A história de luta, fé e o folclore da Vila Cultural Cobra Coral
Por Luara F. Oliveira Às margens da Avenida das Nações, em Brasília, existe um pedaço da capital que o planejamento urbano nunca previu. A Vila Cultural Cobra Coral nasceu em 20 de março de 1970 sobre um terreno coberto de entulhos das obras da Novacap e, em 56 anos, se tornou um território de mais […]
Postado em 02/07/2026
Por Luara F. Oliveira
Às margens da Avenida das Nações, em Brasília, existe um pedaço da capital que o planejamento urbano nunca previu. A Vila Cultural Cobra Coral nasceu em 20 de março de 1970 sobre um terreno coberto de entulhos das obras da Novacap e, em 56 anos, se tornou um território de mais de 47 mil metros quadrados com história, cultura, fé e identidade próprias.
O que começou como uma pequena ocupação cresceu e hoje reúne terreiro, capela, um dos primeiros centro espíritas de Brasília, espaços culturais e sociais. Além de uma comunidade diversa que promove uma convivência rara de respeito e apoio na capital federal, mas enquanto a cultura e a espiritualidade florescem entre as árvores plantadas e preservadas pelos próprios moradores, os habitantes da vila travam uma batalha silenciosa pelo direito de existir: sem regularização fundiária, sem saneamento público e sob constante ameaça de remoção, a comunidade luta há décadas para que o poder público reconheça o lar que ela mesma construiu.
Os moradores contam que Seu Luís, fundador da Vila Cobra Coral, comprou um terreno baldio, batizado de Chácara Bananal, para morar com sua família, mas abriu seu espaço para que outras pessoas também pudessem construir um lar. Até aquele momento, o terreno era um depósito de entulhos e lixo e se tornou, através do árduo trabalho dos primeiros moradores, uma vila habitável e verde. Porém, para o governo do Distrito Federal, é uma ocupação ilegal que infrige justamente o que os moradores protegem: o meio ambiente da Asa Sul. Batalhas judiciais foram travadas para regularizar a área. Seu Luís entrou com um processo contra o governo do DF em 1999. No entanto, perdeu e a decisão foi colocada como trânsito em julgado. Desde então, os moradores da vila lutam para serem reconhecidos e sua moradia legalizada.
A falta de regularização não impediu o crescimento orgânico do lugar; pessoas chegavam, se estabeleciam e formavam famílias no espaço à margem da Via L4 Sul em meio à natureza e à pluralidade de religiões. Moradores antigos acolheram os novos residentes, que também trouxeram cultura e sabedoria, ajudando a construir a potência que a Vila Cobra Coral é hoje.
Berço de um dos primeiros centros espíritas de Brasília, a vila recebeu o nome por conta de uma mãe de santo que fazia trabalhos no centro e que incorporava um caboclo, um espírito indígena, chamado Cobra Coral. Seu Luís, que estava à frente do centro na época, batizou não só o local com o nome do espírito indígena como também a vila que se formava.
Seu Luís faleceu em 2022 e além de esposas, filhos, netos e bisnetos, deixou com a Cobra Coral, um legado, e em 56 anos de história, a Vila recebeu um novo nome, diversos moradores e muitas transformações. A morada com nome de caboclo é lar para uma média de 230 famílias, mais de mil pessoas, sendo 400 crianças, de acordo com registros da vila até 2025.
José Basílio Filho foi uma das pessoas que encontrou um lar no reduto há mais de 20 anos, lá criou seus dois filhos e atua fortemente na proteção da comunidade, se consagrando como líder comunitário. “Minha atuação foi muito forte aqui na Vila, em 2009, quando tentaram derrubar, eu e meu irmão que negociamos com o IBRAM e adiaram […], acredito que essa atuação foi o que levou os moradores a me verem assim”, explica o morador. Seu José defende a permanência da vila com afinco e luta na linha de frente, sabendo a importância do lugar não só para Brasília, mas para o Brasil, já que lá nasceu o primeiro folclore 100% brasiliense. O sentimento pela Cobra Coral passou de pai para filho e hoje, seu filho Carlos Magno, se tornou outra liderança importante para a comunidade.

A Vila Cobra Coral é dividida em três áreas: a conservada, a parte do meio e a parte da Dona Miriam. Na parte ‘conservada’, encontram-se os moradores mais antigos da vizinhança, como por exemplo a família do seu Luís. Além de residentes com muita história para contar, essa primeira parte da vila abriga o projeto social Espaço Inventado, um local que além de receber as crianças da vila fora do horário escolar para aprenderem a cuidar do meio ambiente, artes diversas e capoeira, abriga também reuniões da liderança da vila.
A parte do meio nasceu em 2015, o que de acordo com o líder da Vila, Carlos Magno, causou medo na população da Asa Sul. “Em sua grande parte os moradores são pessoas simples. Aqui têm pessoas com vulnerabilidade econômica. Pessoas que não têm condições de trabalhar, que estão com doenças graves, idosos. A gente têm pessoas idosas aqui na área, que precisam disso aqui (da vila). Não temos criminosos e ninguém que quer fazer mal, apenas pessoas que querem viver”, explica Carlos Magno, atual líder comunitário. Nesta parte da comunidade, reside o projeto sociocultural Waldir Azevedo, que além de, levar aulas de instrumentalização para as crianças, também oferece reforço escolar.
Já a ‘Parte da Dona Miriam’, é chamada assim por conta de uma das moradoras mais antigas da região, que além de uma figura de resistência e gentileza, promove trabalhos de caridade na vila. Assim como a residente longeva, diversas outras pessoas importantes, para a proteção e manutenção da vila, vivem ou já viveram no local, como Gabriela Sandoval, importante figura na parte cultural da vizinhança, que faleceu na época da COVID-19, mas que está eternizada em um dos comitês da ocupação, que recebe seu nome.

Em 2025, os moradores se reuniram para colocar uma placa em frente à vila e deixar claro que o local, cheio de vida por conta do meio ambiente, abriga vidas humanas. “Antes de colocarmos a placa, quase ninguém sabia o que tinha aqui, a placa foi a nossa identidade, como se falássemos ‘Estamos aqui’”, relata Carlos Magno. A Vila Cobra Coral é feita de pessoas e para pessoas, um organismo com história, luta, cultura e fé, que se mantém vivo e pulsante, mesmo quando as probabilidades estão contra eles.
Entre ordens de despejo e cinco mil árvores plantadas, Vila Cobra Coral resiste
Por Tiago José de Sá Freire
“Foi o parque que avançou sobre a Vila, e não a Vila que invadiu o parque”, é o relato Carlos Magno Basílio, o líder comunitário da Vila Cultural Cobra Coral. Segundo ele, a Vila já estava consolidada muito antes da criação dos parques na região, e ao longo dos anos, os próprios moradores limparam os entulhos e plantaram mais de 5.000 árvores na área e no interior do parque. Segundo a própria comunidade, foi essa revitalização e a plantação feita por eles no passado que abriu caminho para o atual parque ecológico, e que sempre houve uma convivência sustentável. Na época da fundação da Vila, em março de 1970, Ananias, um antigo funcionário da Novacap, repassou os direitos de posse do lote (atual lote 54) para o Seu Luís, o fundador da Vila, de forma amigável, e lá se estabeleceu. O terreno funcionava como depósito de entulhos para as obras da Novacap, e acabou se tornando berço de um dos primeiros centros espíritas de Brasília.
A Vila se encontra no Parque Ecológico da Asa Sul, e por este motivo, houve um conflito territorial com o governo, além do fato de que não houve nenhum processo ou autorização legal prévia para que os moradores se instalassem naquele local. A formação da Vila ocorreu de forma orgânica, e foi caracterizada oficialmente como uma “ocupação”, um termo jurídico que é definido como um assentamento que se estabelece sem autorização legal prévia. De acordo com o Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) do DF, não pertence a nenhum Setor Habitacional de Regularização, que são áreas urbanas informais que estão passando pelo processo de legitimação fundiária e urbanística.
Por conta da sua condição de ocupação informal, a infraestrutura do local fica por conta dos próprios habitantes. Não existe serviço de saneamento público, eles usam fossas para lidar com a falta de estrutura, variando entre ecológicas e convencionais, e ainda assim, ocorrem descartes indevidos em algumas casas. Segundo Carlos Magno, a Vila tenta ativamente, em parceria com órgãos como a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (CAESB) e Neoenergia, obter o acesso a serviços básicos, demonstrando o desejo de ter esgoto encanado e pagar as contas de água e luz formalmente. Esses serviços, porém, nunca foram instalados devido aos entraves judiciais relacionados ao lote 54 da Terracap, e no momento, é a maior urgência da comunidade. Em 1999, a Terracap moveu uma ação de reintegração de posse referente ao lote contra o Seu Luís, e atualmente, a situação das famílias que habitam essa parte da comunidade se encontra em discussão na Comissão Regional de Assuntos Fundiários do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). A tramitação atualmente encontra-se em andamento e em fase de medição ativa, com avanços práticos decorrentes de audiências e inspeções judiciais recentes.

Estar na poligonal do parque traz não apenas essa consequência, mas também o risco de demolição e despejo. Por se tratar de uma área considerada de proteção ambiental exclusiva, os lares ali localizados receberam diversas notificações e ordens de demolição do Governo do Distrito Federal (GDF) e do Instituto Brasília Ambiental (IBRAM) ao longo dos anos. Como forma de solução, a comunidade elaborou projetos técnicos em parceria com a UnB com o intuito de alterar os limites oficiais da área, de modo a deixar a vila de fora da zona restrita. Em troca, ela ofereceria contrapartidas de compensação ambiental para provar que a ocupação pode coexistir de maneira sustentável com a natureza ao redor.
Carlos Magno questiona o rigor adotado pelo Estado em relação à proteção do parque, comparando a diferença de tratamento da Vila com o Colégio Eleva Brasília, o vizinho da comunidade, localizado na 614 Sul, no lote 100. Segundo o líder da Vila Cultural, a escola aterrou duas nascentes essenciais do parque, e apesar da degradação ambiental, a instituição não sofreu ordens de demolição, ao invés disso, foi fiscalizada e recebeu a oportunidade de apresentar um projeto de compensação ambiental para compensar o dano causado. Diante do fato, Carlos levanta o questionamento: “Se uma instituição privada causou grandes danos à natureza e ainda assim teve o direito de dialogar e reajustar seus limites, por que uma vila comunitária que não degradou o parque e plantou milhares de árvores não têm o mesmo direito?”. Em 2018, a comunidade participou ativamente do plano de manejo do Parque da Asa Sul, onde foi votado que seriam discutidas alternativas para a permanência da vila, contudo, em 2019, o Ibram ignorou o acordo, excluindo a Vila das audiências e emitindo ordens de demolição.
De acordo com a 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (Prodema) do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), a área desmatada nas proximidades da escola já foi alvo de intervenção e aplicação de multa. Em resposta aos impactos causados, os responsáveis pela instituição de ensino foram obrigados a elaborar e executar um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (Prad).
No dia 26 de junho de 2025, um grupo de 65 moradores se reuniu no Espaço Inventado, um dos espaços culturais da Vila, para criar formalmente um documento que serve como “certidão de nascimento” formal e jurídica da Associação Comunitária da Vila Eco Cultural Cobra Coral, uma entidade jurídica que representa a Vila na luta pela regularização fundiária e defesa do direito à moradia. O documento, lido durante a Assembleia Geral de Constituição da associação, foi devidamente registrado em cartório, formalizando e documentando a criação da associação representativa dos moradores da comunidade. Durante a reunião, os principais pontos decididos foram: a aprovação do Estatuto Social da Associação, documento que estabelece regras, objetivos e diretrizes de funcionamento da Associação; a eleição da Diretoria Executiva e do Conselho Fiscal, onde a única chapa inscrita, chamada apenas de “Cobra Coral”, foi eleita com 63 votos, definindo Carlos Magno Basílio como presidente e Ludiana Thaís Lacerda de Melo como vice-presidente; e a designação da sede provisória da associação, no endereço SES 813, Lotes 53/54.
Também foram discutidos temas de interesse coletivo para o futuro do grupo. Foi proposta a criação de uma mensalidade para ajudar a associação a se manter, e a Diretoria declarou que fez uma pesquisa junto aos associados para chegar em um valor de comum acordo. Outro tópico debatido foi a necessidade de organizar a comunidade, por meio de subgrupos separados por ruas (rua de baixo, rua do meio e rua de cima). Por fim, debateram sobre o Projeto Eco Vila Cultural, que tem como foco a sustentabilidade, melhoria da habitação e promoção de cultura.

Polo religioso da Vila Cobra Coral reúne fé, tradição e comunidade
Por João Guilherme
Entre celebrações e encontros, espaço se torna símbolo de união e respeito para moradores.
Na Vila Cultural Cobra Coral, a religião não ocupa apenas um espaço físico. Ela atravessa a história da comunidade, molda relações de convivência e ajuda a explicar por que o território se mantém vivo há mais de cinco décadas no coração de Brasília. Entre vielas, árvores e casas construídas coletivamente, diferentes expressões de fé convivem lado a lado: católicos, espíritas, umbandistas, praticantes das religiões de matriz africana e evangélicos dividem o mesmo território sem que uma crença apague a outra.
A própria origem da vila está ligada à espiritualidade.O nome “Cobra Coral” está relacionado a elementos da tradição espiritual presentes na comunidade desde sua formação, refletindo práticas religiosas e culturais desenvolvidas por parte dos moradores ao longo de sua história. Com o passar do tempo, o espaço se consolidou como um dos principais redutos de diversidade religiosa popular do Distrito Federal, carregando marcas da cultura afro-brasileira, da religiosidade popular e das práticas comunitárias construídas coletivamente pelos moradores.
Na vila, a religião se mistura à rotina. É comum ouvir cantos religiosos vindos dos terreiros ao mesmo tempo em que famílias seguem para celebrações católicas ou cultos evangélicos. Os moradores contam que a convivência entre diferentes crenças sempre aconteceu de forma natural, sem disputas por espaço ou tentativas de imposição religiosa. O povo participa das festas, ajuda quando precisa e entende que a espiritualidade faz parte da história da vila”, afirma o líder comunitário José Basílio Filho.
A fé católica mantém presença histórica na comunidade por meio da capela São Raimundo Nonato, espaço frequentado por moradores mais antigos e conhecido também pelas ações sociais desenvolvidas junto às famílias da região. Além das celebrações religiosas, a capela já serviu de apoio para campanhas de arrecadação, encontros comunitários e momentos de mobilização da população em períodos de ameaça de remoção da vila.

Os grupos evangélicos também possuem atuação ativa na comunidade, principalmente em ações de acolhimento social e assistência a famílias em situação de vulnerabilidade. Apesar das diferenças doutrinárias, moradores relatam que a convivência religiosa nunca gerou grandes conflitos internos. “Sempre houve respeito. A vila nasceu assim, diversa. Aqui ninguém precisa esconder sua fé. Viver é estar ligado em uma só energia”. Relata Marta Brandão Lima, moradora da vila.
Hoje, um dos principais símbolos dessa presença espiritual é o Centro Espírita Pai Joaquim de Aruanda, conhecido pelos atendimentos espirituais realizados semanalmente e pela circulação constante de pessoas vindas de diferentes regiões do Distrito Federal e até de outros estados. No local, são realizados passes, aconselhamentos espirituais e trabalhos voltados à cura emocional e espiritual. Em dias de atendimento, o movimento altera a rotina da vila: carros estacionam nas entradas estreitas da comunidade e visitantes ocupam os espaços coletivos em busca de apoio religioso.
A espiritualidade de matriz africana também ocupa papel central na identidade cultural da Cobra Coral. Entre os espaços mais conhecidos está a Casa de Xangô, liderada por Seu Ilauro desde 2002. O terreiro funciona como espaço de acolhimento religioso, fortalecimento cultural e preservação das tradições afro-brasileiras. “São muitos anos de casa. Estar aqui é usar minha espiritualidade para ajudar meus irmãos. A vila faz parte da minha vida e da minha missão”, relata Ilauro.
Além dos rituais religiosos, os terreiros da vila também atuam como espaços de proteção social. Moradores, como Aluísio Fernandes da Silva, de 52 anos, relata que muitas pessoas procuram os líderes religiosos em momentos de dificuldade financeira, problemas familiares ou situações de sofrimento emocional. “Eu já trouxe muitas pessoas aqui na casa de Xangô, conhecidos e até mesmo colegas de trabalho. Quando se tem alguma dificuldade, a fé pode ajudar. É fé”, relata. Em muitos casos, o acolhimento espiritual acaba funcionando também como rede de apoio comunitário.
A presença das religiões de matriz africana na vila carrega ainda um significado histórico de resistência. Em Brasília, comunidades periféricas e territórios populares foram, durante décadas, alguns dos poucos espaços onde práticas religiosas afro-brasileiras conseguiram se manter de forma mais livre e coletiva. Na Cobra Coral, os tambores, as festas tradicionais, os pontos cantados e as cerimônias religiosas fazem parte da memória afetiva da comunidade e ajudam a preservar saberes ancestrais transmitidos entre gerações.

Mais do que tolerância, os moradores costumam definir essa relação como uma convivência construída no cotidiano. Festas populares misturam samba de roda, capoeira, espiritualidade e memória ancestral. Crianças crescem convivendo com diferentes símbolos religiosos, aprendendo desde cedo a circular entre crenças distintas sem estranhamento.
Em uma capital planejada para separar setores e funções urbanas, a Vila Cobra Coral acabou criando outra lógica: a de um território onde religião, cultura e comunidade caminham juntas. Os tambores dos terreiros convivem com os cultos cristãos e com práticas espíritas em um mesmo espaço de resistência cultural e religiosa.
Para muitos moradores, a dimensão religiosa da vila vai além da fé. Ela representa pertencimento, acolhimento e continuidade histórica em meio às constantes ameaças de remoção enfrentadas pela comunidade. “A vila sobrevive porque existe união. E essa união também vem da espiritualidade do povo daqui”, resume “Dona Miriam”, como gosta de ser chamada, uma das moradoras mais antigas da vila.
Ao longo dos anos, a diversidade religiosa da Vila Cultural Cobra Coral também ajudou a construir uma sensação de proteção coletiva entre os moradores. Em datas festivas ou momentos difíceis, é comum que diferentes grupos religiosos se unam em ações comunitárias, reforçando vínculos que ultrapassam qualquer diferença de crença. Festas tradicionais como “festa de pai Xangô” organizadas na vila costumam reunir moradores e visitantes de todas as idades em celebrações marcadas por música, comida compartilhada e manifestações culturais que misturam elementos da religiosidade popular brasileira.

Para muitos jovens que cresceram na comunidade, conviver diariamente com essa pluralidade tornou natural o respeito às diferentes formas de expressão espiritual. Essa convivência também contribuiu para preservar práticas culturais que, em outros espaços urbanos, acabaram sendo invisibilizadas ou marginalizadas ao longo do tempo. Na Cobra Coral, a fé continua presente não apenas nos rituais religiosos, mas também na maneira como os moradores constroem relações de cuidado e solidariedade.
O conto onde o cerrado se transforma em fábula e o festejo em política
Ana Luísa Ferreira de Souza
“Não vivemos para fazer uma festa, nós fazemos festa porque vivemos.”
Adentrando as paredes coloridas da vila, pode-se observar um caleidoscópio de cores e melodias que preenchem um espaço já abundante. As manifestações de fé e resistência se mesclam em uma aquarela exuberante até serem transmutadas em algo ainda maior, mais belo, mais vivaz. Em uma celebração da arte, o espaço consolida um legado também cultural, tornando-se berço do primeiro folclore brasiliense – o calango voador, filho do Sol e da Terra, celebra o cerrado e agracia as terras candangas com suas inúmeras aventuras.
Narrada pelo coletivo de cultura Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, a história de Brasília ganha mitologia própria. Criado em 2004, o folclore surge como ilustração oral do contorno do quadradinho – as “asas de avião” e as tesourinhas, os ventos secos do bioma candango, tudo se mistifica em uma explicação lúdica das origens da capital, que se transforma em patrimônio imaterial e cultural. “O calango tem esse elemento de se rastejar e subir ao céu, momento em que os dois espaços – e nós também, nas encenações – se juntam”, explica Tico Magalhães, capitão e fundador do coletivo, iluminando o encanto de uma fábula que não deve se restringir apenas ao retrato narrado.
O que nasce do chão rachado do cerrado e sobe às alturas atravessa o ideal de uma criatura imaginária e se metamorfoseia em uma declaração de pertencimento. Em uma cidade construída do zero, importada de sonhos e suores de tantos cantos do Brasil, a invenção de um mito próprio carrega um peso quase político. O calango não foi encontrado por mero acaso: foi criado, coletivamente, com a passionalidade de quem finca uma bandeira no pó vermelho e brada que este lugar tem alma. E é justamente esse gesto fundador que o coletivo celebra e perpetua, ano após ano, festa após festa. Muito além do folclore, trata-se de um ato contínuo de afirmação identitária e a prova viva de que Brasília não é apenas uma capital administrativa, mas uma cidade que aprendeu, com o tempo, a se sonhar.
O cenário amarelo-canário e azul-coral torna-se ainda mais eufórico nas noites de setembro. O calango, flutuante e multicolor, sobrevoa círculos de foliões em um festejo do sincretismo cultural e religioso da região. Esta é a Festa Alada.
Entre tambores e movimentos que ecoam tradições de matriz africana, indígena e popular, a celebração se desenrola em um ritual de reinvenção coletiva. Corpos pintados atravessam o terreiro enquanto a fumaça de defumadores divide o espaço com o cheiro de comida partilhada – há algo sagrado nisto, mesmo para quem não professa nenhuma fé específica. A Festa Alada é, antes de tudo, um convite para parar, olhar ao redor e reconhecer os rostos que compõem a mesma cidade.
“Essas crenças populares têm o poder de reorganizar o coletivo. Acredito que nos perdemos muito da ideia de comunidade nesse mundo tão individual em que vivemos, e não apenas coletividade humana”, destaca Tico. “As festas são uma possibilidade de comunhão, uma forma mais afetuosa de se fazer política. Não vivemos para fazer uma festa, nós fazemos festa porque vivemos.” As palavras ganham peso ao observar a atmosfera da celebração: por uma noite, famílias e indivíduos das mais variadas particularidades se unem em uma grande roda. Uma ode ao terreno que pisam, ao calor que os cerca e à bravura de lutar por um mundo em que a ternura e a brincadeira atravessam os obstáculos do cotidiano.
Não só por uma noite, o coletivo promove duas tradições igualmente festivas em estações diferentes do ano. A Festa de Abrição inicia as atividades do grupo, homenageando a mãe de Seu Estrelo – a Sinhá Sereia Laiá. Símbolo da força das águas, ela limpa os caminhos de artistas e festeiros para renovar as energias do ano anterior e firmá-las com autenticidade. É um ritual de começo, um sopro de fôlego antes de o ano se lançar inteiro. Abertos os percursos para os ventos que chegam, a Festa Fuazeiro se estabelece com um estrondo musical. O mês de junho celebra a figura titular do coletivo: é dia de Seu Estrelo, cidadão honorário de Brasília. Sob o céu estrelado do cerrado, as expressões artísticas – que misturam dança e canto com pintura corporal – celebram não apenas a majestade do bioma, mas também o aniversário do coletivo Seu Estrelo e Fuá do Terreiro, fundado em 15 de junho de 2004.
A veia pulsante e artística da Vila Cultural Cobra Coral se expande com urgência, abrigando moradores e aficionados em outras formas de encontrar um lar. A Casa da Árvore emerge como ponto de encontro sustentável para ativistas, artistas e membros da comunidade. Desde música até artes circenses, a efervescência do local pode ser extravasada com pluralidade e muito gosto. As heranças brasileiras também ganham espaço pelo projeto Waldir Azevedo, iniciativa do casal Dudu Oliveira e Thaís Tosi, com o intuito de preservar e desenvolver manifestações musicais voltadas ao samba, reafirmando que a missão do espaço não é apenas criar novas histórias, mas honrar as que já existem. Para Dudu, a metodologia de ensino infalível nasce da espontaneidade do convívio social: “Por se tratar de um espaço de práticas e socialização, primeiro despertamos o olhar do aluno para um convívio lúdico e saudável, buscando inseri-lo de maneira natural. A partir daí, o aluno se envolve com tudo que está acontecendo lá dentro”.
A coluna dorsal do legado cultural do ambiente, entretanto, é um espetáculo mais delicado e sutil, enraizado nas formas de expressão que preenchem a vila. Repleto dos mais vívidos tons de verde e uma brisa de ar fresco entremeando duas casas sustentáveis, o Espaço Inventado reúne curiosos, apaixonados por arte e, sobretudo, crianças, ao oferecer um cenário aconchegante que combina o lúdico com o literário – além de reuniões dos líderes e coordenadores do espaço, que se evidencia cada vez mais como uma amálgama de celebração e tenacidade. O cerne, entretanto, vem de uma herança que chega de oceanos além: a Capoeira Angola, que preserva a cultura africana enquanto ensina às crianças a arte da luta e a importância da comunidade.
Ao final de qualquer visita à Vila Cultural Cobra Coral, fica uma sensação difícil de nomear com precisão, algo entre apreço e responsabilidade. Apreço pela dedicação das pessoas que escolheram, deliberadamente, construir beleza num mundo que frequentemente descarta tanto as delicadezas quanto as enxurradas de intensidade humana como detalhes supérfluos. E responsabilidade porque esses espaços não sobrevivem sozinhos: dependem do olhar cuidadoso de quem decide aparecer e perpetua uma verdade simples: o calango voa porque há quem ainda levante os olhos para o céu estrelado.
