, proprietária da clínica Moriah Estética, em Águas Claras, afirma que encontrou no grupo um ambiente de acolhimento e crescimento profissional. “Quando eu conheci o CMEC, eu me conectei a um grupo de mulheres que eu falei: gente, isso é incrível. É incrível porque tem pessoas de todas as áreas. Nós nos ajudamos mutuamente, porque é ali onde as conexões acontecem”, relata.

Segundo ela, a participação no conselho ampliou sua rede de contatos e abriu portas para novas parcerias. O relacionamento construído entre as participantes se tornou uma ferramenta importante para o desenvolvimento dos negócios. “O CMEC de Águas Claras, para mim, está sendo um divisor de águas. Eu me sinto como se agora existisse um antes e um depois”, afirma. 

Ana Geiza de Lima Rodrigues afirma que encontrou no grupo de mulheres empresárias um ambiente de acolhimento e crescimento profissional.

Mais do que networking, Ana acredita que a troca de experiências entre mulheres fortalece a confiança e cria oportunidades que dificilmente seriam alcançadas de forma isolada. “Quando você se une a uma pessoa, você não apenas dobra as suas possibilidades. Você multiplica. Existe um segredo quando duas pessoas se unem”, destaca. A empresária conta que a importância das conexões já fazia parte de sua trajetória antes mesmo de conhecer o conselho. Há dois anos, ela promove encontros mensais em sua clínica para reunir mulheres empreendedoras, estimular o compartilhamento de experiências e criar um ambiente de apoio mútuo. “Eu acredito que relacionamento é a chave do sucesso. É nos relacionamentos que nós somos feridos, mas é nos relacionamentos que nós somos curados também. Então, o relacionamento é a chave para a vida”, diz. 

Para Ana, um dos maiores benefícios das redes femininas é a possibilidade de ajudar outras mulheres a empreender.

Para Ana, um dos maiores benefícios das redes femininas é a possibilidade de ajudar outras mulheres a encontrarem caminhos para empreender e conquistar autonomia financeira. “Quantas mulheres vivem aprisionadas em uma situação sem esperança, sem perspectiva? Hoje eu quero ver mulheres curadas, mulheres posicionadas, mulheres que acreditam”, ressalta. Ela acredita que iniciativas como o CMEC cumprem um papel fundamental ao incentivar o protagonismo feminino e criar espaços onde as empreendedoras podem crescer juntas. “O CMEC está totalmente ligado ao meu propósito de vida, que é poder promover na vida das pessoas oportunidades”, conclui.

Políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo feminino no Distrito Federal

O empreendedorismo feminino tem ganhado espaço nas políticas públicas do Distrito Federal como estratégia de promoção da autonomia econômica, redução das desigualdades de gênero e fortalecimento do desenvolvimento local. Nos últimos anos, o Governo do Distrito Federal (GDF) ampliou investimentos e criou programas voltados à capacitação, ao acesso ao crédito e ao fortalecimento de redes de apoio para mulheres empreendedoras.

Um dos principais avanços foi a criação da Política Distrital de Apoio e Estímulo ao Empreendedorismo Feminino, instituída pela Lei nº 7.582/2024. A legislação busca garantir igualdade de acesso das mulheres às atividades produtivas, incentivando a qualificação profissional, a inclusão econômica e o acesso a linhas de crédito para negócios liderados por mulheres.

Além da lei, o GDF lançou o programa Movimente DF, criado pelo Decreto nº 46.500/2024. A iniciativa tem caráter intersetorial e reúne órgãos públicos, setor privado e sociedade civil para desenvolver ações voltadas ao empreendedorismo feminino. Entre seus objetivos estão a ampliação do acesso a serviços públicos, o fortalecimento de competências gerenciais, a criação de redes de apoio e a promoção da autonomia financeira, especialmente para mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Outra frente importante é a atuação da Secretaria de Estado da Mulher do Distrito Federal, que oferece cursos de capacitação, orientação para negócios e programas de geração de renda. Os espaços PROMulher, por exemplo, promovem qualificação profissional em áreas como gestão financeira, recursos humanos e empreendedorismo, ampliando as oportunidades de inserção no mercado de trabalho e de criação de pequenos negócios.

No campo do financiamento, programas como o Prospera disponibilizam crédito orientado para micro e pequenas empreendedoras. Dados de 2025 mostram que dezenas de mulheres foram beneficiadas por financiamentos produtivos, facilitando o acesso a recursos que muitas vezes não seriam obtidos no sistema financeiro tradicional.

Também se destacam iniciativas de qualificação profissional, como o Fábrica Social, que oferece formação para mulheres em situação de vulnerabilidade social, contribuindo para a geração de renda e para a autonomia econômica.

Dessa forma, as políticas públicas do Distrito Federal voltadas ao empreendedorismo feminino combinam capacitação, crédito, assistência técnica e fortalecimento institucional. Embora desafios como acesso ao financiamento, desigualdades de gênero e conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares ainda persistam, as iniciativas recentes demonstram um esforço crescente para ampliar a participação das mulheres na atividade econômica e no desenvolvimento regional.