Retratos gastronômicos de Brasília

Da comida nordestina às pizzas de balcão, restaurantes tradicionais revelam como migração, memória afetiva e diversidade ajudaram a construir a identidade gastronômica do Distrito Federal

Luiza Marinho Gomes Daniel

Postado em 02/07/2026

Por Giovanna Sfalsin, Lorena Rios, Luiza Marinho, Nicole Moreira e Rafaela Bomfim

Brasília é uma cidade construída por encontros. Da mistura de sotaques, receitas e tradições trazidas por pessoas de todas as regiões do país nasceu também uma cena gastronômica diversa, espalhada entre restaurantes tradicionais, bares de bairro, cafeterias, cozinhas internacionais e negócios familiares. 

No Distrito Federal, o setor de alimentação fora do lar movimenta a economia e emprega cerca de 100 mil pessoas, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no DF (Abrasel-DF). Ao todo, são quase 30 mil estabelecimentos de alimentação e hospedagem na capital.

Em uma cidade marcada pela migração desde a construção da capital, uma pergunta surge quase naturalmente: Brasília tem uma comida típica? 

A resposta talvez esteja justamente na dificuldade de definir apenas um sabor para representar a cidade. Entre receitas mineiras, comida nordestina, pratos árabes, tradições goianas e criações que nasceram no próprio Distrito Federal, a gastronomia brasiliense parece ter sido construída a partir da mistura, assim como a própria capital. 

Para o graduado em gastronomia, mestre e coordenador do curso de Nutrição do Centro Universitário IESB, Guilherme Theodoro, a própria origem de Brasília dificulta a construção de uma culinária típica única. “Brasília é uma cidade relativamente nova e o processo de construção dela foi totalmente atípico quando comparado com outras cidades do Brasil. Vieram pessoas de todos os cantos do país para construir a capital. Então é muito comum você encontrar aqui todo tipo de prato típico, principalmente influências do Sudeste e do Nordeste, que são muito fortes”, explica.

Segundo o professor, a pluralidade cultural presente no DF faz com que a cidade desenvolva uma gastronomia marcada justamente pela diversidade. “É difícil a gente ter um prato tipicamente brasiliense justamente por conta dessas influências todas, que ainda são relativamente recentes. Brasília é capital federal, então existe um fluxo muito grande de pessoas de todos os lugares. Isso acaba dificultando a consolidação de uma culinária única”, afirma.

Hoje, o Distrito Federal é considerado o terceiro maior polo gastronômico do Brasil, segundo Guilherme. “Isso acontece por vários fatores: ser a capital do país, ter um fluxo muito grande de pessoas, um índice de desenvolvimento humano alto e uma população com renda mais elevada. Tudo isso faz com que o setor gastronômico cresça muito aqui”, continua.

Além da diversidade culinária, muitos desses espaços também se transformaram em patrimônios afetivos da cidade. “O patrimônio afetivo está muito ligado às gerações. Existem restaurantes em Brasília que ultrapassaram gerações inteiras. Os pais frequentavam, depois os filhos passaram a frequentar também. Isso cria uma relação emocional muito forte entre a cidade e esses espaços”, explica.

Para entender como essa pluralidade ajudou a construir a identidade gastronômica brasiliense, a reportagem percorreu restaurantes de diferentes regiões do DF e ouviu chefs, proprietários, trabalhadores e clientes que ajudam a manter viva a memória culinária da capital.

Evolução do setor de alimentação fora do lar no DF (Crédito: Nicole Moreira/IESB)

Sabor da Terra

Localizado ao lado do Mercadão do Núcleo Bandeirante e próximo à feira permanente da região, o restaurante Sabor da Terra talvez passe despercebido para quem anda com pressa. A fachada é simples, sem luxo ou grandes elementos que chamem atenção. Mas basta se aproximar para perceber que o lugar carrega algo maior do que apenas comida. 

Comida nordestina no DF não é exatamente novidade. Na verdade, talvez seja impossível falar da história gastronômica de Brasília sem passar pelo Nordeste. A capital nasceu das mãos de milhares de trabalhadores nordestinos que vieram construir a cidade ainda nos anos 1950. Muitos ficaram, criaram raízes, abriram negócios, construíram famílias e transformaram seus costumes em parte do cotidiano brasiliense. 

No Núcleo Bandeirante, primeira ocupação candanga de Brasília, isso fica ainda mais evidente. Entre o mercadão, os bares, os açougues, as feiras e os restaurantes, a sensação é de atravessar uma pequena mistura entre Centro-Oeste e Nordeste. Em praticamente toda esquina existe algum prato típico ou alguém falando sobre buchada, sarapatel, carne de sol ou rabada.

E é justamente nesse lugar que o Sabor da Terra se mantém há décadas. O restaurante é comandado por Manoel Rodrigues Freire, de 55 anos, natural do Piauí e morador da região há 30 anos. 

Sentado em uma das mesas do restaurante, ele conta que chegou a Brasília em 1990, sem experiência no ramo da gastronomia e procurando apenas uma oportunidade de trabalho.

“Eu vim pra casa da minha irmã, né? Aí fiquei aqui, arrumei emprego. Depois minha esposa veio também. Eu fui ficando, trabalhando… Naquela época não foi fácil não. Quando eu cheguei aqui eu trabalhava muito. Trabalhava de dia e de noite também. À noite eu trabalhava em pizzaria e durante o dia aqui no restaurante”, relembra.

Antes de vir para Brasília, Manoel trabalhava na roça, no interior do Piauí. A rotina mudou completamente quando chegou ao DF. Sem dinheiro e sem conhecer muita gente, precisou começar do zero.

“Eu nunca tinha trabalhado em um restaurante. Quando eu cheguei aqui comecei nos serviços gerais. Depois fui melhorando, passei pra garçom. Aí de garçom fui cozinhar. Depois de uns 12 anos eu consegui comprar o restaurante”, conta.

Enquanto fala, Manoel parece revisitar mentalmente cada etapa da vida. “A minha história aqui foi um pouco sofrida, viu? Quando eu cheguei não tinha filho ainda. Depois vieram meus dois filhos e foi aquela luta. Pagando aluguel, trabalhando muito… Não foi fácil não. Mas graças a Deus deu certo”, afirma.

Rotina familiar

Hoje, o restaurante funciona praticamente em família. A esposa Antonieta trabalha ao lado dele e os filhos, Maurício e Marcílio, também ajudam no negócio. Um deles já concluiu os estudos e permanece no restaurante em tempo integral, enquanto o outro divide a rotina entre trabalho e faculdade.

“Graças a Deus aqui é muito cheio. O pessoal gosta muito da comida e gosta muito do atendimento também. Os dias mais fortes começam já na sexta-feira. Sexta, sábado e domingo é lotado”, conta Manoel.

Diferente de muitos estabelecimentos que adaptam receitas, o Sabor da Terra preserva pratos tradicionais que carregam forte valor cultural.

“O que a gente trabalha aqui mesmo é comida nordestina. Buchada, cabrito, sarapatel, rabada… Essas são as raízes mesmo. Depois eu acrescentei algumas coisas, tipo picanha e peito de frango, porque o pessoal procura também”, explica.

O cuidado com as receitas tradicionais é algo que Manoel faz questão de preservar. Entre os pratos mais procurados está a rabada com agrião, preparada da mesma forma há anos.

Segundo ele, o segredo começa ainda no preparo da carne.

“A gente tempera a rabada com alho, cebola, pimentão e alguns temperos da casa. Depois ela cozinha por várias horas até ficar bem macia. Quando está no ponto, a gente acrescenta os outros ingredientes e finaliza com o agrião, que dá aquele sabor característico”, explica.

O prato costuma ser servido acompanhado de arroz branco e temperado, pirão feito com o próprio caldo do cozimento, feijão fradinho e salada.

 A rabada é um dos pratos mais procuados (Crédito: Giovanna Sfalsin/IESB)

Memória afetiva

Entre todos os pratos, o sarapatel é o que ocupa o posto de identidade do restaurante. Tradicionalmente preparado com miúdos e sangue coagulado, ele é servido como uma espécie de cortesia aos clientes. Ao lado dele, aparecem outros pratos marcantes, como a buchada e a rabada. Na parte externa, a churrasqueira prepara carne de sol, picanha, cordeiro e contra-filé, que ficam expostos enquanto os clientes acompanham o preparo. 

Ao lado do restaurante, o Mercadão do Núcleo Bandeirante reúne bancas, açougues, vendedores antigos e ingredientes típicos que reforçam ainda mais a presença nordestina na região. Para Manoel, a localização ajuda no movimento do restaurante. “Aqui é muito bom de trabalhar porque o movimento do mercadão ajuda bastante. O pessoal vem pra feira, vem pro mercado, acaba vindo comer aqui também. Tem muita gente que frequenta aqui há muitos anos”, afirma.

Entre os frequentadores antigos está o aposentado José Carlos Mendes, de 63 anos, morador do Núcleo Bandeirante. Ele conta que almoça no Sabor da Terra há mais de dez anos e diz que o restaurante se tornou quase uma tradição de família. “Eu conheci o restaurante por indicação de um amigo e nunca mais deixei de vir. Às vezes venho sozinho, às vezes trago minha esposa e meus filhos. A comida tem aquele gosto de comida feita em casa, sabe? E o atendimento também faz diferença. O pessoal já conhece a gente pelo nome”, conta.

Atualmente, Manoel Rodrigues conta com o apoio da esposa e dos filhos, além de profissionais que o ajudam diariamente na rotina do restaurante (Crédito: Giovanna Sfalsin/IESB)

Segundo ele, alguns pratos já se tornaram obrigatórios nas visitas. “Quando eu venho, quase sempre peço a rabada ou a carne de sol. A rabada deles é muito boa, bem temperada e macia. Tem muito restaurante que muda a receita para agradar todo mundo, mas aqui eles mantêm a tradição. Acho que é isso que faz o pessoal voltar.”

Apesar da saudade da terra natal, Manoel conta que não pensa em voltar definitivamente para o Piauí. “Hoje eu gosto muito daqui. Foi aqui que deu certo pra mim. Foi aqui que eu consegui construir minhas coisas, criar meus filhos, conquistar o que eu tenho hoje. Eu gosto muito do Piauí, claro, minha família tá lá, minha mãe tá lá, meus irmãos também. Agora mesmo eu quero ir visitar denovo porque faz tempo que eu não vou. Mas morar lá de novo eu não penso não”, conta.

Depois de mais de 30 anos vivendo no DF, ele acredita que a capital não possui uma culinária única e específica justamente porque foi construída pela mistura. “Eu acho que Brasília tem um pouco de cada lugar. Aqui é muito misturado. Tem comida goiana, nordestina, mineira… Tem de tudo. Eu acho que essa é a característica daqui”, diz.

O maranhense Jardel Pereira de Almada, de 46 anos, trabalha no Sabor da Terra há cerca de três anos, sempre nos finais de semana. “Eu fico aqui só como extra. Trabalho sexta, sábado e domingo. Fora daqui eu trabalho em outro ambiente também, numa pizzaria. Aqui em Brasília você tem que ralar duro, senão não dá conta. Tem aluguel, tem mulher, tem filho… então a gente precisa batalhar”, conta. 

Jardel mora em Brasília há quase 20 anos. Antes disso, passou pelo Rio de Janeiro até chegar à capital em busca de trabalho. Foi frequentando o mercadão que conheceu Manoel e acabou entrando para a equipe do restaurante. “Eu gosto muito de vir aqui no mercado. Aí ele precisava de uma pessoa pra ajudar e eu também precisava complementar minha renda. Comecei a trabalhar com ele, ele gostou do meu trabalho e eu gostei muito de trabalhar com eles. Até hoje nós estamos aí na luta”, afirma.

Serviço

Endereço: 3ª Avenida Bloco 790, Loja 02, Núcleo Bandeirante, Brasília-DF.

Funcionamento: Segunda a quinta, das 11h às 15h; sexta-feira, das 11h às 15h30; sábado e domingo, das 11h às 15h.

Contato: (61) 3386-5122.

Libanus e a história afetiva de Brasília

Entre os bares e restaurantes que atravessaram gerações no Distrito Federal, o Libanus ocupa um espaço consolidado na memória de quem vive na cidade. Os proprietários do Libanus são do Ceará e fazem parte de uma tradição comum em Brasília: restaurantes de culinária árabe comandados por famílias nordestinas. 

O restaurante teve origem a partir de ex-sócios do Beirute e, desde 1991, passou a ser administrado por Narciso Marinho ao lado dos filhos Ítalo, Hévila e Isabela. A família trouxe do interior cearense a experiência no comércio e consolidou o Libanus como um dos pontos conhecidos da Asa Sul, mantendo a combinação entre comida árabe, funcionamento familiar que marcou a trajetória na capital federal.

O restaurante nasceu na quadra 206 Sul com a proposta de unir culinária árabe, clima de boteco e convivência familiar em um mesmo ambiente. Ao longo de mais de três décadas, a casa se tornou referência para moradores da capital, reunindo diferentes públicos em torno de pratos tradicionais, mesas ao ar livre e da conhecida cerveja servida em temperatura baixa.

O restaurante surgiu em um momento em que Brasília consolidava seus espaços de convivência fora do ambiente político. Enquanto o Beirute carregava uma imagem ligada a intelectuais, artistas e debates da capital, o Libanus apostou em um perfil mais voltado ao encontro entre amigos, ao happy hour e aos almoços de família. A ideia era manter a tradição da comida sírio-libanesa, mas aproximá-la da dinâmica dos bares brasileiros.

A trajetória do estabelecimento também acompanha mudanças vividas pela própria cidade. Frequentado por pioneiros, estudantes, servidores públicos, famílias e jovens, o restaurante atravessou décadas mantendo características que ainda hoje fazem parte da identidade do lugar, como o atendimento de garçons antigos, o parquinho infantil e as mesas espalhadas pela área externa da quadra.

Origem ligada ao bar Beirute

A história do Libanus começou a partir da experiência de antigos sócios do Beirute, um dos bares mais conhecidos de Brasília. Os fundadores decidiram abrir um novo negócio com foco em um ambiente mais descontraído, sem abandonar a tradição culinária árabe que já fazia sucesso na capital.

A casa foi inaugurada na Asa Sul e rapidamente formou uma clientela própria. Desde os primeiros anos, o restaurante passou a investir em um rígido sistema de refrigeração, o que ajudou a construir a fama da cerveja “trincando”, marca que atravessou gerações e ainda hoje é associada ao local.

Uma das proprietárias do restaurante, Hévia, relembra que a proposta sempre esteve ligada à permanência das pessoas no espaço. Segundo ela, o Libanus foi pensado para ser mais do que um restaurante. “A ideia sempre foi criar um lugar onde as pessoas pudessem sentar sem pressa, conversar, comer bem e se sentir parte da cidade”, afirma.

Ela também destaca que a culinária árabe serviu como base para a construção da identidade da casa. “A comida árabe já tinha força em Brasília, mas a gente queria aproximar isso do cotidiano das pessoas, do almoço de sábado, do encontro depois do trabalho, da reunião entre amigos”, diz.

Cardápio que atravessa gerações

Entre os pratos mais conhecidos está o Árabe Completo, combinação que reúne quibes crus e fritos, esfihas, homus, babaganush, tabule e pão sírio. O prato se tornou um dos símbolos do restaurante e permanece entre os mais pedidos da casa.

Outro item que ganhou espaço ao longo dos anos foi a Picanha Libanus, servida na chapa em porções voltadas ao compartilhamento. A mistura entre receitas árabes e pratos típicos de boteco ajudou a consolidar o perfil do estabelecimento.

A funcionária pública Rosenilda da Rocha, de 58 anos, lembra dos encontros de sábado no restaurante. “Eu ia muito para almoço de sábado com amigas. Gostava muito da comida árabe de lá, do quibe, da cerveja e daquele ambiente descontraído. As mesas ficavam espalhadas do lado de fora, às vezes até embaixo das árvores. Era um lugar para sentar, conversar e passar o tempo”, conta.

Ela afirma que o restaurante se tornou uma referência pessoal ao longo dos anos. “Era o meu árabe preferido. Não era um lugar de passagem rápida. A gente ia para aproveitar o momento e saborear a comida”, relata.

Espetos grelhados, arroz árabe e salada fresca compõem uma das combinações tradicionais servidas. O prato reúne elementos clássicos da culinária árabe em uma refeição completa e equilibrada (Crédito: Divulgação/
Ricardo DF)

Espaço familiar

O parquinho infantil instalado próximo às mesas também se transformou em uma das marcas do Libanus. O espaço ajudou a aproximar famílias e tornou o restaurante um ponto de encontro para pais e crianças na Asa Sul.

A cientista política Brenda Cabral, de 25 anos, afirma que parte da infância dela está ligada ao restaurante. “Eu passei muitos finais de semana no Libanus quando era criança. Era um dos poucos lugares da Asa Sul que tinham parquinho perto das mesas. Enquanto os adultos conversavam, as crianças brincavam ali”, lembra.

Ela diz que o restaurante se tornou parte das memórias da família. “Eu me lembro de brincar com meu irmão, com outros filhos de amigos dos meus pais e até de dormir nas cadeiras enquanto eles continuavam ali conversando. O Libanus fez parte da minha infância”, afirma.

Clientes fiéis durante a quarentena

A relação construída ao longo dos anos também ficou evidente durante a pandemia de Covid-19. Com as restrições sanitárias e o fechamento temporário do atendimento presencial, o restaurante passou a operar com delivery e drive-thru para manter as atividades.

Mesmo sem as mesas ocupadas na quadra da 206 Sul, clientes continuaram fazendo pedidos dos pratos mais tradicionais da casa, como o Árabe Completo e a Picanha Libanus. A movimentação ajudou o restaurante a atravessar um dos períodos mais difíceis para o setor de alimentação.

Segundo frequentadores, a fidelidade do público foi resultado da relação construída durante décadas. Muitos clientes mantiveram o hábito de consumir os pratos da casa mesmo sem poder frequentar o espaço físico.

Nova geração mantém funcionamento

Atualmente, o Libanus também possui unidade em Águas Claras, no Vitrinni Shopping, mantendo o mesmo perfil de atendimento e cardápio conhecido pelos clientes da Asa Sul. A operação passou a contar com a participação da nova geração da família na administração do negócio.

A jornalista e social media do restaurante, Giulia Roriz, de 30 anos, afirma que a relação dela com o local começou ainda na infância. “O Libanus sempre foi o bar preferido do meu pai em Brasília. Ele frequentava toda semana quando morava aqui e até hoje passa lá quando volta para a cidade”, conta.

Ela diz que o restaurante reúne públicos diferentes. “Quando você vai ao Libanus, encontra pessoas mais velhas, jovens, famílias, gente assistindo a jogos e clientes que frequentam há décadas. É um lugar que atravessa gerações”, afirma.

Giulia também destaca a relação próxima entre garçons e frequentadores. “Os garçons estão lá há muitos anos e conhecem os clientes pelo nome. Existe uma relação construída ao longo do tempo”, relata.

A professora Tainá Catelli, de 43 anos, frequentava o restaurante durante a época da faculdade e do estágio. “A gente ia para tomar uma cerveja depois do trabalho. Sempre foi conhecida como uma das cervejas mais geladas de Brasília. O atendimento era rápido e a comida muito boa”, lembra.

Entre os petiscos mais tradicionais da casa, o torresmo se destaca pelo sabor marcante e pela parceria perfeita com uma cerveja gelada (Crédito: Divulgação/ Ricardo DF)

Serviço

Endereço: CLS 206 Sul, Bloco C, Loja 36, no Plano Piloto

Horário: Diariamente, das 12h à 1h. O restaurante também realiza atendimento por telefone e delivery.

Meire Gontijo

Brasília é, essencialmente, uma cidade construída por migrantes. Segundo os dados mais recentes da PNAD Ampliada (Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios), divulgados em fevereiro de 2025, 15,3% da população do Distrito Federal veio do estado de Minas Gerais. 

Com isso, estima-se que existam hoje entre 250 mil e 260 mil mineiros morando no nosso quadradinho. Para além dos impactos sociais, o dado reflete diretamente na cultura gastronômica da capital. 

É assim que o restaurante Meire Gontijo se entrelaça com a história do Guará II. Criado em 2009 com o nome D’Lurdes, o espaço é um exemplo clássico de superação familiar, em que a tradição da culinária mineira trazida por migrantes transformou uma garagem de fundo de quintal em um dos pontos mais tradicionais do DF.

Meire e Lurdes transformaram a venda de marmitas em um dos restaurantes mineiros mais tradicionais do DF (Crédito: Luiza Marinho/IESB)

Garagem no Guará 

Dona Lurdes Nunes Cardoso nasceu nos anos 40 na zona rural de Minas. Criada na roça, mudou-se para Brasília com seu filho, Carlos Augusto, suas netas e sua nora, Meire Gontijo, natural de Morada Nova de Minas. 

Ao chegarem ao DF, a família passou a gerenciar uma distribuidora de CDs e livros, mas, com a crise desse setor no fim dos anos 2000, o negócio começou a dar prejuízos. Para ajudar a pagar as contas, Meire teve uma ideia simples, mas que mudaria a vida daquela família recém-chegada em uma cidade nova: vender marmitas de feijoada, direto da garagem de casa, no Guará.

“As pessoas não compravam mais CDs. Foi quando eu percebi que a gente poderia usar meu conhecimento na cozinha para começar a ganhar dinheiro. […] Tudo aconteceu muito rápido. Os clientes começaram a pedir outros pratos, que a gente pusesse umas mesinhas fora e, quando vi, tinha dado certo”, lembra Meire. 

O sucesso foi tão estrondoso que a família teve que se mudar. Mas a estratégia de fazer o restaurante funcionar em uma casa como um espaço afetivo se manteve na cabeça de Meire e Lurdes. A família comprou duas casas vizinhas na cidade e até hoje é lá onde o restaurante está localizado.

Apesar de Meire ter conhecimentos culinários, foi Lurdes que comandou as panelas sozinha no início, trazendo receitas afetivas de família, como o frango caipira com quiabo e a carne na lata. Além da feijoada, o prato Tiquim de Cada, uma combinação que reúne um pouco de todas as principais receitas do dia, como rabada com agrião, tutu, picadinho e linguiça artesanal, conquistou a clientela.

“Naquela época, poucas casas tinham geladeira e nós morávamos na fazenda. Então, era comum a carne ser guardada na lata. Havia também muito frango caipira e quiabo. Perdi minha mãe ao nascer, mas tive uma madrasta que sempre cozinhou e me ensinou muito. Por isso, quis trazer essas experiências pessoais para a cozinha, já que acredito fielmente que a comida, mais do que tudo, deve ser afetiva”, conta Meire. 

Com o tempo, Dona Lurdes passou a focar na gestão e no controle de qualidade, provando as panelas diariamente, enquanto a nora, Meire, e o chef Anderson Ferreira assumiram o protagonismo da cozinha. O sucesso foi tanto que a marca chegou a abrir uma filial em Águas Claras por alguns anos, embora o coração do negócio tenha permanecido no Guará.

A nova era

Mais recentemente, o icônico ponto da QE 30 passou por um processo de reposicionamento de marca. O restaurante assumiu a assinatura de sua chef executiva, tornando-se Meire Gontijo Cozinha Mineira. A mudança se deu também pelo fato da saída de Dona Lurdes do gerenciamento do restaurante. Com mais de 70 anos, o ritmo de comandar um buffet super movimentado ficou muito pesado. 

Apesar do novo nome, Meire afirma que ela e a sogra fortaleceram os laços durante a trajetória e que a nova era do restaurante foi um processo natural de transição geracional e merecimento. “Nós chegamos a pensar em voltar para Minas, onde ainda temos muitos familiares. Mas decidimos arriscar com o restaurante e deu certo. Foi a melhor escolha que fizemos e tenho certeza de que ela é grata por mim, assim como sou por ela.”

O restaurante funciona em duas casas no Guará II (Crédito: Luiza Marinho/IESB)

Impacto além da comida mineira-brasiliense

O Distrito Federal é uma cidade criada de migrantes e que continuamente, nos 66 anos de existência, constrói uma população que pode chegar a ser 100% brasiliense um dia. Tendo isso em mente, Meire Gontijo acredita que responder se existe uma comida tipicamente brasiliense vai muito além das experiências gastronômicas. Para ela, é preciso analisar quem constrói diariamente uma cidade tão jovem como o DF. 

“Temos um pouquinho de cada coisa e acho que a graça é essa. Brasília é uma cidade que foi feita por pessoas de todos os cantos desse país; acho que não teria como limitar a nossa história em um prato só. Somos feitos do que o Brasil nos proporciona, e aqui é um lugar em que qualquer um pode se sentir acolhido, justamente pelo fato de sermos tantos de tantos lugares diferentes”, enxerga. 

Quando falamos de um restaurante relativamente novo e que está construindo sua tradição, inegavelmente chegamos ao ponto de ouvir pessoas que têm suas vidas impactadas para além da culinária. 

Jordânia Ramos é analista de recursos humanos na empresa há oito meses e enxerga que o restaurante ampliou seu horizonte profissional. “Tem sido um desafio novo porque venho de outras áreas, mas é uma experiência incrível, um lugar acolhedor, cheio de histórias interessantes e com pessoas que fazem com que eu me sinta em casa”, afirma. 

Além das histórias vividas por quem faz parte do restaurante, existem também as memórias de pessoas que ali viveram momentos que futuramente seriam considerados nostálgicos — experiências que, de alguma forma, se entrelaçam com a história do Meire Gontijo.

Luciana Lacerda é uma delas. Moradora do Guará desde seu nascimento, a administradora conta que o restaurante esteve presente em sua vida desde sua inauguração em 2009 e que suas melhores memórias nele são com sua mãe, Maria da Penha, que faleceu em 2021. 

“Mamãe e eu adorávamos comer lá. Era um ponto de aconchego pelo fato de o restaurante e a comida serem tão acolhedores. Mesmo após seu falecimento, continuei frequentando o local com meus irmãos e meus sobrinhos. Creio que é importante manter viva a memória de momentos importantes que vivemos com alguém que já não está mais aqui, com pessoas que ainda estão conosco nesse plano”, comenta. 

Quando se trata de um prato tipicamente brasiliense, Luciana acredita que a cultura gastronômica do DF está totalmente atrelada às pessoas que construíram a capital. “Sobre a comida típica de Brasília, eu acredito que não exista propriamente uma, e tudo bem. O fato de não existir é totalmente coerente com a história dessa cidade, que é feita por culturas, regiões e pessoas diferentes.”

Serviço

Endereço: QE 30, Bloco A, Loja 11, Guará II, Brasília – DF, CEP 71065-300. 

Horário de funcionamento:  Almoço das 11:00 às 15:00 e jantar das 18:00 às 23:00.

Contato: (61) 3382-6625.

Pizzaria Dom Bosco

Diante do debate latente sobre se o Distrito Federal possui uma culinária genuinamente própria ou se o seu cardápio é apenas um reflexo tardio da mistura de influências trazidas de outras regiões do país, o balcão de inox da Pizzaria Dom Bosco, localizado na comercial da 107 Sul, oferece uma resposta viva, barata e democrática. 

Enquanto a capital federal se consolidava ao longo das décadas como o terceiro maior polo gastronômico do país, importando e adaptando tradições sofisticadas ou pratos robustos, como o icônico filé à parmegiana do Restaurante Roma ou o quibe do Beirute, a trajetória do pioneiro mineiro Enildo Veríssimo Gomes prova que a cidade também foi perfeitamente capaz de forjar um hábito alimentar único. Um patrimônio cultural nascido, criado e consumido de pé, dentro das linhas exatas do “quadradinho”.

Seu Enildo Veríssimo chegou à nova capital ainda na década de 1960, período em que Brasília era um canteiro de obras cercado por terra vermelha, promessas e uma efervescência migratória sem precedentes. Após uma passagem inicial e sacrificada trabalhando em uma lanchonete localizada na Praça dos Três Poderes, o jovem migrante vislumbrou a oportunidade de assumir o ponto comercial na Asa Sul, que funcionava originalmente como uma mini padaria mergulhada em grave crise financeira.

Sob o seu comando inicial, o acanhado espaço cumpriu um papel estritamente social e logístico: abastecer a imensa quantidade de operários, candangos e pioneiros que ajudavam a erguer os blocos de concreto da sociedade de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. O cardápio original daquela época não guardava nenhuma sofisticação, limitando-se ao essencial para dar energia aos trabalhadores: o tradicional pão com manteiga na chapa e o clássico café com leite quente.

A virada gastronômica que mudaria para sempre o paladar da cidade, contudo, nasceu de um misto de intuição comercial e puro acaso. Seu Enildo precisava preencher urgentemente o hiato comercial que esvaziava a lanchonete entre o término do café da manhã e o início do lanche do fim da tarde. Foi então que, de forma completamente despretensiosa, ele preparou uma receita simples de pizza para o consumo interno dos próprios funcionários da casa. Ao sentir o aroma que vinha do forno e notar a textura da massa, o comerciante foi incentivado a testar o produto diretamente no balcão de atendimento. O sucesso foi imediato e avassalador.

Há mais de seis décadas, a receita da Dom Bosco continua saindo do forno e fazendo parte da rotina dos brasilienses (Crédito: Nicole Moreira/IESB)

A “Dupla” 

A consolidação e a construção dessa identidade culinária tão específica passaram, obrigatoriamente, pela leitura atenta e sensível que o comerciante fez da dinâmica humana e demográfica da nova capital. Nos primeiros anos de Brasília, as superquadras da Asa Sul eram habitadas majoritariamente por altos funcionários públicos federais que haviam sido transferidos compulsoriamente da antiga capital, o Rio de Janeiro.

Observando o cotidiano desses novos moradores, Seu Enildo notou a saudade que os cariocas sentiam das praias, do mar e dos hábitos cotidianos do Rio. Foi nesse cenário que o mineiro teve a grande sacada de introduzir o chá mate gelado na estufa de bebidas da lanchonete. A combinação da bebida refrescante e adocicada com a gordura e o sal da pizza casou de forma perfeita e cirúrgica com o clima predominantemente seco, ventoso e empoeirado que castigava o Cerrado daquela época de consolidação urbana.

Pouco tempo depois, percebendo que a demanda pela pizza superava qualquer outro item do estabelecimento, o cardápio foi deliberadamente enxugado e simplificado ao extremo. O objetivo era focar na ultra especialização de apenas um sabor de pizza: massa de espessura média, molho de tomate artesanal e uma generosa camada de queijo muçarela perfeitamente gratinado. O combo, servido invariavelmente em par (duas fatias sobrepostas, uma virada contra a outra) e acompanhado por um copo de mate gelado, foi batizado por ele ali mesmo, no calor do atendimento: nascia oficialmente a “Dupla”.

“O prato típico de Brasília nasceu aqui, só tem em Brasília”, orgulha-se Seu Enildo ao relembrar a história do balcão. “A pizza virou a comida típica de Brasília, do Cerrado, e a gente fica com imensa gratidão por isso”.

A Qualidade do Sabor

Para além da simples mistura de ingredientes básicos, a metodologia empírica desenvolvida por Seu Enildo para fixar a Pizzaria Dom Bosco no topo da memória social, afetiva e cultural dos brasilienses reside em um conceito quase sagrado para a marca: a qualidade do sabor. Em um mercado gastronômico marcado pelo dinamismo feroz, pela gourmetização excessiva e por modismos passageiros, o pioneiro recusa terminantemente qualquer tipo de atalho financeiro ou alteração na receita original.

O controle sobre a regularidade do que é servido diariamente na chapa beira o obsessivo. O molho de tomate não leva conservantes industriais, o queijo mantém o mesmo fornecedor e o padrão de gordura há décadas, e o forno opera na mesma temperatura regulada que garante a base crocante e o topo macio da fatia.

“O segredo está em cima, olhar, não mudar e trabalhar sempre com produto de altíssima qualidade”, ensina o proprietário. “Você pode vir aqui de manhã bem cedo, comer a pizza, e sentir um sabor. Se você voltar aqui de tarde ou no final da noite, o gosto tem que ser exatamente o mesmo. Se o sabor mudar, você perde a confiança e perde o cliente”.

Em entrevistas concedidas ao longo dos anos para registrar a história da capital, Seu Enildo sempre fez questão de reforçar que a Dom Bosco não vende apenas comida rápida; ela vende uma espécie de âncora temporal em uma cidade que muda de forma acelerada. Enquanto Brasília se expandia e via surgir restaurantes internacionais de alta gastronomia, o balcão da 107 Sul permaneceu intacto, funcionando como um farol de estabilidade geográfica e afetiva.

Uma tradição que cresceu junto com a capital (Crédito: Nicole Moreira/IESB)

Impacto Cultural

A longevidade e o impacto cultural da Pizzaria Dom Bosco são tão profundos que o estabelecimento extrapolou a categoria de mero comércio para se tornar, por direito e força de lei, um Patrimônio brasiliense. A proposta de baseou-se justamente no fato de que o local ajuda a contar a história da ocupação urbana de Brasília através do paladar.

A análise minuciosa da trajetória do restaurante comprova que a identidade gastronômica do Distrito Federal não se apoia ou se sustenta apenas na fusão de diferentes eixos migratórios. Ela também se consolidou de forma robusta na capacidade genuína da cidade de criar rituais e hábitos cotidianos inteiramente próprios.

Ao optar por focar em um único e exclusivo serviço, ignorando sistematicamente as tendências tecnológicas e estéticas dos concorrentes modernos, Seu Enildo não criou apenas um modelo de negócios resiliente que hoje já se expande por várias regiões administrativas do DF. Ele sedimentou um ponto de encontro profundamente democrático. Ali, no mesmo balcão de inox, dividem o mesmo espaço físico o estudante da Universidade de Brasília, o operário da construção civil, o turista curioso e o político de terno e gravata vindo da Esplanada dos Ministérios. Todos conectados, de pé, com a própria história viva da capital federal a cada mordida.

Serviço

Endereço: CLS 107, Bloco D, Loja 20 – Asa Sul, Brasília – DF.

Horário de Funcionamento: Segunda a sábado, das 08h às 23h; Domingos, das 16h às 23h.

Fogão Goiano

Com pratos típicos de Goiás e Minas Gerais, o ‘Fogão Goiano’ se consolidou como um restaurante tradicional do Distrito Federal. Mais do que servir comida regional, o espaço reflete a diversidade cultural e a trajetória migratória que ajudaram a formar Brasília. Atualmente, o restaurante oferece um amplo buffet servido no fogão a lenha, reunindo receitas ligadas à culinária caipira e aos sabores do Cerrado.

Para a chefe da unidade do Núcleo Bandeirante, Terezinha Sousa Milhomem, essa combinação de referências regionais representa a própria formação gastronômica da capital federal. “Brasília não tem uma culinária definida. Ela é uma mistura da cultura mineira, goiana, paraibana e nordestina. Essa pluralidade cultural é o que constrói a identidade daqui”, afirma.

Segundo ela, o restaurante nunca precisou modificar o cardápio para conquistar o público brasiliense, justamente porque Brasília reúne moradores de diferentes partes do país. “Foi até fácil, porque Brasília é um pouco do Brasil inteiro”, diz. “A gente procura manter nossas raízes, preservando ingredientes como pequi, quiabo, jiló e torresmo. São elementos tradicionais que o público procura muito.”

A relação afetiva criada em torno da comida aparece também entre os clientes. Maria das Graças, de 53 anos, deixou o interior de Minas Gerais para morar em Brasília e encontrou no restaurante um ambiente que remete às lembranças da infância e da convivência familiar. “A comida daqui traz muito essa sensação de acolhimento”, relata.

O estudante Lucas Almeida, de 17 anos, neto de Maria das Graças, conta que cresceu frequentando o restaurante com a avó. “Desde criança venho aqui com minha família. É um lugar que já faz parte das nossas lembranças e encontros.” Ela conta que o restaurante se tornou parte da rotina da família ao longo dos anos. “A gente acaba criando memórias dentro do restaurante. Já comemoramos aniversário, Dia das Mães e reencontro de família aqui”, afirma.

Em uma cidade marcada pela presença de diferentes sotaques, origens e histórias, o ‘Fogão Goiano’ ocupa um espaço de encontro entre tradições culinárias e experiências pessoais. Entre receitas herdadas, ingredientes regionais e lembranças afetivas, o restaurante ajuda a representar parte da identidade cultural de Brasília — construída, sobretudo, pela mistura de influências.

Entre árvores, madeira e elementos da cultura regional, o Fogão Goiano oferece uma experiência que vai além da comida, valorizando as raízes da gastronomia do Centro-Oeste (Crédito: Nicole Moreira/IESB)

Origens que se transformaram em tradição

Essa relação entre comida e memória também está ligada à origem do restaurante. O ‘Fogão Goiano’ surgiu a partir da trajetória de uma família paraibana que migrou para Brasília em busca de melhores condições de vida. A experiência com a cozinha fazia parte da rotina familiar ainda no Nordeste e abriu caminho para que as refeições preparadas em casa começassem a ser comercializadas.

Com o passar do tempo, o negócio cresceu e transformou receitas caseiras em um restaurante voltado à culinária regional, reunindo sabores tradicionais de Goiás e Minas Gerais em um mesmo cardápio.

A primeira unidade foi inaugurada há cerca de 32 anos, em Luziânia (GO). Posteriormente, o restaurante expandiu as atividades para o Núcleo Bandeirante. Com ambiente rústico, fogão a lenha e pratos tradicionais como arroz com pequi, galinhada e feijão tropeiro, o espaço consolidou sua identidade a partir da valorização da comida afetiva e das raízes culturais presentes na formação de Brasília.

Hoje, o restaurante representa não apenas referências da culinária goiana e mineira, mas também a diversidade cultural presente na capital federal.

O espaço do restaurante reúne tradição e hospitalidade, representando a presença da culinária goiana na diversidade de sabores que fazem de Brasília um encontro das cozinhas brasileiras (Crédito: Nicole Moreira/IESB)

Um ambiente que remete ao interior

Logo na entrada do ‘Fogão Goiano’, o ambiente arborizado e o estilo rústico fazem referência ao interior goiano. Cercado por árvores, mesas de madeira e redes espalhadas pelo espaço, o restaurante aposta em uma atmosfera ligada à simplicidade e às tradições familiares associadas à comida caipira.

O letreiro de madeira preso ao tronco de uma grande árvore reforça a proposta do local de manter elementos relacionados ao interior e à convivência familiar.

A estrutura ampla e aberta permite que os clientes circulem entre o bufê servido no fogão a lenha e os diferentes ambientes do restaurante. Há áreas mais tranquilas e espaços voltados para encontros em grupo e apresentações musicais. Lustres rústicos, plantas suspensas e móveis de madeira ajudam a construir uma identidade visual marcada pela relação entre natureza e tradição regional.

Sabores goianos ajudam a compor a gastronomia brasiliense

Construída em território goiano e marcada pela chegada de migrantes de diversas regiões do país, Brasília desenvolveu uma relação direta com os sabores típicos do Cerrado e da culinária caipira. A proximidade geográfica e o intenso fluxo populacional entre o Distrito Federal e os municípios do Entorno contribuíram para consolidar pratos tradicionais de Goiás no cotidiano da capital.

Receitas como galinhada, empadão goiano, feijão tropeiro e pamonha passaram a fazer parte da alimentação de muitos brasilienses, ultrapassando barreiras regionais e sendo incorporadas à identidade gastronômica local.

O crescimento de buffets de comida caipira, pamonharias e das chamadas “jantinhas” demonstra como a culinária goiana foi absorvida pela dinâmica urbana de Brasília, aproximando diferentes públicos por meio de sabores associados à tradição e à memória familiar.

Além da influência na alimentação cotidiana, a gastronomia goiana também passou a ocupar espaço nas políticas de valorização cultural e alimentar do Distrito Federal. Estudos recentes do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) defendem a inclusão de frutos típicos do Cerrado na alimentação escolar pública. A proposta busca fortalecer a preservação de ingredientes regionais e incentivar a produção rural da região metropolitana.

Serviço

Endereço: Avenida Contôrno Chácara, 1045, no Núcleo Bandeirante.

Horário: de terça-feira a domingo, das 11h30 às 15h. Às segundas-feiras, o restaurante permanece fechado.

Preços: de terça a sexta-feira, o buffet livre custa entre R$83,90 e R$84,90 por pessoa, enquanto a opção por quilo sai por R$99,90. Aos sábados, domingos e feriados, os valores variam entre R$88,90 e R$89,90 no bufê livre e R$104,90 no quilo.